segunda-feira, 11 de maio de 2026
COMPORTAMENTO

Dividir a mesa faz bem: pesquisa aponta impacto das refeições em grupo no bem-estar

Entre conversas, pausas e afetos, as refeições revelam como pequenos encontros cotidianos podem influenciar o bem-estar

Luana Avelarpor Luana Avelar em 11 de maio de 2026
mesa

Dividir a mesa com alguém, gesto presente nas casas em que a conversa atravessa o almoço e o jantar, ganhou novo peso no debate sobre bem-estar. A cena cotidiana ganhou densidade social. Pesquisa da University College London para o Relatório Mundial da Felicidade indica que pessoas que fazem refeições acompanhadas relatam níveis mais altos de satisfação com a vida do que aquelas que comem sozinhas. Mais do que o que se come, importa com quem se come.

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Mesa como vínculo

O levantamento mostra que entrevistados que costumam almoçar ou jantar com familiares, amigos ou conhecidos registram um ponto a mais na avaliação da própria vida, numa escala de 0 a 10. Para os pesquisadores, a diferença é expressiva. A frequência com que alguém compartilha refeições aparece como indicador tão forte de satisfação quanto renda e emprego.

A pesquisa usou dados da Gallup World Poll, que ouviu mais de 150 mil pessoas em 142 países. As entrevistas foram feitas em 2022 e 2023 e incluíram perguntas sobre bem-estar e quantidade de refeições compartilhadas na semana anterior. O relatório é publicado pelo Centro de Pesquisa de Bem-Estar da Universidade de Oxford, em parceria com a Gallup, a rede da ONU para desenvolvimento sustentável e conselho editorial independente.

O dado não transforma o almoço em receita pronta de felicidade. Os autores evitam afirmar relação direta de causa e efeito. Ainda assim, a associação se mantém forte quando são considerados renda, educação, emprego e tamanho da família.

Geografia do encontro

Os países da América Latina e do Caribe foram os que mais relataram refeições compartilhadas. Na região, quase dois terços dos almoços e jantares são feitos em companhia, o equivalente a cerca de nove refeições por semana. Europa Ocidental, América do Norte, Austrália e Nova Zelândia aparecem em seguida, com pouco mais de oito refeições por semana.

O contraste é maior no sul da Ásia, onde os entrevistados relataram menos de quatro almoços e jantares acompanhados por semana. No Leste Asiático, a média ficou próxima de seis. As diferenças regionais sugerem que comer junto também depende de ritmos urbanos, arranjos familiares, trabalho e modos de sociabilidade.

Sozinhos à mesa

Nos Estados Unidos, escolhidos como estudo de caso, os pesquisadores observaram o jantar solitário entre 2003 e 2023. A análise usou dados da Pesquisa de Uso do Tempo Americano e identificou uma mudança persistente: os norte-americanos estão mais propensos a jantar sem companhia do que há duas décadas.

Em 2023, 26% dos adultos nos Estados Unidos relataram ter feito todas as refeições sozinhos no dia anterior, alta superior a 50% em relação a 2003. Adultos com mais de 65 anos seguem como o grupo mais propenso a comer só. Desde 2018, porém, o avanço mais acelerado aparece entre pessoas com menos de 35 anos.

Os pesquisadores associam parte dessa mudança a transformações de longo prazo na estrutura social e ao enfraquecimento do capital social, a rede de confiança e coesão que sustenta uma comunidade. A aceleração observada a partir de 2020 também pode ter relação com a pandemia de Covid-19.

No campo da saúde e do comportamento, o estudo recoloca uma cena simples no centro da conversa: sentar-se à mesa com alguém. Ao redor do prato, circulam histórias, pausas, silêncios e afetos. A refeição compartilhada não elimina os impasses da vida contemporânea, mas lembra que bem-estar também se constrói quando alguém permanece tempo suficiente para comer, ouvir e ser ouvido.

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