Mulheres goianas transformam renda extra em liberdade financeira
Com negócios iniciados dentro de casa, goianas usam redes sociais, artesanato e vendas online para complementar renda, conquistar autonomia e realizar o sonho do próprio negócio
O empreendedorismo feminino deixou de ser apenas alternativa diante da necessidade e passou a representar, para milhares de mulheres goianas, um caminho possível de autonomia financeira, realização pessoal e construção de futuro. Em Goiás, negócios iniciados de forma simples – muitas vezes dentro de casa, entre uma rotina de trabalho, filhos e tarefas domésticas – começam como complemento de renda e acabam se transformando em sonhos concretos de independência.
Dados do Sebrae apontam que o Brasil atingiu, em 2025, um recorde histórico de mulheres à frente de negócios: 10,4 milhões de empreendedoras. Em comparação com 2015, quando o país registrava 8,2 milhões de donas de negócio, o crescimento foi de 27% em uma década – avanço 16 pontos percentuais maior do que o registrado entre homens empreendedores no mesmo período.
Apesar de as mulheres representarem 51,8% da população em idade ativa no país, elas ainda correspondem a 34,3% dos donos de negócio. Ainda assim, especialistas apontam que o movimento cresce principalmente entre mulheres que enxergam no empreendedorismo inicial uma forma de complementar renda, conquistar independência financeira e construir patrimônio próprio.
Além disso, o perfil das empreendedoras brasileiras também mudou. O levantamento do Sebrae mostra aumento expressivo da escolaridade feminina: entre 2012 e 2025, houve salto de 18,6 pontos percentuais na faixa de mulheres empreendedoras com ensino superior incompleto ou mais. Hoje, elas possuem escolaridade superior à média masculina no empreendedorismo.
Pequenos começos, grandes mudanças
Em Goiânia, a analista de marketing Ranny Ellen, de 23 anos, representa uma nova geração de mulheres que enxergam no empreendedorismo uma construção gradual, feita paralelamente à carreira profissional.
Moradora do Jardim Guanabara, ela trabalha em uma concessionária da capital, mas decidiu dar os primeiros passos no sonho de ter o próprio negócio ao lado da amiga Ana Luíza. Juntas, criaram a Reversa Lingerie, marca voltada ao segmento de moda íntima.
Antes mesmo das vendas começarem, as duas apostaram no que já dominavam: marketing digital, posicionamento de marca e construção de comunidade nas redes sociais.
“Sempre tive vontade de construir algo meu. Cresci vendo minha mãe sair cedo para trabalhar todos os dias, lutando pela nossa família. Isso me fez entender muito cedo o valor do trabalho e também despertou em mim esse desejo de independência”, conta.
Ela explica que o projeto ainda nasce de forma cautelosa, conciliando emprego fixo e empreendedorismo. “Existe medo porque envolve investimento, risco e responsabilidade. Mas também existe muita vontade. Não quero largar tudo de uma vez. Quero crescer aos poucos, aprender e fazer acontecer de forma sólida.”
Para Ranny, empreender vai além da renda. “Tem muito significado emocional. Penso na possibilidade de ajudar minha mãe, dar mais tranquilidade para minha família e mostrar para outras mulheres que é possível começar pequeno.”

Do crochê ao sustento próprio
Se para algumas mulheres o empreendedorismo nasce cedo, para outras ele surge como redescoberta na maturidade.
Foi o caso de Cláudia Helena, de 50 anos, moradora de Goiânia, que encontrou no crochê uma nova fonte de renda e independência emocional.
O que começou apenas como passatempo dentro de casa virou encomendas, produção artesanal e complemento financeiro. Entre linhas, agulhas e peças feitas manualmente, ela passou a produzir tapetes, roupas e artigos decorativos.
“No começo eu fazia porque gostava, para ocupar o tempo. Depois algumas pessoas começaram a pedir peças. Quando percebi, já estava organizando encomendas e pensando em preços”, relembra.
Para ela, o maior desafio foi reconhecer o próprio valor. “Muitas vezes a mulher acha que aquilo que sabe fazer não tem importância. Eu precisei aprender que trabalho manual também é trabalho, exige tempo, dedicação e merece ser valorizado.”
Hoje, Cláudia afirma que o crochê mudou não apenas sua renda, mas também sua autoestima. “É uma satisfação muito grande saber que consigo gerar renda com algo feito pelas minhas mãos. Isso traz independência e confiança.”
Ela faz questão de reforçar que nunca é tarde para começar. “Empreender não tem idade. Às vezes o negócio está dentro da casa da gente e a mulher ainda não percebeu.”

Mulheres mais escolarizadas e negócios mais formalizados
O avanço do empreendedorismo feminino também aparece nos indicadores de formalização e renda. Segundo o Sebrae, 37% das mulheres empreendedoras já possuem CNPJ – índice superior ao registrado entre homens. A contribuição para a previdência social também é maior entre elas: 43% das mulheres donas de negócio contribuem regularmente, contra 39% dos homens.
Outro dado que chama atenção é a redução da desigualdade de rendimento. Embora mulheres empreendedoras ainda recebam, em média, 24% menos que homens, essa diferença caiu 9,5 pontos percentuais entre 2012 e 2025. Atualmente, a renda média feminina entre donas de negócio chegou a R$ 2.929,94 – o maior valor já registrado pela pesquisa.
Especialistas apontam que esse crescimento está diretamente ligado à expansão das redes sociais, da venda digital e da profissionalização de pequenos negócios criados dentro de casa. Em Goiás, segmentos como moda, alimentação, beleza, artesanato e comércio online lideram esse movimento.
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Independência financeira e transformação social
Apesar do crescimento, os desafios ainda existem. Mulheres empreendedoras continuam enfrentando dificuldades maiores no acesso ao crédito, além da sobrecarga causada pela dupla jornada entre trabalho e responsabilidades domésticas.
Ainda assim, o empreendedorismo feminino produz impactos que vão além da economia. Quando uma mulher amplia sua renda, toda a dinâmica familiar costuma ser transformada.
Em Goiás, histórias como as de Ranny e Cláudia mostram justamente isso: o empreendedorismo nasce, muitas vezes, de pequenas iniciativas silenciosas, construídas aos poucos, entre o tempo livre, a criatividade e a necessidade de buscar autonomia.
Seja vendendo lingeries pela internet, produzindo peças artesanais ou começando um negócio dentro de casa, mulheres goianas vêm mostrando que empreender também é uma forma de conquistar liberdade, reconhecimento e novos horizontes.