“Transa”, de Caetano Veloso, vai virar documentário
Produzido por Paula Lavigne e dirigido por Renato Terra, longa revisitará o álbum gravado em Londres durante o exílio do artista
O álbum “Transa”, de Caetano Veloso, vai se tornar um documentário. A produção será de Paula Lavigne e a direção de Renato Terra, cineasta que já trabalhou com a obra do compositor em “Narciso em Férias” e em “Uma Noite em 67”. A informação foi publicada pela coluna de Lauro Jardim, no jornal “O Globo”.
Conforme a coluna, o projeto pretende atravessar as sete faixas do disco para reconstituir o que Caetano viveu entre 1969 e 1971, período em que esteve exilado em Londres após ser preso e liberado pela ditadura militar. O álbum foi gravado no Chappell’s Recording Studios, na capital britânica, e lançado no Brasil em janeiro de 1972, pela Philips.
A escolha de Renato Terra não é casual. O cineasta dirigiu “Narciso em Férias” — documentário que narra os meses em que Caetano ficou detido antes de partir para o exílio — e foi co-diretor de “Uma Noite em 67”, sobre o festival de música que colocou Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil e Roberto Carlos num mesmo palco. Paula Lavigne, que produziu parte significativa dos projetos audiovisuais ligados à obra de Caetano nas últimas décadas, assina a produção.
Leia mais Dia Nacional do Reggae reforça legado de Bob Marley e a influência do gênero no Brasil
“Transa” carrega uma história que começa com um episódio de pressão política. Em janeiro de 1971, Caetano conseguiu autorização do regime para voltar ao Brasil por um mês e assistir à missa de comemoração dos 40 anos de casamento dos pais. No Rio de Janeiro, foi convocado para um interrogatório. Os militares pediram que compusesse uma música em homenagem à rodovia Transamazônica, principal obra de infraestrutura do governo Médici, nunca concluída. Caetano recusou. Voltou a Londres e gravou o disco. Chamou o álbum de “Transa”.
O exílio havia começado dois anos antes. Em julho de 1969, após meses detidos pela ditadura, Caetano e Gilberto Gil deixaram o Brasil com suas companheiras e se instalaram em Chelsea, bairro no centro de Londres. O período foi de isolamento e melancolia. Longe do movimento tropicalista que ajudara a criar, Caetano absorveu outras referências: o rock britânico, o reggae jamaicano que chegava ao bairro de Notting Hill, a leitura de “Tristes Trópicos”, de Claude Lévi-Strauss, que, segundo ele próprio, o levou a pensar o Brasil de um modo que antes não seria possível.
As gravações contaram com Jards Macalé na direção musical e nas guitarras, Tutti Moreno na bateria, Moacyr Albuquerque no baixo e Áureo de Sousa na percussão. O resultado é um disco que mistura rock elétrico, percussão brasileira, berimbau e violão, com letras em português e inglês. A política aparece de forma velada: em “Triste Bahia”, Caetano musicalizou um poema do barroco brasileiro Gregório de Matos Guerra e usou a crítica social do texto para comentar o país sob a ditadura. A regravação de “Mora na Filosofia”, de Monsueto Menezes, em versão roqueira, dividiu a crítica na época. “It’s a Long Way” foi a faixa de maior circulação nas rádios.
O disco chegou ao Brasil com uma embalagem pouco convencional: capa tripla com encarte dobrável em triângulo, batizada de “discobjeto” pelo diretor de arte Álvaro Guimarães, que assinou o projeto ao lado de Aldo Luiz. Caetano desaprovava a solução gráfica e reclamou em entrevista ao Jornal do Brasil que a ficha técnica havia ficado de fora da embalagem.
Reconhecimento consolidado
O disco acumulou prestígio ao longo das décadas. A “Rolling Stone Brasil” o colocou entre os dez melhores álbuns da música brasileira em lista publicada em 2007. A “Pitchfork” incluiu faixas do álbum em sua seleção das 200 melhores canções dos anos 1970 e o listou entre os 20 discos essenciais para entender a Tropicália. Em 2012, a Philips lançou edição comemorativa com remasterização feita no Abbey Road Studios, em Londres, a partir das fitas originais.
Em agosto de 2023, Caetano tocou o álbum na íntegra no festival Doce Maravilha, no Rio de Janeiro, ao lado de Jards Macalé, o mesmo músico que assinou os arranjos nas gravações originais. Pesquisadores de universidades brasileiras também se debruçaram sobre o álbum: estudos publicados nos últimos anos analisam “Transa” a partir do contato de Caetano com a diáspora africana em Londres e do modo como o exílio moldou sua leitura sobre a cultura brasileira.
Ainda sem data de lançamento ou previsão para início das filmagens, o documentário parte de um disco cuja relevância foi ampliada pelo tempo. Gravado longe do Brasil, “Transa” deixou de ser o retrato de um artista no exílio para se tornar uma das obras centrais da música brasileira dos anos 70. Ao levar essa história para o cinema, o filme terá o desafio de reconstituir não só as circunstâncias da gravação, mas também o percurso que fez do álbum um marco estético e político na carreira de Caetano Veloso.