De solução emergencial a tendência de mercado: telemedicina ganha força no país
Saúde mental, acompanhamento de doenças crônicas e avanços tecnológicos impulsionam a expansão das consultas remotas
A telemedicina deixou de ser uma solução emergencial adotada durante a pandemia de Covid-19 para se tornar um dos segmentos mais promissores do mercado de saúde brasileiro. Com consultas realizadas por videochamadas, monitoramento remoto e análise digital de exames, a modalidade ampliou o acesso aos serviços médicos, reduziu distâncias e inaugurou novas possibilidades de atendimento e gestão em saúde.
Os números mostram a dimensão dessa transformação. Entre 2020 e 2022, foram realizadas cerca de 11 milhões de consultas remotas no país. Em 2023, esse volume ultrapassou a marca de 30 milhões de atendimentos. Um ano após a regulamentação da telemedicina no Brasil, o uso do serviço registrou crescimento de 172%, demonstrando que o modelo foi incorporado por pacientes, profissionais e instituições de saúde.

Mercado impulsionado por praticidade e eficiência
A principal vantagem da telemedicina está na conveniência. O paciente pode realizar consultas sem deslocamentos, receber orientações médicas, solicitar receitas, atestados e acompanhar tratamentos utilizando apenas um computador ou smartphone conectado à internet.
O empresário Guilherme Gimenes é um dos usuários frequentes da modalidade. Para ele, a praticidade e a rapidez são os principais benefícios. Por outro lado, reconhece que problemas de conectividade e limitações para determinados diagnósticos ainda representam obstáculos.
Para os profissionais de saúde, a tecnologia também trouxe ganhos importantes de produtividade. Médicos relatam que a modalidade permite otimizar agendas, reduzir o tempo de espera para atendimentos e ampliar a capacidade de acompanhamento dos pacientes.
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A pneumologista Eloara Campos afirma que aproximadamente metade de seus atendimentos já ocorre de forma remota. Segundo a especialista, uma anamnese bem conduzida é capaz de direcionar grande parte das hipóteses diagnósticas iniciais. Já a geriatra Cristiane Vasconcellos destaca que a telemedicina facilita triagens, acompanhamentos pós-operatórios e orientações a familiares e cuidadores, especialmente no caso de idosos com mobilidade reduzida.
Saúde mental e doenças crônicas lideram a expansão
Embora a telemedicina esteja presente em diversas especialidades, algumas áreas apresentam índices de adoção mais elevados. A psiquiatria lidera o movimento no país, com aproximadamente 15,9% das consultas já realizadas de forma online. Em seguida aparece a psicologia, com quase 10% dos atendimentos remotos.
A expansão também alcançou especialidades como gastroenterologia, clínica médica, ginecologia, cardiologia e pneumologia. O atendimento à distância se consolidou principalmente em consultas de retorno, avaliação de exames, acompanhamento hormonal e monitoramento de doenças crônicas.
Na psiquiatria, a modalidade tem possibilitado intervenções em momentos críticos, permitindo atendimento imediato após crises de ansiedade ou em situações nas quais o paciente encontra dificuldades para sair de casa. Na cardiologia, o monitoramento contínuo favorece o acompanhamento regular, reduzindo deslocamentos e ampliando a adesão ao tratamento.
Além disso, a telemedicina passou a funcionar como importante ferramenta de triagem para casos de baixa complexidade, ajudando a desafogar consultórios, clínicas e hospitais.

Desigualdade regional e desafios de infraestrutura
Apesar do crescimento acelerado, a expansão da telemedicina ainda ocorre de forma desigual no território nacional. Santa Catarina lidera a adoção do modelo, com cerca de 20,7% das consultas intermediadas por plataformas digitais realizadas de forma remota. O desempenho do estado impulsiona a Região Sul, onde mais de 13% dos atendimentos já acontecem online.
Em âmbito nacional, entretanto, a telemedicina ainda representa parcela relativamente pequena do total de consultas, respondendo por aproximadamente 3,7% dos atendimentos intermediados por plataformas digitais.
O Centro-Oeste também vem avançando. A participação das consultas remotas na região saiu de apenas 0,05% em 2020 para 0,89% em 2026. Em Goiás, a modalidade tem ganhado espaço principalmente em municípios do interior, onde o atendimento online surge como alternativa para reduzir dificuldades de acesso a especialistas e diminuir a necessidade de deslocamentos para grandes centros urbanos.
A próxima etapa de crescimento da telemedicina deverá ir muito além das videochamadas. O setor caminha para um modelo mais integrado, baseado na interoperabilidade de dados, inteligência artificial e automação operacional.