sexta-feira, 8 de maio de 2026
Saúde

Confundida com enxaqueca, cefaleia em salvas leva anos até diagnóstico correto

O tratamento da enxaqueca é dividido entre o controle das crises e a prevenção

Leticia Mariellepor Leticia Marielle em 7 de maio de 2026
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Confundida com enxaqueca, cefaleia em salvas leva anos até diagnóstico correto. | Foto: Reprodução/Freepik

A dor chega sem aviso, intensa, lancinante e sempre no mesmo lugar. Para quem convive com a cefaleia em salvas, considerada uma das dores mais fortes já registradas pela medicina, a rotina pode se transformar em um ciclo de medo, exaustão e busca por respostas.

Foi assim com Maria Clara. Durante anos, ela acreditou sofrer de enxaqueca, até descobrir que enfrentava uma doença neurológica rara, que atinge cerca de uma em cada mil pessoas. O diagnóstico, no entanto, não veio rápido. Como ocorre com a maioria dos pacientes, o caminho até a identificação correta foi longo e passou por diferentes especialistas.

As crises podem durar de 15 minutos a três horas e provocam uma dor descrita como insuportável, geralmente concentrada ao redor de um dos olhos, na têmpora ou acima da órbita. Segundo especialistas, o problema está ligado à ativação do nervo trigêmeo, que entra em um estado de hipersensibilidade e desencadeia os episódios. “É como se o cérebro acionasse um alarme para uma lesão que não existe”, explica o neurologista Antônio Carlos.

Quando a dor desaparece, o alívio é imediato, mas passageiro. As crises retornam, muitas vezes durante a madrugada. “Já acordei diversas vezes sentindo muitas dores na cabeça”, relata Maria Clara, resumindo o impacto da doença na qualidade de vida.

A intensidade das crises impressiona até especialistas. Em estudos clínicos, a cefaleia em salvas recebeu nota média de 9,7 em uma escala de dor de 0 a 10, superando até mesmo a dor do parto. Ainda assim, o diagnóstico costuma demorar. Pacientes frequentemente passam por clínicos gerais, otorrinolaringologistas, oftalmologistas e dentistas antes de chegar ao neurologista.

Entre os sinais que ajudam a identificar a doença estão nariz entupido, lacrimejamento, queda da pálpebra e dor sempre do mesmo lado da cabeça. Mesmo assim, a falta de informação ainda é um obstáculo.

Para tentar lidar com as crises, muitos pacientes adotam um diário da dor, registrando horários, intensidade e duração dos episódios. O acompanhamento ajuda no ajuste do tratamento, embora, mesmo com medicação adequada, as crises possam persistir.

Dor extrema, diagnóstico tardio e confusão com enxaqueca marcam a rotina de pacientes com cefaleia em salvas

A semelhança entre os sintomas faz com que a cefaleia em salvas seja frequentemente confundida com a enxaqueca, uma condição muito mais comum no Brasil. Apesar disso, especialistas destacam diferenças importantes entre os quadros. Durante as crises de enxaqueca, é comum que o paciente busque repouso em ambientes escuros e silenciosos. Já na cefaleia em salvas, a dor intensa costuma vir acompanhada de agitação e inquietação.

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O tratamento da enxaqueca é dividido entre o controle das crises e a prevenção. | Foto: Reprodução/Freepik

A enxaqueca tem forte influência genética e também pode ser desencadeada por fatores hormonais, o que ajuda a explicar por que atinge cerca de três vezes mais mulheres do que homens. Dados da Associação Brasileira de Cefaleia e Enxaqueca apontam que aproximadamente 23 milhões de brasileiros possuem diagnóstico da doença, enquanto outros 27 milhões apresentam sintomas, mas nunca foram oficialmente diagnosticados.

A subnotificação preocupa especialistas. O receio de prejuízos no trabalho ou nos estudos faz com que muitos pacientes evitem procurar atendimento médico. Mais de 60% relatam queda de produtividade durante as crises. Ainda assim, cerca de 69% das pessoas que dizem sofrer de enxaqueca não fazem acompanhamento com neurologista e recorrem à automedicação com analgésicos comuns.

Outro ponto de atenção é a confusão entre causas e gatilhos. Fatores como estresse, ansiedade, alterações no sono, consumo de álcool e variações hormonais podem aumentar a frequência das crises, mas não são responsáveis pelo surgimento da doença.

O tratamento da enxaqueca é dividido entre o controle das crises e a prevenção. Segundo o neurologista, a recomendação é que a medicação seja iniciada assim que surgirem os primeiros sintomas, evitando a intensificação da dor. Entre as opções estão analgésicos, anti-inflamatórios e medicamentos específicos, como os triptanos. Novas classes terapêuticas, como os gepants, ainda não estão disponíveis no país.

Já no caso da cefaleia em salvas, a origem exata ainda não é totalmente conhecida. “A principal hipótese envolve alterações no hipotálamo, região do cérebro responsável por regular o sono, o ritmo biológico e funções hormonais”, afirma o médico. A relação das crises com o ciclo circadiano reforça essa teoria.

Considerada uma das dores mais intensas da neurologia, a cefaleia em salvas pode atingir diferentes regiões da cabeça, o que contribui para a complexidade do diagnóstico. Além da dor ao redor dos olhos, o desconforto pode se irradiar para áreas como têmpora, testa, bochechas, nariz, gengiva superior e até o couro cabeludo. Em alguns casos, há também sensação de pulsação durante as crises.

O especialista ressalva que, sem acompanhamento adequado, o quadro pode evoluir para dores crônicas, com impacto direto na qualidade de vida. Apesar da intensidade dos sintomas, a doença não é fatal, mas não tem cura. O tratamento é essencial para reduzir a frequência das crises e amenizar a dor.

Diante de episódios intensos e recorrentes, a recomendação é procurar atendimento médico. O Ministério da Saúde orienta que a avaliação inicial seja feita nas unidades básicas de saúde, com encaminhamento para especialistas quando necessário.

Para os médicos, identificar corretamente o tipo de cefaleia é fundamental. Mais do que dar um nome à dor, o diagnóstico adequado permite iniciar o tratamento correto e devolver qualidade de vida a pacientes que convivem com crises incapacitantes.

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