terça-feira, 19 de maio de 2026
NEGÓCIOS

Autistas usam IA para driblar barreiras no trabalho em Goiás

Tecnologia transforma rotina de autistas no mercado de trabalho goiano

Otavio Augustopor Otavio Augusto em 18 de maio de 2026
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A utilização de ferramentas com inteligência artificial (IA) tem ganhado espaço entre jovens e adultos autistas em Goiás como apoio para inserção, adaptação e permanência no mercado de trabalho. Aplicativos de organização, plataformas de comunicação assistida, softwares de produtividade e sistemas de apoio emocional passaram a fazer parte da rotina de profissionais diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente em setores ligados à tecnologia, educação, saúde e serviços.

O avanço das tecnologias ocorre em um cenário de crescimento da discussão sobre inclusão profissional e acessibilidade no ambiente corporativo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados com base no Censo Demográfico de 2022, apontam que o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o equivalente a 1,2% da população. Apenas na região Centro-Oeste são aproximadamente 180 mil pessoas diagnosticadas.

Em Goiás, especialistas avaliam que a combinação entre tecnologia, adaptação organizacional e novas políticas de inclusão pode ampliar as oportunidades de emprego e reduzir barreiras históricas enfrentadas por autistas no ambiente profissional.

Autista

Ferramentas ajudam na comunicação e rotina

Para muitos profissionais autistas, a inteligência artificial deixou de ser apenas uma tecnologia de apoio e passou a funcionar como instrumento de autonomia. Ferramentas digitais ajudam na interpretação de mensagens, organização de tarefas, previsibilidade de rotinas e até na preparação para interações sociais no ambiente de trabalho.

A técnica em enfermagem e estudante da Universidade Federal de Goiás (UFG), Isangela Barbosa, de 39 anos, afirma que a IA auxilia principalmente na comunicação e na redução de conflitos provocados por interpretações equivocadas.

Segundo ela, plataformas baseadas em inteligência artificial ajudam a estruturar diálogos, organizar informações e reduzir desgastes emocionais provocados pela necessidade constante de explicar limitações e necessidades específicas no ambiente profissional.

O uso dessas tecnologias também tem avançado em áreas como recrutamento, treinamentos corporativos e recursos humanos. Empresas passaram a utilizar ferramentas para adaptar conteúdos, flexibilizar formas de comunicação e criar ambientes mais acessíveis para trabalhadores neurodivergentes.

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Inclusão ainda enfrenta desafios nas empresas

Apesar do avanço da tecnologia, especialistas apontam que a permanência de pessoas autistas no mercado de trabalho ainda enfrenta obstáculos estruturais. Entre os principais desafios aparecem excesso de estímulos sonoros, mudanças bruscas de rotina, jornadas rígidas, falta de compreensão das lideranças e ausência de adaptações no ambiente corporativo.

A professora do Instituto de Matemática e Estatística da UFG, Sunamita Souza, destaca que muitas dificuldades continuam invisíveis dentro das instituições. Ela afirma que pessoas autistas frequentemente enfrentam sobrecarga emocional e esgotamento provocado pela necessidade constante de adaptação social.

A situação também impacta familiares. A legislação brasileira prevê redução de carga horária para servidores públicos com deficiência ou responsáveis por dependentes com deficiência. A Lei Federal nº 13.370/2016 garante esse direito sem necessidade de compensação de horário. Em Goiás, a Lei Estadual nº 20.756 também prevê jornada reduzida para servidores nessa condição.

Mesmo assim, profissionais relatam dificuldades para conseguir o benefício. A turismóloga Amanda Alves afirma que enfrenta impasses administrativos relacionados ao reconhecimento do diagnóstico durante processos periciais para solicitação de redução da carga horária.

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Goiás amplia debate sobre neurodiversidade

Universidades, associações e grupos de apoio em Goiás também passaram a ampliar ações voltadas ao tema. A Associação de Familiares e Amigos do Autismo de Goiás (AFAAG) acompanha famílias e adultos autistas em processos ligados à empregabilidade e acolhimento social.

A fundadora da entidade, Alessandra Jacob, afirma que muitos autistas desenvolvem ansiedade e insegurança diante das dificuldades de inserção profissional. Segundo ela, ferramentas digitais podem ajudar no reconhecimento de emoções, na organização da rotina e na previsibilidade das interações sociais.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam que a tecnologia não deve substituir relações humanas nem incentivar isolamento social. O desafio, segundo pesquisadores da área, é equilibrar inovação tecnológica com inclusão real dentro das empresas.

 

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