Flávio no Caso Master põe Michelle no páreo e pode afastar Centrão
Vazamento de negociação milionária com dono do Master provocou movimentações no Centrão e abriu espaço para discussões sobre possível entrada da ex-primeira-dama na corrida
A divulgação dos áudios entre o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro desencadeou uma onda de turbulências no campo bolsonarista e abriu espaço para articulações alternativas dentro da direita para a disputa presidencial de outubro.
Nos bastidores de Brasília, lideranças do Centrão e setores do mercado financeiro passaram a discutir possíveis rearranjos eleitorais diante do desgaste do senador. Segundo informações da coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles, caciques de partidos de centro começaram a avaliar cenários que envolvem uma composição entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) e a senadora Tereza Cristina (PP-MS). O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), já foi até sondado sobre a possibilidade.
Ao mesmo tempo, Flávio já afirmou ter conversado com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que teria descartado qualquer possibilidade de Michelle disputar a Presidência da República. “Não existe nenhuma possibilidade”, disse o senador, segundo relato publicado pela CNN Brasil.
Apesar da tentativa de demonstrar unidade, a crise intensificou debates internos no bolsonarismo. Reportagem da revista Veja revelou que aliados ligados à direita passaram a discutir em grupos de mensagens a possibilidade de Michelle substituir Flávio na corrida presidencial caso o desgaste se aprofunde.
“Dark Horse”
A controvérsia surgiu após o vazamento de conversas em que Flávio negocia R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente, publicado pelo site The Intercept Brasil. Para o professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Guilherme Carvalho, o caso tem potencial para causar danos significativos à articulação política do PL e afastar partidos que têm dialogado com o grupo bolsonarista.
“Isso tem potencial de afastar o PP e o União Brasil, principalmente, além de queimar algumas pontes de diálogo com o PSD e outros partidos. Ninguém quer aparecer na foto enquanto a situação não se resolve”, afirma.
Segundo Carvalho, parte do Centrão teme que novas revelações atinjam outros atores políticos ligados ao caso. “Muita gente sabe que chegar perto do Flávio agora pode acender um alerta para que outras coisas apareçam”, aponta.
O cientista político também avalia que a crise atinge diretamente um dos pilares centrais do discurso bolsonarista, que é o combate à corrupção. Para o professor, o PL sustentou nos últimos anos uma narrativa que concentrava críticas em adversários políticos enquanto relativizava denúncias que envolvem aliados. “O discurso era: ‘Olhe para a corrupção do PT, mas não olhe para os nossos deslizes’”, afirma.
“É possível que apareça alguém do governo envolvido no Caso Master com os desdobramentos da operação. Tendo esse panorama em mente, tem teto de vidro para todo lado”, destaca Carvalho. “Não duvido que o PL reverta essa situação e daqui mais à frente toda essa situação do Flávio seja esquecida. Tudo depende agora de como a operação vai se desdobrar, se vai equilibrar ou vai pender para um dos lados”, ressalta o professor.
Leia mais: “Goianos querem um projeto de estado mais progressista”, diz Delúbio Soares
Ainda é cedo
Carvalho pondera que ainda é cedo para decretar o fim político da pré-candidatura do senador. “A política brasileira é marcada por reviravoltas. Tudo depende agora mais da Polícia Federal do que propriamente da agenda política”, avalia.
Mesmo assim, Carvalho considera que um eventual enfraquecimento definitivo de Flávio abriria espaço para o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, ampliar influência sobre os rumos do partido e impulsionar o nome de Michelle Bolsonaro. “A Michelle talvez seja a melhor saída para o PL. Ela não ocupou cargo público, não carrega os mesmos desgastes e ainda conseguiria mobilizar o eleitorado evangélico”, observa.
“O Flávio não conglomera essas qualidades. Muito pelo contrário, ele já era uma candidatura controversa. A gente sabe da questão da chocolateria dele, da compra das casas, dos imóveis em dinheiro vivo. Tudo isso já compromete razoavelmente a imagem do Flávio. Agora, esse comprometimento está elevado à máxima potência”, conclui o cientista.