quarta-feira, 13 de maio de 2026
Programação de renegociação

Desenrola 2.0 renegocia quase R$ 1 bi, mas pode ter efeito passageiro na economia

Programa Desenrola 2.0 amplia renegociação de dívidas e tenta reduzir inadimplência; economista alerta que inflação, juros altos e perda do poder de compra continuam sem solução

Letícia Leitepor Letícia Leite em 12 de maio de 2026
4 abre Desenrola Brasil Foto Stevepb Pixabay
Especialista avalia que o programa pode aliviar o orçamento das famílias no curto prazo, mas não resolve as causas estruturais do endividamento. Foto: Stevepb/Pixabay

Lançado pelo governo federal para renegociar dívidas bancárias de consumidores com renda de até cinco salários mínimos, o Desenrola 2.0 alcançou quase R$ 1 bilhão em renegociações nas primeiras duas semanas de funcionamento. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 200 mil pedidos já foram encaminhados aos bancos participantes, com aproximadamente 100 mil operações em fase final de conclusão.

A iniciativa permite renegociar dívidas ligadas a cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal com descontos que variam entre 30% e 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 meses. O programa também autoriza o uso de parte do saldo do FGTS para quitação dos débitos.

Efeitos do Desenrola tendem a ser limitados, segundo especialista

Apesar da adesão inicial considerada positiva, especialistas avaliam que os efeitos do programa tendem a ser limitados se não houver melhora no cenário econômico nacional.

O economista Luiz Carlos Ongaratto afirma que o programa oferece alívio imediato às famílias endividadas, mas não ataca a origem do problema. “Já foram renegociados cerca de R$ 1 bilhão em dívidas. O benefício para as famílias é real, porém não resolve o problema na raiz. Vejo que será um benefício momentâneo, pois permitirá que mais dívidas sejam feitas”, afirma.

Segundo ele, o aumento do custo de vida e a perda do poder de compra da população ajudam a explicar o avanço da inadimplência no País. “Hoje há inadimplência por conta do custo de vida que aumentou, a renda não acompanhou e a inflação está descontrolada”, destaca.

O cenário também se reflete em Goiás. Dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), referentes a março de 2026, mostram que o número de inadimplentes no Estado cresceu 8,35% em relação ao ano anterior. Já o volume total de dívidas avançou 16,44% no mesmo período, indicando que os consumidores acumulam mais compromissos financeiros mesmo entre aqueles que seguem pagando as contas em dia.

Para Ongaratto, esse movimento acompanha a ampliação da oferta de crédito no País. “As dívidas crescem porque o crédito está sendo concedido. É o ciclo normal da economia. Porém, quanto maior o crédito, maior a possibilidade de inadimplência no médio prazo”, explica.

Ele avalia que o dado de inadimplência ainda não acompanha o ritmo de crescimento do crédito porque a maior parte da população continua honrando os pagamentos, embora exista uma parcela significativa de consumidores em dificuldade financeira.

“Hoje o dado de inadimplência não acompanha o de crédito porque a maioria das pessoas paga em dia, porém uma parcela relevante está inadimplente, o que é um problema ainda maior que o endividamento. Isso se agrava mais em famílias com renda mais baixa”, pontua.

Em Goiás, o perfil dos inadimplentes reforça essa realidade. Consumidores entre 30 e 39 anos lideram o número de negativados, representando 25,99% do total. Na sequência aparecem as faixas de 40 a 49 anos, com 23,15%, e de 50 a 64 anos, com 21,14%. Juntas, essas três faixas representam mais de 70% dos inadimplentes do Estado.

Outro dado que chama atenção é o valor das dívidas. Cerca de 25,63% dos consumidores goianos possuem débitos de até R$ 500, enquanto 37,19% devem até R$ 1 mil. O perfil favorece acordos mais rápidos dentro do Desenrola 2.0, principalmente por causa dos descontos elevados e das condições facilitadas de parcelamento.

O governo federal estima renegociar até R$ 42 bilhões ao longo do programa e prepara novas modalidades voltadas para estudantes inadimplentes do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), empresas e produtores rurais.

Mesmo assim, o economista avalia que o impacto sobre a economia deve ser pequeno e temporário. “Não acredito que terá um impacto significativo porque a origem do problema não foi atacada. A inflação, o descontrole dos gastos do governo, a emissão de dívida interna para financiar o governo e a manutenção de juros elevados por conta desse cenário, é o que causa o desaquecimento”, afirma.

Na avaliação dele, programas de renegociação ajudam momentaneamente, mas não conseguem interromper o ciclo de endividamento das famílias brasileiras. “Programas como esse têm um efeito muito passageiro e não quebram o ciclo do novo endividamento”, conclui.

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