OPINIÃO

Governadores de GO e DF devem ficar distantes do exemplo Ibaneis

Por improbidade ou falta de experiência, ex-governador de Brasília levou o BRB à derrocada e pode arrastar para o buraco a nova geração de políticos, mas que felizmente para eles tiveram a prudência de deixá-lo longe 

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 20 de abril de 2026
Ibaneis
Governadores de GO e DF buscam se afastar do exemplo de Ibaneis após crise política desencadeada pelo caso Banco Master Foto: Divulgação e Felipe Ando /Agência CLDF

Enquanto existiram, o BEG, a Caixego e o BD-GO eram siglas mais frequentes no crime do que hoje são PCC e CV. Muitas fortunas que atualmente desfilam com gente muito boa de Goiás, Tocantins e Brasília foi construída graças à derrocada de estatais como os bancos, a Celg e, entre as empresas ainda vivas, a Saneago. As instituições tiveram fins trágicos, até porque não é atribuição de governo estadual se imiscuir no sistema financeiro como parte.

No Distrito Federal, onde a União deixou passar a onda privatista sem leiloar o que era dos outros, o Banco de Brasília funciona como um imenso closet, com miríade de cabides. Tinha tudo para dar errado. E deu. Desta vez, abateu um político que vinha citado até para voos maiores, Ibaneis Rocha, que renunciou ao GDF para ser candidato ao Senado e o cotavam até para ser vice do presidente Lula em eventual aliança de seu partido, o MDB, com o PT.

Quando o Banco Master foi liquidado, em 18 de novembro de 2025, no atacado se liquidou Ibaneis. Não há provas de seu envolvimento com os bilionários trambiques da instituição de Daniel Vorcaro, mas em política é muito fino o fio da confiança, tanto que antigamente era o do bigode. Até a implosão do Master, se considerava sólida a expectativa de o então governador virar senador – vice-presidente da República repousava mais na faixa dos sonhos. Agora, está tendo de se virar em outra seara, a da liberdade. Como o instituto da prisão cautelar se transformou em farra ao bel-prazer das autoridades, até os aliados de Ibaneis temem que mais uma das fases de operações policiais o colha para o antes inesperado.

OS GOIANOS QUE MAIS LUCRARAM COM A DISTRIBUIÇÃO DO MASTER

Por isso, dos dois lados da fronteira do quadradinho com Goiás, os pré-candidatos mantêm distância higiênica de quem, por algum motivo, se reuniu com Vorcaro. Até o presidente Lula, que recebia o dono do Master no Palácio do Planalto em reuniões fora da agenda, perdeu prestígio por essa ligação. Entre os goianos, os que mais lucraram com o Master foram o ex-governador Marconi Perillo (PSDB), com R$ 14,5 milhões e mais R$ 18,5 milhões para Henrique Meirelles, presidente do Banco Central nos dois primeiros Governos Lula e ministro da Fazenda no Governo Temer. A goianiense Celina Leão (PP), nova governador do DF, está fora dessa lista, assim como seu antecessor Ibaneis, que acabou vítima do gabinete do ódio por inexperiência ou por participar das tramoias.

A chapa superfavorita em Brasília para outubro próximo era composta pela reeleição de Celina e, para o Senado, Ibaneis e a ex-primeira-dama da República Michelle Bolsonaro. Bastou Vorcaro balançar a moita anunciando delação para alguns amigos de Ibaneis o ignorarem – e olhe que a Polícia Federal sequer se aproximou dele, ao menos até agora. O PL se apressou em confirmar o apoio a Celina, porém, seu senador Izalci Lucas, um componente do baixo clero que gravita entre diversas ideologias, quer concorrer com Celina, mas Brasília não se anima a viver esse pesadelo. Para acompanhar Michelle, as pesquisas apontam não mais Ibaneis, e sim Bia Kicis, do mesmo PL. Surge, então, mais um que lucra com o Master, no caso, indiretamente: a barafunda na direita pode beneficiar o ex-governador José Roberto Arruda, do PSD.

CRIMINOSOS VAZAMENTOS DE CONVERSAS DE VORCARO

Entre ladrões e mocinhos, e para estar na 1ª categoria é suficiente aparecer numa transcrição de conversa com Vocaro, poucos escapam. Têm vindo a público, abastecidos por autoridades que criminosamente vazam os dados, prints de conversas do dono do Master com pessoas físicas e jurídicas dos mais diversos cantos. Na edição desta semana, a principal revista de jornalismo do Brasil, “Veja”, começa sua principal reportagem descrevendo a chegada de Vorcaro ao aniversário de um ministro do presidente Lula. Cita diversos cargos de presentes ao evento… e nada de Ibaneis:

“Compareceram, entre outros, as principais lideranças do Congresso, alguns integrantes do primeiro escalão da República, um ministro do Supremo Tribunal Federal e Daniel Vorcaro. O banqueiro apareceu acompanhado de uma van de vidros escuros, transportando pelo menos duas dezenas de mulheres bem-vestidas e sorridentes, que desembarcaram e foram levadas para o interior de uma luxuosa casa, localizada no bairro mais chique de Brasília”. O perfil das moças, segundo um entrevistado pela revista: “Brasileiras e gringas, lindas, elegantes, pareciam modelos”. 

VAROU MADRUGADA A FESTA DE MINISTROS COM 20 PROSTITUTAS

Segundo Veja “as convidadas viajaram à capital em jatos executivos que partiram de São Paulo horas antes do evento e retornaram na manhã seguinte – um presente do banqueiro ao amigo aniversariante e aos demais convivas. A festa, animada, varou a madrugada”. Certamente não sabe o nome da parte feminina do fuzuê, mas Vorcaro deve dizer à PF quem eram os homens, sobretudo os ministros do Executivo e do Judiciário. Devem ter se esbaldado com as 20 prostitutas e caminham para se incendiar porque, como canta o sertanejo Leonardo, pega fogo o cabaré.

Se Ibaneis não está sequer nos exercícios de imaginação de repórteres com mente desocupada na imprensa paulista, por que o temor de um agente tocar a campainha de sua supermansão candanga às 6 da manhã? A resposta é uma lição para os novos políticos: porque o então governador de Brasília se meteu no que não era de sua conta, a compra de um banco cuja péssima fama rodava o País, menos os arredores do BC. 

A classe política do Distrito Federal é, na média, podre, e adora levar para sua sarjeta moral os que a desafiam. Pode ser o caso de Ibaneis? Só a caixa-preta da memória de Vorcaro para responder. O aprendizado que sai desses episódios é que o crime não compensa – eis aí a frase mais ingênua e bombardeada da República. 

O SOFRIMENTO DE IBANEIS É DIDÁTICO PARA OS POLÍTICOS

De qualquer forma, o pavor que Ibaneis e aliados estão sofrendo é didático para os mais novos – aliás, ele também é novo na política, tem oito anos de carreira, já entrou diretamente para chefiar o GDF. O governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB), e um de seus principais adversários, Wilder Morais (PL), estão estreando no Executivo – o 1º acaba de entrar, o 2º só entra se derrotar o 1º. 

O concorrente mais forte de ambos, Marconi Perillo, teve quatro mandatos de governador. O PT ainda não escolheu quem de seus filiados vai enfrentar esse trio, mas quem quer que seja também será alguém sem expertise no cargo, já que o partido nunca venceu eleições majoritárias estaduais. Portanto, estão todos com ficha limpa e a oportunidade de administrar sem escândalos. 

É suficiente ser honesto – o que, nessa pocilga em que se transformou a administração pública, não passa de ingenuidade, quase infantil, história da carochinha em que nem criança acredita.

Além de não serem meninos, nenhum dos citados aqui é vulnerável financeiramente. Pelo contrário. Porém, a biografia de Ibaneis é única – Marconi é de família mais ou menos pobre, porém, nem se lembra mais disso; Daniel é riquíssimo há três gerações; Wilder nasceu no meio da roça, paupérrimo, e ficou bilionário por ser exímio empreendedor. Ibaneis, além de tudo isso, ainda teve de penar por ser imigrante. 

Retirante nordestino que chegou a Brasília puxando cachorro magro com corda puída, ficou multimilionário por méritos próprios, assim como Wilder. Mesmo antes de assumir qualquer cargo, o advogado Ibaneis já era considerado o verdadeiro pai dos servidores públicos locais, nas diversas instâncias. Sua atividade bem-sucedida nos tribunais era defender os trabalhadores diante do maior algoz de quem produz, o governo – que, não importa por quem esteja ocupado, é sempre por alguém que enfia a mão no bolso de quem bate ponto e pega no batente. Com isso, ficou rico e deixou seus clientes um pouco menos pobres.

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