quarta-feira, 20 de maio de 2026
Rendimento dos lares

Mulheres assumem comando financeiro dos lares e transformam realidade das famílias em Goiás

Com avanço no mercado de trabalho e no empreendedorismo, mulheres goianas sustentam casas, ampliam presença na economia, mas ainda enfrentam desigualdade salarial e sobrecarga doméstica

Letícia Leitepor Letícia Leite em 19 de maio de 2026
4 abre Mulheres assumem lares Foto Retomada Rodrigo Cabral e Lucas Diener
Mais da metade dos lares brasileiros já têm mulheres como principais responsáveis financeiras. Foto: Retomada/ Rodrigo Cabral e Lucas Diener

As mulheres brasileiras têm assumido, cada vez mais, o protagonismo financeiro dentro de casa. Dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) mostram que, no fim de 2024, elas passaram a representar a maioria entre os chefes de família no País, alcançando 51,7% dos lares brasileiros, o equivalente a 41,3 milhões de mulheres responsáveis financeiramente por suas famílias. O crescimento foi de 87% em comparação com 2012.

A mudança também aparece em pesquisas recentes da Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box. O levantamento aponta que 34% das mulheres brasileiras são as únicas responsáveis pelo sustento do lar. O percentual sobe para 45% entre mulheres das classes D e E. A pesquisa ainda mostra que 85% das entrevistadas acreditam que as mulheres conquistaram mais espaço nas decisões financeiras da família, embora 87% considerem que essa contribuição ainda seja subestimada.

Em Goiás, o avanço da participação feminina no mercado de trabalho acompanha essa transformação social. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), analisados pelo Instituto Mauro Borges (IMB), mostram que o Estado registrou 1,694 milhão de mulheres ocupadas no último trimestre de 2025, maior número da série histórica. Em comparação com o mesmo período de 2024, quase 60 mil mulheres passaram a integrar o mercado de trabalho goiano, crescimento de 3,7%, acima da média nacional.

O comércio concentra a maior quantidade de mulheres ocupadas no Estado, seguido pelos serviços domésticos, educação, saúde e alimentação. O empreendedorismo também cresce. Segundo a PNAD Contínua, 377,2 mil mulheres comandavam negócios próprios em Goiás no fim de 2025, maior marca já registrada.

Para a pesquisadora do FGV IBRE, Janaína Feijó, a ampliação da presença feminina no mercado de trabalho, o maior acesso à educação e as mudanças socioculturais ajudam a explicar o crescimento das mulheres como principais provedoras das famílias. Segundo ela, o avanço não ocorre apenas entre mães solo. Em 2024, o maior grupo de mulheres chefes de família era formado por casadas com filhos, representando 32% do total.

A realidade é vivida pela diarista e empreendedora informal Maria Aparecida, de 42 anos, moradora de Goiânia. Após a separação, ela passou a sustentar sozinha os dois filhos e encontrou na venda de marmitas uma forma de complementar a renda.

“Eu faço faxina durante o dia e preparo as marmitas à noite. Tem dia que é cansativo demais, mas eu preciso garantir as contas de casa e o futuro dos meus filhos”, relata.

Desigualdade salarial das mulheres ainda persiste 

Apesar dos avanços, as desigualdades persistem. Dados mais recentes da PNAD Contínua mostram que as mulheres goianas ainda recebem, em média, 38,4% menos que os homens. Enquanto o rendimento médio masculino no Estado chega a R$ 4.126 por mês, o feminino é de R$ 2.982.

A desigualdade aumenta quando o recorte envolve raça. Em Goiás, pessoas brancas recebem, em média, R$ 4.643 mensais, valor 64,9% superior ao rendimento médio da população preta, estimado em R$ 2.816.

O Relatório de Transparência Salarial do governo federal também aponta diferença significativa nos salários pagos em empresas goianas com 100 ou mais funcionários. Nesses estabelecimentos, as mulheres recebem, em média, 22,9% menos que os homens, mesmo representando quase 40% da força de trabalho.

Para a especialista da Serasa em educação financeira, Aline Vieira, os números revelam um cenário de avanços acompanhado por desafios estruturais. “Ao mesmo tempo em que assumem mais responsabilidades econômicas, elas ainda enfrentam desafios estruturais que impactam sua autonomia financeira”, afirma.

Para o secretário-geral de governo goiano, Adriano da Rocha Lima, os números evidenciam avanços importantes na participação feminina na economia goiana. “Os dados mostram que as mulheres têm ampliado sua presença no mercado de trabalho e, também, no empreendedorismo em Goiás. Esse avanço é resultado da capacidade, da dedicação e da iniciativa das mulheres goianas, que contribuem diariamente para o desenvolvimento econômico e social do estado,” ressaltou. 

A sobrecarga doméstica aparece como uma das principais barreiras. Segundo a pesquisa da Serasa, 91% das mulheres afirmam ter dificuldade para equilibrar trabalho e tarefas da casa, enquanto 76% acreditam que a igualdade de gênero no mercado de trabalho ainda enfrenta obstáculos.

Mesmo diante das dificuldades, especialista avalia que a presença feminina no centro das decisões financeiras representa uma transformação definitiva na estrutura das famílias brasileiras. Em Goiás, o crescimento da participação das mulheres na economia mostra que elas têm ocupado, cada vez mais, espaços de liderança dentro e fora de casa.

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