segunda-feira, 11 de maio de 2026
semelhanças entre o hit

“Transa”, de Caetano Veloso, vai virar documentário

Produzido por Paula Lavigne e dirigido por Renato Terra, longa revisitará o álbum gravado em Londres durante o exílio do artista

Luana Avelarpor Luana Avelar em 11 de maio de 2026
Transa

O álbum “Transa”, de Caetano Veloso, vai se tornar um documentário. A produção será de Paula Lavigne e a direção de Renato Terra, cineasta que já trabalhou com a obra do compositor em “Narciso em Férias” e em “Uma Noite em 67”. A informação foi publicada pela coluna de Lauro Jardim, no jornal “O Globo”.

Conforme a coluna, o projeto pretende atravessar as sete faixas do disco para reconstituir o que Caetano viveu entre 1969 e 1971, período em que esteve exilado em Londres após ser preso e liberado pela ditadura militar. O álbum foi gravado no Chappell’s Recording Studios, na capital britânica, e lançado no Brasil em janeiro de 1972, pela Philips.

A escolha de Renato Terra não é casual. O cineasta dirigiu “Narciso em Férias” — documentário que narra os meses em que Caetano ficou detido antes de partir para o exílio — e foi co-diretor de “Uma Noite em 67”, sobre o festival de música que colocou Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil e Roberto Carlos num mesmo palco. Paula Lavigne, que produziu parte significativa dos projetos audiovisuais ligados à obra de Caetano nas últimas décadas, assina a produção.

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“Transa” e seu contexto

“Transa” carrega uma história que começa com um episódio de pressão política. Em janeiro de 1971, Caetano conseguiu autorização do regime para voltar ao Brasil por um mês e assistir à missa de comemoração dos 40 anos de casamento dos pais. No Rio de Janeiro, foi convocado para um interrogatório. Os militares pediram que compusesse uma música em homenagem à rodovia Transamazônica, principal obra de infraestrutura do governo Médici, nunca concluída. Caetano recusou. Voltou a Londres e gravou o disco. Chamou o álbum de “Transa”.

O exílio havia começado dois anos antes. Em julho de 1969, após meses detidos pela ditadura, Caetano e Gilberto Gil deixaram o Brasil com suas companheiras e se instalaram em Chelsea, bairro no centro de Londres. O período foi de isolamento e melancolia. Longe do movimento tropicalista que ajudara a criar, Caetano absorveu outras referências: o rock britânico, o reggae jamaicano que chegava ao bairro de Notting Hill, a leitura de “Tristes Trópicos”, de Claude Lévi-Strauss, que, segundo ele próprio, o levou a pensar o Brasil de um modo que antes não seria possível.

As gravações contaram com Jards Macalé na direção musical e nas guitarras, Tutti Moreno na bateria, Moacyr Albuquerque no baixo e Áureo de Sousa na percussão. O resultado é um disco que mistura rock elétrico, percussão brasileira, berimbau e violão, com letras em português e inglês. A política aparece de forma velada: em “Triste Bahia”, Caetano musicalizou um poema do barroco brasileiro Gregório de Matos Guerra e usou a crítica social do texto para comentar o país sob a ditadura. A regravação de “Mora na Filosofia”, de Monsueto Menezes, em versão roqueira, dividiu a crítica na época. “It’s a Long Way” foi a faixa de maior circulação nas rádios.

O disco chegou ao Brasil com uma embalagem pouco convencional: capa tripla com encarte dobrável em triângulo, batizada de “discobjeto” pelo diretor de arte Álvaro Guimarães, que assinou o projeto ao lado de Aldo Luiz. Caetano desaprovava a solução gráfica e reclamou em entrevista ao Jornal do Brasil que a ficha técnica havia ficado de fora da embalagem.

Reconhecimento consolidado

O disco acumulou prestígio ao longo das décadas. A “Rolling Stone Brasil” o colocou entre os dez melhores álbuns da música brasileira em lista publicada em 2007. A “Pitchfork” incluiu faixas do álbum em sua seleção das 200 melhores canções dos anos 1970 e o listou entre os 20 discos essenciais para entender a Tropicália. Em 2012, a Philips lançou edição comemorativa com remasterização feita no Abbey Road Studios, em Londres, a partir das fitas originais.

Em agosto de 2023, Caetano tocou o álbum na íntegra no festival Doce Maravilha, no Rio de Janeiro, ao lado de Jards Macalé, o mesmo músico que assinou os arranjos nas gravações originais. Pesquisadores de universidades brasileiras também se debruçaram sobre o álbum: estudos publicados nos últimos anos analisam “Transa” a partir do contato de Caetano com a diáspora africana em Londres e do modo como o exílio moldou sua leitura sobre a cultura brasileira.

Ainda sem data de lançamento ou previsão para início das filmagens, o documentário parte de um disco cuja relevância foi ampliada pelo tempo. Gravado longe do Brasil, “Transa” deixou de ser o retrato de um artista no exílio para se tornar uma das obras centrais da música brasileira dos anos 70. Ao levar essa história para o cinema, o filme terá o desafio de reconstituir não só as circunstâncias da gravação, mas também o percurso que fez do álbum um marco estético e político na carreira de Caetano Veloso.

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