quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Economia

Reforma tributária pode provocar perdas bilionárias em cidades industriais em Goiás

Mudança da reforma tributária no modelo de distribuição de impostos deve impactar fortemente municípios produtivos como Senador Canedo, Rio Verde, Jataí e Anápolis, que podem perder receitas com a transição do ISS para o IBS e a nova lógica baseada no consumo

Letícia Leitepor em
Reforma tributária pode provocar perdas bilionárias em cidades industriais em Goiás
Nova estrutura tributária aprovada no Congresso altera forma de arrecadação dos municípios e acende alerta.Foto: Marcello Casal Jr/ABr/Arquivo

A reforma tributária aprovada no Congresso Nacional começa a redesenhar o equilíbrio fiscal entre os municípios brasileiros e já acende um sinal de alerta em Goiás. A substituição do Imposto Sobre Serviços (ISS) pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), prevista na Emenda Constitucional 132/2023, deve provocar mudanças profundas na distribuição de receitas e pode resultar em perdas significativas para cidades com forte base produtiva e industrial.

Em Goiás, o impacto tende a ser mais sensível em municípios como Senador Canedo, Rio Verde, Jataí e Anápolis, que hoje concentram atividades industriais, logística e cadeias produtivas de grande relevância econômica. Estudos técnicos apontam que essas cidades podem registrar redução expressiva na arrecadação anual, já que o novo modelo altera a lógica de distribuição dos tributos e reduz o peso da produção na definição das receitas municipais.

No caso de Senador Canedo, que abriga o maior polo petroquímico do Estado, projeções indicam perda superior a R$ 68 milhões por ano. Já Rio Verde aparece como o município com maior impacto estimado, com redução que pode ultrapassar R$ 140 milhões anuais. Anápolis e Jataí também estão entre as cidades mais afetadas, segundo levantamentos do Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos, que vêm sendo usados como referência técnica para análise do cenário.

A principal mudança estrutural está no critério de distribuição da arrecadação. Enquanto o sistema atual, baseado no ISS e no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), favorece municípios com maior atividade econômica e produção, o novo modelo do IBS passa a priorizar o destino do consumo. Na prática, isso significa que a arrecadação tende a migrar para cidades mais populosas, onde ocorre o consumo final, e não necessariamente onde os bens e serviços são produzidos.

Esse deslocamento de receita acende um debate sobre o futuro da autonomia financeira dos municípios produtores. Prefeitos e gestores locais avaliam que a mudança pode reduzir a capacidade de investimento em infraestrutura, saúde e educação em cidades que hoje sustentam parte importante da economia estadual.

Além do impacto direto na arrecadação, outro ponto sensível da reforma é a criação do Comitê Gestor do IBS, órgão federal responsável pela distribuição e fiscalização do novo imposto. A centralização das decisões em uma estrutura nacional é vista por especialistas como um fator de perda de autonomia dos entes municipais, que deixam de ter controle direto sobre parte significativa de suas receitas.

Para o advogado tributarista Frederico Medeiros, presidente da Associação Goiana de Estudos Tributários (AGET), o cenário exige adaptação imediata das administrações municipais. Segundo ele, o foco das cidades deve migrar da lógica da guerra fiscal para estratégias de desenvolvimento interno e atração de consumo. “Os municípios precisarão investir em qualidade de vida, infraestrutura e serviços que tragam pessoas para consumir dentro de seus limites territoriais”, avalia.

Mudanças com a reforma tributária mobiliza lideranças políticas e empresariais

A preocupação com os efeitos da reforma também mobiliza lideranças políticas e empresariais. Em cidades industriais, cresce a articulação para ampliar a representação no debate nacional e garantir espaço nas decisões do Comitê Gestor. A avaliação é de que, sem participação ativa, municípios produtores podem perder ainda mais influência na definição das regras de distribuição de recursos.

Nesse contexto, a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) e a bancada federal do Estado passam a ser vistas como peças estratégicas na defesa dos interesses municipais. A construção de coalizões regionais e o fortalecimento da representação política aparecem como alternativas para tentar equilibrar os efeitos da nova estrutura tributária.

O empresário e pré-candidato a deputado estadual Samuel Carvalho defende que o momento exige organização política dos municípios mais afetados. Segundo ele, a reforma tributária transforma a disputa por recursos em uma questão de sobrevivência econômica. “Cidades com o perfil de Senador Canedo, Rio Verde, Jataí e Anápolis precisam eleger bancadas ampla e formar coalizões para viabilizarem as leis que vão construir as bases de novas políticas públicas, mais voltadas para concentrar e atrair consumo”, afirma.

Apesar das projeções de perdas, especialistas destacam que o novo sistema ainda está em fase de transição, o que abre espaço para ajustes e regulamentações. A implementação gradual do IBS até sua consolidação total, prevista para os próximos anos, pode permitir que municípios se adaptem ao novo modelo, embora o cenário já seja considerado desafiador.

Na prática, a reforma tributária deixa de ser apenas uma mudança técnica na legislação fiscal e passa a representar uma reorganização da dinâmica econômica entre os municípios brasileiros. Em Goiás, o desafio será equilibrar a nova lógica de consumo com a manutenção da atividade produtiva, em um cenário no qual arrecadar dependerá menos de produzir e mais de consumir.

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