Mães dedicam quase 10 horas a mais que pais em tarefas domésticas, aponta IBGE
Especialista alerta que jornada dupla está associada a estresse, ansiedade e impactos na carreira feminina; mudança estrutural é apontada como única saída
No mês em que a maternidade é celebrada, um dado do IBGE expõe uma realidade que muitas mães conhecem bem: as mulheres dedicam, em média, 9,6 horas a mais do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua de 2022.
Para Luciane da Luz, coordenadora dos cursos de Sociologia e Antropologia da UNIASSELVI, o problema tem raízes históricas e culturais. “É preciso desconstruir a ideia de que o cuidado é uma característica natural das mulheres e promover uma educação mais igualitária desde a infância. Sob a perspectiva da antropologia e dos estudos de gênero, a associação entre o trabalho doméstico, o cuidado e a figura feminina é uma construção social e histórica, não biológica”, explica.
A idealização que pesa
A consolidação da sociedade industrial no século XIX reforçou a divisão entre o homem provedor e a mulher cuidadora. Normas culturais, religiosas e científicas naturalizaram a ideia de uma vocação feminina para o cuidado, criando um modelo de maternidade que a especialista classifica como inalcançável na prática.
“Existe uma idealização da maternidade que coloca a mãe como totalmente disponível, abnegada e responsável exclusiva pelo bem-estar dos filhos. Esse modelo é inalcançável na prática, mas ainda funciona como referência. Essa expectativa dificulta a busca por ajuda, pois muitas mulheres sentem que deveriam dar conta de tudo sozinhas. Pedir apoio pode ser interpretado como falha, quando, na verdade, é uma estratégia saudável e necessária”, afirma.
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Jornada dupla e saúde mental
Mesmo com a ampliação da presença feminina no mercado de trabalho, a divisão doméstica não avançou no mesmo ritmo. O resultado é a sobreposição de papéis que afeta diretamente a saúde mental. “A jornada dupla está diretamente associada a níveis mais elevados de estresse, ansiedade e exaustão física. Do ponto de vista da saúde mental, muitas mães relatam uma sensação constante de sobrecarga e falta de tempo para si. Há também impactos na trajetória profissional, como menor disponibilidade para progressão na carreira, interrupções e até abandono do mercado de trabalho”, ressalta Luciane.
A professora vai além na reflexão. “Em alguns momentos, nós, mulheres, nos perguntamos como seria nossa trajetória profissional se tivéssemos uma ‘mulher’ em nossas vidas, assim como a maioria dos homens casados tem: alguém que assume grande parte das demandas da casa e da família, pra que ele possa apenas preocupar-se com a sua carreira”, reflete.
O que pode mudar
Redes de apoio, políticas públicas e iniciativas empresariais são apontadas como caminhos possíveis, mas insuficientes sem uma transformação mais profunda. Algumas empresas já adotam horários flexíveis, auxílio-creche e programas de parentalidade. No campo público, o acesso a creches de qualidade e licenças parentais mais equilibradas são considerados essenciais.
“No entanto, a condição socioeconômica ainda é um fator determinante, evidenciando que a sobrecarga do cuidado é também uma questão de desigualdade social. Famílias de menor renda dependem mais de redes informais e de políticas públicas, que nem sempre são suficientes. A sociedade precisa ter ciência de que as crianças devem ser responsabilidade de todos nós, e não apenas a mãe”, conclui a especialista.