quarta-feira, 17 de junho de 2026
impacto no prato

Alta do boi gordo em Goiás acende alerta para preço da carne

Escassez de animais prontos para o abate elevou as cotações do boi gordo em Goiás na primeira quinzena de junho

Anna Salgadopor Anna Salgado em 16 de junho de 2026
gado
Legenda: Escalas de abate mais curtas e menor oferta de animais sustentam a alta das cotações do boi gordo em Goiás | Foto: Arquivo/ABr

Na contramão do cenário observado em grande parte do país, o mercado pecuário de Goiás registrou alta nas cotações do boi gordo na primeira quinzena de junho. O movimento também foi verificado em Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, enquanto outras regiões apresentaram estabilidade nos preços ou tentativas de compra em valores mais baixos por parte dos frigoríficos. A valorização da arroba ocorre em meio à redução da oferta de animais prontos para o abate e à expectativa de aumento da demanda por carne bovina.

Segundo análises do setor, o principal fator que impulsiona a alta é a escassez de animais disponíveis para atender à demanda das indústrias frigoríficas. Com escalas de abate mais curtas, os compradores têm elevado as ofertas para garantir o abastecimento das plantas frigoríficas. A menor disponibilidade de gado para abate cria um desequilíbrio entre oferta e demanda, favorecendo a valorização da arroba.

O mercado também atravessa uma fase de transição climática. Após um período de estresse hídrico que comprometeu as pastagens e levou muitos pecuaristas a anteciparem o envio de animais para o abate, algumas regiões passaram a apresentar melhores condições de retenção do rebanho. Com isso, parte dos produtores reduz o ritmo de comercialização, limitando a entrada de novos lotes no mercado. A economista Greice Guerra, ressalta que o abate pode ser comprometido pela deocrrência do El Ninõ. Paralelamente, há expectativa de aumento do consumo interno no curto prazo, impulsionado por eventos que tradicionalmente elevam a demanda por carne bovina, como os jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

Apesar da valorização recente, Goiás continua entre os estados com menor preço da arroba do boi gordo no país. Enquanto a referência média em São Paulo gira em torno de R$ 357,83, em Goiás o valor é estimado em aproximadamente R$ 341,43. A diferença está relacionada a fatores estruturais do mercado pecuário brasileiro.

Entre eles estão as condições das pastagens, que sofreram maior desgaste em Goiás e Minas Gerais durante períodos de estiagem, a proximidade de São Paulo dos principais centros consumidores e da infraestrutura de exportação e o elevado volume de produção goiano. Com um dos maiores rebanhos bovinos do país, Goiás frequentemente apresenta uma oferta expressiva de animais, o que contribui para a manutenção de preços mais competitivos em comparação a outras regiões.

Para os produtores rurais, a alta representa um aumento na receita obtida com a comercialização do gado, em um contexto em que os custos de produção seguem exigindo atenção. Ao mesmo tempo, o preço mais baixo da arroba em relação a outras praças pode tornar o estado atrativo para os frigoríficos, que encontram em Goiás uma matéria-prima mais competitiva. Esse cenário favorece a manutenção da atividade industrial e do fluxo de comercialização no setor pecuário.

Os reflexos da valorização do boi gordo já começam a ser observados no mercado atacadista. O segmento registrou aumento nos preços recentemente, impulsionado pela reposição dos estoques do varejo e pela expectativa de crescimento do consumo nas próximas semanas. A tendência é que parte desse aumento seja repassada ao longo da cadeia produtiva, chegando aos açougues e supermercados.

Além disso, representantes do mercado apontam que a carne bovina vem perdendo competitividade em relação a outras proteínas, especialmente o frango. Com a elevação dos preços da matéria-prima, consumidores podem ampliar a procura por alternativas consideradas mais acessíveis. “ A retração do setor produtivo, causa maior é a inibição do consumo das famílias, que são obrigadas a substituir esse produto por outra alternativa ou até mesmo uma proteína vegetal.” ressalta a economista.

As perspectivas para o segundo semestre de 2026 indicam continuidade da pressão sobre os preços. Em complemento, o economista Luis Carlos Ongaratto, pontua que os impactos deverão ser sentidos pelo consumidor por uma “tendência inflacionária” durante todo o resto do ano. A expectativa do setor é de demanda aquecida em razão de fatores como a Copa do Mundo, o calendário eleitoral e a retomada das exportações para a China após ajustes nas cotas anuais.

Outro fator acompanhado pelo mercado é o período de retenção de fêmeas, que costuma se intensificar a partir de julho. Nessa fase, produtores optam por manter parte das matrizes no rebanho para reprodução, reduzindo a oferta de animais destinados ao abate.

Diante desse cenário, o mercado segue monitorando a evolução da oferta de gado, o comportamento do consumo interno e o ritmo das exportações, fatores que deverão influenciar a formação dos preços da carne bovina nos próximos meses.

 

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