Saúde

Inteligência artificial e exame de sangue ampliam detecção precoce da hanseníase

Os resultados indicam que a combinação de tecnologia e triagem clínica pode ampliar a capacidade de diagnóstico precoce da hanseníase

Leticia Mariellepor Leticia Marielle em 14 de abril de 2026
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Inteligência artificial e exame de sangue ampliam detecção precoce da hanseníase. | Foto: Reprodução/Freepik

Um novo método que combina exame de sangue, questionário clínico e inteligência artificial pode transformar o diagnóstico da hanseníase no Brasil, ao permitir a identificação da doença em fases iniciais. A estratégia foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e testada a partir de amostras coletadas durante um inquérito populacional realizado na pandemia de Covid-19, em Ribeirão Preto.

O estudo, conduzido por especialistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) com apoio da Fapesp, aponta que a abordagem tem potencial para superar uma das principais dificuldades no combate à hanseníase: a detecção precoce. Atualmente, muitos casos só são diagnosticados quando os sintomas já estão mais avançados, o que pode comprometer o tratamento e aumentar o risco de transmissão.

A nova metodologia utiliza duas etapas principais. A primeira é a aplicação de um questionário clínico com 14 perguntas voltadas a sinais neurológicos, associado a um sistema de inteligência artificial chamado MaLeSQs, capaz de analisar as respostas e indicar suspeitas da doença. A segunda envolve um exame de sangue que detecta anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína do Mycobacterium leprae ligada à infecção.

Os pesquisadores aproveitaram amostras de sangue já coletadas durante um estudo sobre Covid-19 para identificar possíveis casos de hanseníase que ainda não haviam sido diagnosticados. Cerca de 700 pessoas foram convidadas a participar da nova etapa, sendo que 224 responderam ao questionário e 195 tiveram o material biológico analisado.

Do total, 37 participantes compareceram à avaliação clínica presencial. A partir da análise combinada dos dados, foram identificados 12 novos casos da doença — número considerado relevante, já que os pacientes não apresentavam sintomas claros e desconheciam o diagnóstico.

Entre os exames laboratoriais, o teste que detecta o anticorpo IgM contra o antígeno Mce1A apresentou melhor desempenho, identificando cerca de dois terços dos casos confirmados. Quando associado à inteligência artificial, o método alcançou 100% de sensibilidade, ou seja, conseguiu apontar todos os casos que foram posteriormente confirmados pelos especialistas.

Os resultados indicam que a combinação de tecnologia e triagem clínica pode ampliar a capacidade de diagnóstico precoce da hanseníase, doença que ainda enfrenta desafios no Brasil, especialmente pela dificuldade de identificação em estágios iniciais e pela falta de ferramentas mais sensíveis na rotina dos serviços de saúde.

O uso de ferramentas de georreferenciamento também integrou a pesquisa sobre hanseníase e trouxe um novo olhar sobre a distribuição da doença. De acordo com os pesquisadores, o mapeamento dos casos identificados apontou um padrão disperso de exposição ao bacilo, sem concentração em regiões específicas da cidade. O resultado sugere que a doença não está restrita a áreas vulneráveis, atingindo diferentes perfis sociais. A análise, no entanto, considera que nem todos os participantes passaram por avaliação clínica presencial, o que pode influenciar a abrangência dos dados.

A hanseníase é uma doença infecciosa que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos. Entre os sintomas mais comuns estão manchas claras ou avermelhadas, perda de sensibilidade, formigamento, câimbras e fraqueza muscular. Em estágios iniciais, no entanto, a identificação pode ser dificultada, já que os exames laboratoriais mais utilizados nem sempre detectam a presença da bactéria.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 200 mil novos casos da doença são registrados anualmente no mundo, com maior incidência em países de renda média e baixa. O Brasil ocupa a segunda posição no ranking global, atrás apenas da Índia, e concentra cerca de 90% das notificações nas Américas.

Um dos principais desafios no diagnóstico está justamente na fase inicial da doença. Exames como a baciloscopia, que busca identificar diretamente o bacilo na pele, podem apresentar resultado negativo devido à baixa carga bacteriana. Estimativas apontam que mais de 60% dos pacientes podem não ter confirmação laboratorial mesmo estando infectados.

O tratamento é realizado com antibióticos e varia entre seis meses e um ano, dependendo da gravidade do quadro. Atualmente, a hanseníase é considerada uma doença determinada por fatores sociais, classificação que vem sendo adotada em substituição ao termo “doença negligenciada”, refletindo a influência das condições de vida no risco de adoecimento.

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