Paço de Goiânia cobre erosão na Marginal Botafogo em 3 dias, mas obra é alvo de críticas
Entrega antecipada reduz impactos no trânsito, enquanto técnicos apontam falhas no planejamento e questionam eficácia da intervenção
A rotina dos goianienses foi fortemente impactada no último fim de semana com a interdição de um dos principais eixos arteriais da Capital, a Marginal Botafogo. Inicialmente prevista para durar 15 dias, a intervenção foi concluída em apenas três, com o prefeito Sandro Mabel indo ao ato de liberação da via nesta segunda-feira (13), após a execução da obra de contenção de erosão. A entrega antecipada, no entanto, expôs divergências entre a gestão municipal, especialistas e usuários da via, que enfrentaram transtornos significativos durante o período, especialmente em horários de pico e em rotas alternativas.
No fim desta segunda-feira, Mabel liberou a pista no sentido Sul-Norte, na altura da Rua 21, no Centro, e destacou o que classificou como “tempo recorde” para a conclusão da intervenção. Segundo o prefeito, o início das intervenções foi adiado por condições do solo que dificultavam a execução imediata dos serviços. “A obra não começou imediatamente porque o terreno estava encharcado. Nós tínhamos um encharcamento na água grande”, afirmou.
Mabel também defendeu que a solução adotada buscou evitar medidas superficiais e paliativas: “Chegou-se na conclusão, se fez um projeto antes de se tampar um buraco. […] Se eu estivesse querendo não fazer isso, só arrumar a beirada, estoura tudo.”
O serviço incluiu a estabilização do muro de contenção com vigas metálicas, retirada de estruturas provisórias que haviam sido instaladas anteriormente, aterramento da área afetada, terraplanagem e aplicação de nova camada asfáltica ao longo do trecho comprometido. Mabel afirmou que o planejamento técnico foi determinante para evitar novos problemas estruturais e garantir maior durabilidade à intervenção realizada. “Isso tudo tem que ser feito com um planejamento, senão passo hoje e cai amanhã.”
Como medida imediata de precaução, o prefeito também anunciou a restrição de caminhões de carga pesada, com peso entre 40 e 60 toneladas, na pista da esquerda, próxima ao córrego, com o objetivo de reduzir a pressão sobre a canalização e preservar a estrutura recém-recuperada.
A Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) informou que a intervenção foi motivada por uma erosão registrada em fevereiro, que comprometeu o muro de contenção. O titular da pasta, Francisco Lacerda, confirmou a conclusão da recomposição asfáltica nesta segunda-feira. Já a superintendente de Obras e Serviços de Infraestrutura, Flávia Ribeiro Dias, atribuiu a antecipação do cronograma à ausência de chuvas e ao aproveitamento de parte da estrutura existente. Segundo Flávia, a obra, orçada em cerca de R$ 200 mil, foi executada de forma mista, com atuação direta da Seinfra e de empresa terceirizada.
Apesar da liberação rápida, a interdição gerou impactos expressivos no trânsito. Motoristas relataram aumento significativo no tempo de deslocamento. João Pedro Bolzam, que utiliza a via diariamente, afirmou: “Pego a marginal todo dia para ir para casa e, desde sábado (11), mesmo com tráfego menor, o tempo do trajeto praticamente dobrou, as ruas escolhidas para o desvio não comportam a quantidade de carros”.
O motociclista Edson Carvalho também criticou a condução da operação. “Muita bagunça, além de não terem informado antes, essa volta maior enrola muito a minha vida”, reclamou.

Especialistas apontam falhas e cobram solução estrutural
As vias alternativas, como a Rua 233 e a Avenida Universitária, registraram sobrecarga, evidenciando limitações na capacidade de absorver o fluxo desviado. Para o professor do IFG e especialista em trânsito Marcos Rothen, a interdição total foi adequada do ponto de vista operacional, ao garantir segurança e agilidade. No entanto, ele apontou falhas recorrentes no planejamento urbano da capital: “Normalmente as intervenções em Goiânia são feitas com pouco planejamento e em muitas situações as obras se estendem por um tempo além do necessário”.
Rothen também avaliou que as rotas sugeridas pela Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET) tiveram caráter paliativo: “As vias indicadas não têm capacidade para receber o tráfego desviado… os transtornos serão grandes, afetando os usuários originais da Marginal e os que já usavam as vias alternativas”. Ele destacou ainda que o uso de aplicativos de navegação poderia ter reduzido parte dos impactos, embora relatos indiquem que muitos motoristas foram surpreendidos pelos congestionamentos.
Sob uma perspectiva urbanística, o arquiteto Fred Le Blue questionou a efetividade da intervenção no longo prazo. Segundo ele, a obra entregue representa apenas uma solução emergencial: “É o mínimo para garantir que a estrutura não colapse imediatamente”. Para o especialista, a Marginal Botafogo apresenta problemas estruturais históricos. “A Marginal tem erros crônicos de projetos e engenharia, à luz da perspectiva e demanda atual de drenagem urbana… Qualquer coisa menos que uma reforma estrutural com planejamento urbano participativo de longo prazo é dançar às cegas na beira do abismo”, afirmou.
O arquiteto também alertou para o risco de novos desmoronamentos em trechos ainda não afetados, diante da proximidade da pista com o canal e do aumento do volume de chuvas. Ele defendeu a ampliação do debate sobre o futuro da via. “Temos que desmarginalizar o debate público sobre a Marginal… às margens dos rios deverão ser preservadas, até para evitar riscos de inundações e deslizamentos”.
Durante a obra, chamou atenção o uso parcial das cancelas eletrônicas instaladas recentemente pela prefeitura ao custo de R$ 2,63 milhões. Projetadas para monitoramento de alagamentos, elas foram utilizadas de forma complementar aos bloqueios físicos. Em alguns pontos, como na Rua 233, permaneceram levantadas, enquanto o controle do tráfego foi feito com barreiras móveis. A SET informou que a estratégia buscou reforçar a segurança e evitar o desrespeito à sinalização.
Embora a via tenha sido liberada, a própria administração municipal reconhece a criticidade do trecho e a necessidade de manutenção contínua. O prefeito afirmou que uma solução definitiva dependerá de um projeto de requalificação completa da Marginal Botafogo, estimado em R$ 120 milhões. A licitação deve ser lançada até junho, com início das obras no período de seca e prazo mínimo de execução de 18 meses.