Mudanças climáticas podem pressionar inflação dos alimentos em Goiás
Possível impacto de eventos climáticos na produção agropecuária pode refletir nos preços dos alimentos e no orçamento das famílias goianas
A possibilidade de intensificação de um evento climático intenso como El Niño no segundo semestre, aliada à alta recente do boi gordo, acende um alerta para a inflação dos alimentos nos próximos meses. Em Goiás, onde a pecuária ocupa papel de destaque na economia, especialistas avaliam que um eventual impacto do fenômeno climático sobre a produção agropecuária poderá reduzir a oferta de alimentos e ampliar a pressão sobre o custo de vida.
O tema ganha força em um momento em que o mercado pecuário goiano registra valorização da arroba. Na primeira quinzena de junho, o estado esteve entre as poucas praças do país com aumento nas cotações do boi gordo, impulsionado principalmente pela menor oferta de animais prontos para o abate. Caso um evento climático intenso comprometa a produção agropecuária, a expectativa é de que a pressão sobre os preços possa se intensificar.
Nos últimos dias, o clima chamou atenção. Goiânia registrou, em junho, o maior volume de chuva desde o início da série histórica do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), iniciada em 1961. Apesar do temporal, o órgão esclareceu que o episódio não está diretamente relacionado ao El Niño. Segundo o Cimehgo, o fenômeno já foi oficialmente declarado, mas seus efeitos ainda estão em desenvolvimento e devem se tornar mais evidentes entre agosto e novembro.
Menor disponibilidade de alimentos pode pressionar preços
Para a economista Greice Guerra, independentemente de o fenômeno provocar estiagem ou excesso de chuvas, a consequência tende a ser a mesma para a produção de alimentos. “Seja como for, excesso de secas ou excesso de águas, sempre provoca problemas nas produções dos alimentos.” Segundo Guerra, uma eventual quebra na produção pode comprometer culturas agrícolas, afetar a pecuária e reduzir a oferta de produtos no mercado.
A economista explica que a menor disponibilidade de alimentos tende a pressionar os preços de frutas, verduras, carnes e outras proteínas. “Uma vez que essa condição climática afeta o agronegócio, isso afeta os preços dos alimentos: frutas, verduras, carnes e proteínas”. Com isso, a inflação volta a ganhar força e dificulta a atuação do Banco Central na redução dos juros.
Os impactos chegam rapidamente ao orçamento das famílias. De acordo com Greice, a elevação do preço da carne bovina leva muitos consumidores a buscar alternativas mais baratas, como frango, peixes em conserva e proteínas vegetais. A substituição ocorre principalmente porque a inflação reduz o poder de compra e obriga as famílias a reorganizarem os gastos com alimentação.
Taxa Selic
O cenário também pode influenciar as próximas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros. Na quarta-feira (17), o Copom reduziu a taxa Selic de 14,50% para 14,25% ao ano. Embora a decisão represente o terceiro corte consecutivo, a economista avalia que o espaço para novas reduções continua limitado.
Segundo a economista, a expectativa de inflação segue elevada e um aumento dos preços dos alimentos provocado por fatores climáticos pode exigir ainda mais cautela da autoridade monetária. “Todo esse cenário de uma maneira geral, de juros altos com possível alteração do clima que pode refletir na alta dos alimentos e também devido a menor oferta dos mesmos pode acarretar redução da atividade econômica de uma maneira geral”.
Além de encarecer o crédito, juros elevados reduzem o consumo das famílias e desestimulam investimentos das empresas, afetando o ritmo da economia. Para Greice Guerra, esse movimento também será percebido pelos goianos.
“Ainda que Goiás seja um grande produtor, quando falamos de agronegócios, o consumidor goiano tende a sentir sim, ele não escapa disso não, porque quando se tem uma inflação, ela é de uma maneira generalizada”, afirma.
Segundo a economista, a força da produção agropecuária não impede que o aumento dos preços seja sentido no supermercado e em outros setores da economia, e reforça a preocupação com os efeitos que um cenário climático adverso pode trazer para os próximos meses.
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