segunda-feira, 11 de maio de 2026
Agronegócio

Endividamento rural ultrapassa R$ 800 bilhões e ameaça crédito, produção e próxima safra

Alta dos juros, perdas climáticas e queda no preço das commodities ampliam inadimplência no agro brasileiro

João Césarpor João César em 11 de maio de 2026
Endividamento
Produtores enfrentam aumento dos custos de produção, queda da rentabilidade e maior dificuldade de acesso ao crédito para financiar a próxima safra - Foto: Ênio Tavares

Enquanto o agronegócio segue como um dos principais motores da economia brasileira, o aumento acelerado do endividamento rural tem colocado produtores, cooperativas e instituições financeiras em estado de alerta. As chamadas “dívidas estressadas” do setor já ultrapassam R$ 800 bilhões, segundo estimativas discutidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), em um cenário marcado por juros elevados, perdas climáticas, aumento dos custos de produção e queda no preço das commodities agrícolas.

A preocupação ganhou força em Brasília diante das discussões sobre mecanismos de renegociação das dívidas rurais. A vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina, afirmou recentemente a parlamentares da bancada durante reunião-almoço semanal, que seriam necessários ao menos R$ 180 bilhões para iniciar uma solução estruturada para o problema. Atualmente, o governo federal negocia novas medidas de repactuação de dívidas junto ao Senado.

O impacto desse endividamento causa um agravamento da inadimplência rural e pode comprometer a oferta de crédito, afetar a produção agrícola e gerar reflexos diretos na economia nacional, especialmente em estados fortemente dependentes do agronegócio, como Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais.

Em Goiás, os sinais da crise já aparecem de forma concreta. Dados da Serasa Experian apontam que o Estado registrou 296 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025, ficando atrás apenas do Mato Grosso. O número representa cerca de 15% de todos os pedidos do País.

Segundo levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), a inadimplência da carteira de crédito rural no Estado chegou a 6,48% no fim de 2025, considerando contratos com mais de 90 dias de atraso, dentro de um universo de R$ 80 bilhões em crédito disponibilizado.

Para o gerente técnico da Faeg, Edson Novaes, o cenário é resultado de uma combinação de fatores que comprometeram a renda do produtor rural nos últimos anos. “As sucessivas quebras de safra, provocadas por seca prolongada e chuvas intensas, reduziram a produtividade. Além disso, houve queda no preço de commodities importantes como soja, milho, pecuária de corte e leite, enquanto os custos de produção seguiram elevados”, afirma.

Apesar da crise financeira, o agronegócio continua sustentando parte importante da economia goiana. Dados da Secretaria-Geral de Governo mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) de Goiás cresceu 7,7% entre janeiro e abril de 2025, impulsionado principalmente pelo avanço de 16,8% do PIB agropecuário. O setor também foi responsável pela geração de mais de 10 mil empregos formais no período.

O Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária no Estado alcançou R$ 120,9 bilhões em 2025, crescimento de 13,6% em relação ao ano anterior. Soja, bovinocultura, milho e cana-de-açúcar responderam por 74% desse total.

Mesmo assim, o aumento da restrição de crédito preocupa produtores e entidades do setor. O presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (AEAGO), Fernando Barnabé, afirma que o crescimento das recuperações judiciais pode gerar um efeito cascata sobre o sistema financeiro rural. “Quando mais produtores entram em recuperação judicial, bancos e instituições financeiras ficam mais cautelosos na hora de emprestar dinheiro. Isso torna o crédito mais caro e mais difícil, impactando diretamente a produção”, explica.

O problema ganha dimensão ainda maior diante da dependência do agronegócio em relação ao financiamento. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram contratados cerca de R$ 316,5 bilhões em crédito rural no Brasil, segundo dados do Banco Central. Ainda assim, estimativas do setor apontam que o agro brasileiro necessita de aproximadamente R$ 1,1 trilhão por safra para sustentar toda a cadeia produtiva.

Com a redução da oferta de crédito oficial e a alta da taxa Selic, produtores passaram a depender cada vez mais de financiamentos privados e do mercado de capitais, um ambiente mais rigoroso e seletivo.

Para a especialista em Governança, Riscos e Compliance, Nívea Guimarães de Almeida, o cenário exige um novo perfil de gestão no campo. “O produtor hoje precisa demonstrar organização financeira, planejamento e capacidade de pagamento. O dinheiro existe, mas os investidores e instituições financeiras estão mais criteriosos”, afirma.

Além da restrição de crédito, a próxima safra também preocupa devido à redução da rentabilidade. Em Goiás, a produtividade média esperada da soja deve cair de 69,7 sacas por hectare na safra 2024/2025 para 66,4 sacas em 2025/2026. Ao mesmo tempo, o custo operacional segue elevado, pressionando ainda mais a margem do produtor.

A expectativa é que a rentabilidade da soja no Estado recue de cerca de R$ 2.287 por hectare para R$ 1.343 por hectare na próxima temporada, indicando um cenário de maior risco econômico.

Diante desse contexto, governo federal, entidades do setor e parlamentares discutem mecanismos de renegociação e refinanciamento das dívidas rurais. Um dos principais projetos em tramitação no Senado prevê a criação de uma linha especial de crédito de até R$ 30 bilhões, utilizando recursos do Fundo Social do pré-sal.

O projeto prevê refinanciamento de dívidas rurais contratadas até junho de 2025, com juros reduzidos, prazo de até dez anos para pagamento e carência de até três anos. A proposta busca beneficiar produtores afetados por eventos climáticos extremos e dificuldades financeiras.

Outra aposta do governo federal é a ampliação do Novo Desenrola Brasil para produtores rurais. A iniciativa permite renegociação de débitos com descontos de até 90% sobre o valor principal da dívida, além da criação de um fundo garantidor para reduzir o risco das operações. Porém, o sucesso das medidas dependerá não apenas do acesso ao crédito, mas também da recuperação da renda no campo e da criação de políticas estruturais de gestão de risco.

 

Recuperações judiciais crescem e pressionam sistema de crédito rural

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Em Goiás, setor segue sustentando empregos e produção, mas enfrenta pressão crescente sobre a rentabilidade – Foto: Reprodução/ABC Digital

O avanço das recuperações judiciais no agronegócio tem ampliado a preocupação de bancos, cooperativas e entidades do setor sobre a sustentabilidade do crédito rural no Brasil. Dados da Serasa Experian mostram que o País registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial ligados ao agro em 2025, maior número da série histórica iniciada em 2021.

Os produtores rurais pessoas físicas lideraram o crescimento, somando 853 pedidos no último ano. Goiás aparece como o segundo Estado com maior volume de casos, concentrando cerca de 15% das recuperações judiciais do País.

Barnabé afirma que a recuperação judicial é um instrumento legítimo para reorganização financeira, mas alerta para os efeitos sistêmicos do crescimento acelerado dos pedidos. “O agronegócio depende de crédito para funcionar. Se o sistema perde confiança, o dinheiro fica mais caro e mais difícil de acessar”, afirma.

Atualmente, entidades como a Faeg acompanham a situação por meio de grupos de trabalho voltados à renegociação, prorrogação e alongamento das dívidas rurais junto a bancos e cooperativas.

Para evitar novos ciclos de endividamento e garantir estabilidade para as próximas safras, será necessário o fortalecimento do seguro rural, maior previsibilidade climática e políticas permanentes de financiamento serão fundamentais.

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