Agronegócio

Conflito no Oriente Médio eleva custo do agro em Goiás e pode encarecer alimentos

Alta nos preços de fertilizantes e combustíveis preocupa produtores goianos às vésperas da próxima safra e pode gerar impacto direto no preço de carnes, leite, ovos e itens da cesta básica

João Césarpor João César em 15 de maio de 2026
Agro
Aumento global no preço de fertilizantes nitrogenados e do diesel pressiona custos do agronegócio goiano e acende alerta para inflação dos alimentos nos próximos meses - Foto: Arquivo/ABr

Com a continuidade do conflito na região do Oriente Médio, diversos produtos essenciais para cadeias produtivas pelo mundo estão com uma alta de preços. Em Goiás, um dos grandes impactos está no custo produtivo do agronegócio, principal fonte de arrecadação do Estado.

O fechamento do Estreito de Ormuz e a intensificação do conflito entre Irã e Estados Unidos causou um aumento no preço das matérias primas para produção de fertilizantes, fosfatados e nitrogenados. Nesse caso, a produção de grãos e alimentos em Goiás sofre ao precisar desse tipo de fertilizante e com a proximidade da próxima safra os produtores entram em alerta.


De acordo com um levantamento da da S&P Global, os preços dos fertilizantes nitrogenados já acumulam alta superior a 60%, enquanto os fosfatados seguem com oferta global restrita, devido a restrições no transporte, o que dificulta a recomposição de estoques no curto prazo. Esse aumento pressiona ainda mais um setor que já sofre com juros altos, alta inadimplência e custos operacionais elevados. 

Para o analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), Vilmar Júnior, os impactos sobre a safra atual ainda são limitados, uma vez que grande parte da produção já está em fase avançada no campo e não depende mais da aplicação intensiva de fertilizantes. Entretanto, ele alerta que os efeitos devem ser sentidos diretamente na próxima temporada agrícola.

“Por outro lado, esse aumento nos preços do fertilizante vai impactar diretamente a nossa próxima safra, que já estima-se um aumento do custo de produção novamente justamente por conta dos fertilizantes. Vai ser sentido principalmente nos nitrogenados, que têm um grande impacto no milho. Então, se todo esse cenário continuar, vamos ter um preço para a safrinha de milho 27/27”, explica.

O milho deve ser uma das culturas mais pressionadas pelo aumento dos fertilizantes nitrogenados, já que esse tipo de nutriente é essencial para garantir produtividade elevada na segunda safra.

O economista Luiz Carlos Ongaratto afirma que o impacto econômico não deve ficar restrito ao setor agrícola. Segundo ele, toda a cadeia de proteínas animais tende a sentir os efeitos do aumento do milho, principal componente utilizado na fabricação de rações.

“O milho da segunda safra, especificamente, é o principal componente da ração animal, logo, o aumento não fica restrito aos grãos, mas encarece diretamente a produção de proteínas, como carnes, ovos e leite, pressionando os itens mais essenciais da cesta básica”, destaca.

Além da pressão causada pelos fertilizantes, outro fator que amplia os custos do agronegócio é o aumento do preço dos combustíveis. A escalada das tensões internacionais também elevou as cotações do petróleo no mercado externo, refletindo diretamente no preço do diesel utilizado em máquinas agrícolas e no transporte da produção.

“Mesmo que a alta nos fertilizantes não impacte mais o custo de produção desta safra, o aumento dos combustíveis pode sim impactar para essa safra. Porque ainda precisa ser feita toda a parte logística, como a colheita e o transporte”, acrescenta Vilmar Júnior.

O aumento dos insumos agrícolas e do diesel gera um efeito em cadeia que chega até o consumidor final. Produtos de hortifruti, carnes, leite, ovos e outros itens básicos dependem de uma estrutura produtiva fortemente ligada ao transporte rodoviário e ao uso intensivo de fertilizantes ao longo da cadeia.

Segundo Ongaratto, o impacto tende a ser percebido principalmente pela população de menor renda, já que os alimentos representam parcela significativa do orçamento familiar. “O consumidor sente no bolso em duas frentes: no custo de produção e na distribuição. Além do insumo mais caro na fazenda, temos o peso do diesel. No Brasil, a logística é predominantemente rodoviária; se o combustível sobe, o frete acompanha”, explica.

O economista destaca ainda que o aumento contínuo dos alimentos pode provocar perda de poder de compra, ampliar pressões inflacionárias e dificultar o controle da inflação nos próximos meses.

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