quarta-feira, 15 de abril de 2026
geração Z

Culto à magreza retorna e adoece adolescentes

Redes sociais entregam corpos impossíveis de forma contínua a meninas que ainda formam a própria imagem

Luana Avelarpor Luana Avelar em 15 de abril de 2026
magreza

Toda geração de meninas cresceu sob alguma versão do corpo impossível. Nos anos 1990, era o heroin chic das passarelas europeias. Nos 2000, a magreza das celebridades pop. O que é diferente agora não é o padrão em si, mas o ambiente em que ele se instala: uma geração que não foi exposta às redes sociais na adolescência, mas nasceu dentro delas. Os efeitos disso estão começando a aparecer nos consultórios e nos levantamentos estatísticos, e o que revelam é mais grave do que qualquer tendência de passarela.

A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar do IBGE, realizada em 2024 com 12,3 milhões de estudantes entre 13 e 17 anos, mostrou que 36,1% das adolescentes brasileiras se declararam insatisfeitas ou muito insatisfeitas com a própria imagem, o dobro dos meninos. Outras 31,7% afirmaram tentar emagrecer. São números que não existiam com essa magnitude nas gerações anteriores.

O ambiente inédito

O contexto é sem precedentes. Algoritmos de redes sociais entregam continuamente imagens de corpos selecionados e editados para usuárias que ainda estão formando a percepção de si mesmas. A comparação, que antes exigia uma revista ou um filme, acontece agora de forma automática, passiva e ininterrupta. Ao mesmo tempo, a chegada do Ozempic e de medicamentos similares ao imaginário popular criou a percepção de que o corpo magro idealizado é mais acessível do que nunca. O efeito combinado desses dois fatores sobre meninas de 13 anos é algo que nenhuma geração anterior enfrentou na mesma proporção.

O padrão que essas adolescentes estão internalizando voltou com força total. No tapete vermelho do Oscar deste ano, clavículas salientes e braços finos roubaram a cena, e o fenômeno ganhou até nome: Hollyweird, junção de Hollywood com weird, palavra inglesa para estranho. Nas passarelas, 97,6% dos 7.817 looks apresentados em 182 desfiles da temporada outono/inverno 2026 eram de tamanhos equivalentes ao 34 ao 38 no Brasil, segundo o relatório de inclusividade da Vogue Business. O movimento body positive, que nos anos anteriores ensaiava uma ruptura com esse ciclo, foi absorvido pelo marketing sem deixar rastros estruturais.

Leia mais: Emagrecimento acelerado pode afetar até a região íntima feminina

O adoecimento que chega mais cedo

O adoecimento que resulta desse ambiente está chegando mais cedo do que em gerações anteriores. Especialistas relatam crescimento nos casos de anorexia extrema e um deslocamento do perfil das pacientes para a pré-adolescência, faixa etária em que o corpo ainda está em formação e os riscos se multiplicam. Na adolescência, o emagrecimento excessivo pode comprometer hormônios e a função reprodutiva. Os transtornos alimentares desencadeados por esse processo também provocam depressão e ansiedade em anos decisivos do desenvolvimento.

Os danos físicos do emagrecimento excessivo são conhecidos: cansaço, queda de cabelo, distúrbios menstruais, deficiência vitamínica e perda de massa muscular. A partir dos 40 anos, o risco inclui osteopenia e fragilidade óssea. O início de uma dieta restritiva costuma ser o gatilho, e dietas nunca estiveram tão normalizadas entre jovens como estão agora, com medicamentos emagrecedores sendo discutidos abertamente em grupos escolares.

O que diferencia essa geração

O que torna essa geração diferente não é a vulnerabilidade, que sempre existiu. É a escala, a velocidade e a ausência de intervalos. Gerações anteriores podiam fechar a revista. Essa não fecha a tela. O padrão que antes chegava em doses é agora entregue de forma contínua, personalizada e validada por métricas de engajamento. Crescer dentro disso, e não apenas ser exposta a isso, muda a natureza do problema. O custo mais difícil de medir é o de uma geração inteira formando a própria imagem sob pressão constante, sem nunca ter conhecido outro ambiente.

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