Endividamento rural ultrapassa R$ 800 bilhões e ameaça crédito, produção e próxima safra
Alta dos juros, perdas climáticas e queda no preço das commodities ampliam inadimplência no agro brasileiro
Enquanto o agronegócio segue como um dos principais motores da economia brasileira, o aumento acelerado do endividamento rural tem colocado produtores, cooperativas e instituições financeiras em estado de alerta. As chamadas “dívidas estressadas” do setor já ultrapassam R$ 800 bilhões, segundo estimativas discutidas pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), em um cenário marcado por juros elevados, perdas climáticas, aumento dos custos de produção e queda no preço das commodities agrícolas.
A preocupação ganhou força em Brasília diante das discussões sobre mecanismos de renegociação das dívidas rurais. A vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina, afirmou recentemente a parlamentares da bancada durante reunião-almoço semanal, que seriam necessários ao menos R$ 180 bilhões para iniciar uma solução estruturada para o problema. Atualmente, o governo federal negocia novas medidas de repactuação de dívidas junto ao Senado.
O impacto desse endividamento causa um agravamento da inadimplência rural e pode comprometer a oferta de crédito, afetar a produção agrícola e gerar reflexos diretos na economia nacional, especialmente em estados fortemente dependentes do agronegócio, como Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais.
Em Goiás, os sinais da crise já aparecem de forma concreta. Dados da Serasa Experian apontam que o Estado registrou 296 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025, ficando atrás apenas do Mato Grosso. O número representa cerca de 15% de todos os pedidos do País.
Segundo levantamento da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), a inadimplência da carteira de crédito rural no Estado chegou a 6,48% no fim de 2025, considerando contratos com mais de 90 dias de atraso, dentro de um universo de R$ 80 bilhões em crédito disponibilizado.
Para o gerente técnico da Faeg, Edson Novaes, o cenário é resultado de uma combinação de fatores que comprometeram a renda do produtor rural nos últimos anos. “As sucessivas quebras de safra, provocadas por seca prolongada e chuvas intensas, reduziram a produtividade. Além disso, houve queda no preço de commodities importantes como soja, milho, pecuária de corte e leite, enquanto os custos de produção seguiram elevados”, afirma.
Apesar da crise financeira, o agronegócio continua sustentando parte importante da economia goiana. Dados da Secretaria-Geral de Governo mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) de Goiás cresceu 7,7% entre janeiro e abril de 2025, impulsionado principalmente pelo avanço de 16,8% do PIB agropecuário. O setor também foi responsável pela geração de mais de 10 mil empregos formais no período.
O Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária no Estado alcançou R$ 120,9 bilhões em 2025, crescimento de 13,6% em relação ao ano anterior. Soja, bovinocultura, milho e cana-de-açúcar responderam por 74% desse total.
Mesmo assim, o aumento da restrição de crédito preocupa produtores e entidades do setor. O presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (AEAGO), Fernando Barnabé, afirma que o crescimento das recuperações judiciais pode gerar um efeito cascata sobre o sistema financeiro rural. “Quando mais produtores entram em recuperação judicial, bancos e instituições financeiras ficam mais cautelosos na hora de emprestar dinheiro. Isso torna o crédito mais caro e mais difícil, impactando diretamente a produção”, explica.
O problema ganha dimensão ainda maior diante da dependência do agronegócio em relação ao financiamento. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram contratados cerca de R$ 316,5 bilhões em crédito rural no Brasil, segundo dados do Banco Central. Ainda assim, estimativas do setor apontam que o agro brasileiro necessita de aproximadamente R$ 1,1 trilhão por safra para sustentar toda a cadeia produtiva.
Com a redução da oferta de crédito oficial e a alta da taxa Selic, produtores passaram a depender cada vez mais de financiamentos privados e do mercado de capitais, um ambiente mais rigoroso e seletivo.
Para a especialista em Governança, Riscos e Compliance, Nívea Guimarães de Almeida, o cenário exige um novo perfil de gestão no campo. “O produtor hoje precisa demonstrar organização financeira, planejamento e capacidade de pagamento. O dinheiro existe, mas os investidores e instituições financeiras estão mais criteriosos”, afirma.
Além da restrição de crédito, a próxima safra também preocupa devido à redução da rentabilidade. Em Goiás, a produtividade média esperada da soja deve cair de 69,7 sacas por hectare na safra 2024/2025 para 66,4 sacas em 2025/2026. Ao mesmo tempo, o custo operacional segue elevado, pressionando ainda mais a margem do produtor.
A expectativa é que a rentabilidade da soja no Estado recue de cerca de R$ 2.287 por hectare para R$ 1.343 por hectare na próxima temporada, indicando um cenário de maior risco econômico.
Diante desse contexto, governo federal, entidades do setor e parlamentares discutem mecanismos de renegociação e refinanciamento das dívidas rurais. Um dos principais projetos em tramitação no Senado prevê a criação de uma linha especial de crédito de até R$ 30 bilhões, utilizando recursos do Fundo Social do pré-sal.
O projeto prevê refinanciamento de dívidas rurais contratadas até junho de 2025, com juros reduzidos, prazo de até dez anos para pagamento e carência de até três anos. A proposta busca beneficiar produtores afetados por eventos climáticos extremos e dificuldades financeiras.
Outra aposta do governo federal é a ampliação do Novo Desenrola Brasil para produtores rurais. A iniciativa permite renegociação de débitos com descontos de até 90% sobre o valor principal da dívida, além da criação de um fundo garantidor para reduzir o risco das operações. Porém, o sucesso das medidas dependerá não apenas do acesso ao crédito, mas também da recuperação da renda no campo e da criação de políticas estruturais de gestão de risco.
Recuperações judiciais crescem e pressionam sistema de crédito rural

O avanço das recuperações judiciais no agronegócio tem ampliado a preocupação de bancos, cooperativas e entidades do setor sobre a sustentabilidade do crédito rural no Brasil. Dados da Serasa Experian mostram que o País registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial ligados ao agro em 2025, maior número da série histórica iniciada em 2021.
Os produtores rurais pessoas físicas lideraram o crescimento, somando 853 pedidos no último ano. Goiás aparece como o segundo Estado com maior volume de casos, concentrando cerca de 15% das recuperações judiciais do País.
Barnabé afirma que a recuperação judicial é um instrumento legítimo para reorganização financeira, mas alerta para os efeitos sistêmicos do crescimento acelerado dos pedidos. “O agronegócio depende de crédito para funcionar. Se o sistema perde confiança, o dinheiro fica mais caro e mais difícil de acessar”, afirma.
Atualmente, entidades como a Faeg acompanham a situação por meio de grupos de trabalho voltados à renegociação, prorrogação e alongamento das dívidas rurais junto a bancos e cooperativas.
Para evitar novos ciclos de endividamento e garantir estabilidade para as próximas safras, será necessário o fortalecimento do seguro rural, maior previsibilidade climática e políticas permanentes de financiamento serão fundamentais.
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