segunda-feira, 11 de maio de 2026
Cultura

Dia Nacional do Reggae reforça legado de Bob Marley e a influência do gênero no Brasil

No Brasil, o reggae passou por um intenso processo de ressignificação

Leticia Mariellepor Leticia Marielle em 11 de maio de 2026
reggae
Dia Nacional do Reggae reforça legado de Bob Marley e a influência do gênero no Brasil. | Foto: Reprodução/Freepik

Da fusão entre ritmos africanos, influências caribenhas e a realidade social da Jamaica nasceu um dos gêneros musicais mais influentes do século XX: o reggae. Mais do que um estilo musical, o reggae tornou-se símbolo de resistência, denúncia social, espiritualidade e identidade cultural negra, atravessando fronteiras até ganhar espaço em países como o Brasil, especialmente no Maranhão, conhecido como a “Jamaica brasileira”. Em reconhecimento à importância cultural e histórica do gênero, o Dia Nacional do Reggae é comemorado em 11 de maio.

A história do reggae está ligada ao período colonial da Jamaica, marcada pela ocupação espanhola e inglesa e pela escravidão africana. Povos africanos levaram para o Caribe tradições religiosas, ritmos, danças e instrumentos que resistiram mesmo diante da violência da escravidão. Essas influências se misturaram às culturas europeia e indígena, formando a base cultural jamaicana. Dos africanos vieram os tambores e a ligação entre música e espiritualidade, enquanto os europeus contribuíram com instrumentos e harmonias que ajudaram a criar os primeiros ritmos da Jamaica.

Antes do reggae, a Jamaica viveu outras fases musicais importantes. O mento, considerado o primeiro gênero tipicamente jamaicano, dominou as décadas de 1920 e 1930. Mais tarde, com a urbanização acelerada e a influência das rádios norte-americanas, o rhythm and blues dos Estados Unidos passou a fazer parte do cotidiano dos jovens jamaicanos. Dessa mistura surgiu o ska, marcado pelo ritmo acelerado e dançante, seguido posteriormente pelo rock steady, mais lento e com letras sociais mais intensas.

Foi nesse contexto de desigualdade social, desemprego, violência urbana e tensão política que o reggae começou a ganhar forma no final dos anos 1960. O novo ritmo carregava críticas ao racismo, à pobreza e à exclusão social vivida pela população negra jamaicana. Ao mesmo tempo, dialogava fortemente com o movimento rastafári, crença religiosa que via o imperador etíope Haile Selassie como uma figura divina e defendia a valorização da identidade africana.

O rastafarianismo exerceu papel central na construção da identidade do reggae. As músicas passaram a abordar espiritualidade, libertação dos povos negros, resistência ao sistema e críticas às injustiças sociais. A relação entre reggae e rastafarianismo também ajudou a consolidar símbolos mundialmente associados ao gênero, como os dreadlocks, as cores verde, amarelo e vermelho e o uso ritualístico da maconha.

Outro elemento fundamental para a expansão do reggae foram os chamados sound systems, enormes equipamentos de som instalados em caminhões ou carros que levavam música aos bairros populares da Jamaica. As festas promovidas por esses sistemas ajudaram a democratizar o acesso à música e impulsionaram a criação da indústria fonográfica jamaicana. DJs e produtores passaram a disputar exclusividades musicais, transformando os bailes de rua em fenômenos culturais.

Foi nesse cenário que surgiu Bob Marley, considerado até hoje o maior nome do reggae mundial. Nascido em 1945, na pequena comunidade de Nine Mile, Marley cresceu em meio à pobreza de Kingston e encontrou na música uma forma de expressão política e espiritual. Ao lado dos Wailers, grupo formado com Bunny Wailer e Peter Tosh, ajudou a transformar o reggae em um fenômeno internacional.

Canções como “Get Up, Stand Up”, “No Woman, No Cry” e “One Love” levaram ao mundo mensagens de resistência, paz e igualdade. Mais do que um cantor, Bob Marley tornou-se símbolo da luta contra a opressão social e racial. Sua obra aproximou o reggae do grande mercado fonográfico internacional e consolidou o gênero como voz das populações marginalizadas.

Força do reggae no Brasil

No Brasil, o reggae começou a ganhar espaço ainda durante as décadas de 1960 e 1970, período marcado pela Ditadura Militar. O gênero encontrou receptividade entre jovens e movimentos ligados à contracultura. Exilado em Londres, Caetano Veloso foi um dos primeiros artistas brasileiros a entrar em contato com o reggae. Mais tarde, Gilberto Gil ampliaria ainda mais essa influência ao lançar “Não chores mais”, versão brasileira de “No Woman, No Cry”, sucesso de Bob Marley.

reggae
A história do reggae está ligada ao período colonial da Jamaica. | Foto: Reprodução/Freepik

Ao mesmo tempo, o reggae também chegava às regiões Norte e Nordeste por meio das rádios, especialmente no Maranhão. Em São Luís, o DJ Riba Macedo é considerado pioneiro na introdução do reggae nos bailes populares. Inicialmente, o ritmo era tocado entre músicas de merengue, forró e bolero, mas rapidamente conquistou o público local. Sem conhecer profundamente o rastafarianismo ou o contexto social jamaicano, os maranhenses reinterpretam o reggae de maneira própria, transformando-o em uma dança mais sensual e aproximando-o de ritmos regionais.

Pesquisadores apontam que a forte identificação entre reggae e Maranhão também está relacionada às semelhanças culturais e étnicas entre Jamaica e São Luís, ambas marcadas pela forte presença da cultura afrodescendente. Ritmos brasileiros como samba, baião, maracatu e tambor de crioula compartilham raízes africanas semelhantes às que deram origem ao reggae jamaicano.

No Brasil, o reggae passou por um intenso processo de ressignificação. O gênero incorporou elementos do samba, do forró e do rock nacional, originando vertentes como o samba-reggae e o xote-reggae. Diferentemente da Jamaica, onde o reggae esteve profundamente ligado ao rastafarianismo e à resistência política, no Brasil o gênero assumiu também características voltadas ao entretenimento e ao mercado musical.

Bandas como Os Paralamas do Sucesso ajudaram a popularizar o ska-reggae e o reggae-rock no Sudeste durante os anos 1980. No Rio de Janeiro, grupos como Cidade Negra ampliaram ainda mais a presença do gênero nas rádios nacionais. Já na Bahia, artistas como Olodum, AraKetu e Margareth Menezes fortaleceram o samba-reggae, misturando elementos do reggae com ritmos afro-baianos.

No Maranhão, a principal referência tornou-se a Tribo de Jah, criada na Escola de Cegos do Maranhão. Liderada por Fauzi Beydoun, a banda buscou manter a essência do reggae roots, abordando temas como paz, injustiça social e espiritualidade. Apesar da resistência inicial do público maranhense, que preferia o reggae jamaicano original, o grupo conquistou espaço nacional e internacional, chegando inclusive a se apresentar na Jamaica em 1995.

Na década de 1990, o reggae já estava consolidado no Brasil. Bandas como Skank e Cidade Negra reforçaram a presença do gênero no mercado musical nacional, enquanto inúmeras bandas independentes surgiam em diferentes estados do país.

Apesar de ainda ocupar um espaço menor em comparação a gêneros mais populares da indústria cultural brasileira, o reggae mantém um público fiel e segue como uma importante expressão da diversidade cultural do país. Mais do que um ritmo importado, o reggae brasileiro tornou-se resultado de múltiplas adaptações regionais, sociais e culturais, refletindo as diferentes realidades do Brasil contemporâneo.

 

Siga o Canal do Jornal O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do Jornal O Hoje.
Veja também