IA cresce no streaming, mas não prende ouvintes
Mesmo com milhares de faixas artificiais por dia, público segue ligado a artistas reais, sucessos antigos e músicas marcadas pela memória afetiva
A música criada por inteligência artificial avança nas plataformas de streaming, mas ainda encontra dificuldade para transformar volume em escuta. Na Deezer, 44% das faixas enviadas todos os dias são produzidas artificialmente, cerca de 75 mil uploads diários. Apesar da presença crescente, esse conteúdo representa entre 1% e 3% das reproduções totais.
No Spotify, a distância entre oferta e interesse também aparece. Entre as 100 músicas mais ouvidas globalmente, nenhuma foi criada integralmente por inteligência artificial. A lista segue dominada por artistas consolidados, canções antigas e faixas que voltaram a circular por redes sociais e trends no TikTok.
Memória afetiva
O comportamento dos ouvintes mostra que a música não se sustenta apenas pela novidade tecnológica. A escuta passa por lembranças, identificação e pertencimento. Em um ambiente marcado por excesso de lançamentos, canções conhecidas funcionam como retorno para experiências já vividas.
Leia mais: Funk brasileiro vira fenômeno global e lidera crescimento mundial no Spotify
Essa lógica ajuda a explicar por que músicas antigas alcançam novas audiências. Michael Jackson aparece com seis faixas entre as 50 mais ouvidas do Spotify, mesmo 17 anos após a morte. Katy Perry voltou a ganhar força com “The One That Got Away”, de 2010. Justin Bieber chegou ao topo com “Beauty And The Beat”, faixa de 2012 após o Coachella.
Viraliza, mas não permanece
Enquanto clássicos retornam, artistas criados por inteligência artificial enfrentam dificuldade para manter interesse. Em 2025, a cantora fictícia Tocanna viralizou com “São Paulo”, paródia inspirada em Alicia Keys e Jay-Z. O projeto alcançou 180 mil ouvintes mensais, mas perdeu quase 40% da audiência.
A banda fictícia The Velvet Sundown viveu movimento semelhante. Depois de ultrapassar 1 milhão de ouvintes mensais em julho de 2025, caiu para 125 mil em maio. Projetos fictícios criados por humanos, como Gorillaz, consolidaram universos próprios. Já produções feitas por IA crescem rápido, mas perdem força antes de formar vínculo com o público.