Em 17 anos, Crew Attack fez de Goiânia capital do skate
Festival no Bacião reúne 250 skatistas de todo o país, revela talentos e se prepara para expandir a outras capitais
Por quatro dias, o Bacião deixa de ser apenas uma praça do Setor Sul e se transforma no centro do skate nacional. Entre 21 e 24 de maio, o espaço público de Goiânia recebe a 17ª edição do Goiânia Crew Attack, evento que ao longo de quase duas décadas construiu uma reputação incomum no circuito brasileiro: cresceu sem lei de incentivo, sem estrutura federativa e sem gastar um centavo em publicidade nas redes sociais. A entrada é gratuita para o público geral.
A origem está numa insatisfação. Em 2009, Daniel Atassio, fundador e organizador do evento, decidiu abandonar o formato que conhecia. Desde 2004, ele tocava o Circuito Goiano do Skate, competição tradicional com categorias por nível, eliminatórias cronometradas e notas atribuídas a cada manobra. O modelo funcionava, mas cobrava um preço. “É muito cansativo, é muito chato. O skate é uma prática que é diferente de qualquer esporte porque não é objetivo, é extremamente subjetivo. A gente chegou num ponto que não queria mais ficar julgando o skate da forma tradicional”, diz ele. O formato também gerava conflito fora da pista: pais de skatistas reclamavam das notas atribuídas às manobras dos filhos.
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A ruptura gerou o Crew Attack. Em vez de categorias individuais, o evento adotou o formato por crews, grupos de três a cinco amigos que competem juntos, acumulando pontos em cinco obstáculos ao longo do fim de semana. A crew com melhor desempenho divide uma premiação de R$30 mil. “A ideia é a galera estar andando com seus amigos, se divertindo, e ao mesmo tempo pontuando. No final das contas, o que vale é estar com os amigos, porque no skate é isso que mais importa”, explica Atassio.
Além das disputas, a programação inclui shows de Agnoizze, Banana Bipolar, Entropia e Papangu, sets de DJs de Curitiba e São Paulo e intervenções de artistas visuais como Karolez, Danilo Itty e Thai Junger. No domingo, a premiação acontece às 20h, seguida do encerramento com a banda Papangu, de João Pessoa.
Goiânia no mapa
Das 250 vagas disponíveis, apenas 20 ficam com skatistas de Goiânia. Os outros 230 vêm do Paraná, Rio de Janeiro, Ceará, São Paulo, Rio Grande do Sul, Brasília e de outros estados. “A galera leva isso: que Goiânia é divertida, que Goiânia é festa, que o skate de Goiânia é descontraído, é gostoso. É isso que atrai todo mundo”, diz Atassio.
O Bacião tornou-se sede permanente do festival a partir de 2023, quando o evento passou a adotar espaços públicos como estratégia de legado, revitalizando praças e pistas pela cidade. “De evento, talvez seja o mais importante do Brasil hoje”, afirma o organizador.
A edição deste ano conta com a presença confirmada de Augusto Akio, o Japinha, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 e campeão mundial de skate park em setembro do mesmo ano. Akio não chegou ao Crew Attack por convite. Em 2024, soube do evento pelas redes, se inscreveu em três crews, fretou uma van e bancou a hospedagem dos amigos de Curitiba. “A gente ficou surpreso. Caramba, o moleque vem”, lembra Atassio. Neste ano, o atleta volta ao Bacião para competir e lançar um vídeo inédito, com première marcada para o fim de semana.
Para Akio, o Crew Attack preserva o que está se perdendo em outros circuitos. “Quando eu comecei a andar de skate, a gente falava que ia pra pista andar de skate. Hoje em dia eu escuto muito a criançada falar que vai treinar quando tá indo pra pista”, diz o atleta, que começou a se destacar na cena nacional aos 11 anos. Sobre o Centro-Oeste, é direto: “Pode até ser que Goiânia e o Centro-Oeste apareçam pouco quando se fala de campeonato e título, mas quando se fala de skate de rua tem muito nome bom aí. O que essa galera precisa é de estrutura e oportunidade para aparecer para o mundo.”
O próximo passo
Em 2024, o presidente da Vans Global esteve no Bacião e saiu com uma proposta: levar o formato para São Paulo. Em outubro deste ano acontece a primeira edição do São Paulo Crew Attack. “A gente conseguiu o que sempre quis, que é começar uma história de franquear o evento, de levar para outras capitais”, conta Atassio, que projeta edições futuras em Florianópolis, Porto Alegre e Belo Horizonte.
O patrocínio da Vans e da Monster Energy, com contrato internacional desta última, viabiliza a expansão sem abrir mão do modelo de 17 anos: comunidade, diversão e skate de essência. O Crew Attack transformou o Bacião num endereço reconhecido do skate nacional. Agora, Goiânia exporta o modelo.
Serviço
O quê: Goiânia Crew Attack 2026
Quando: 21 a 24 de maio
Onde: Bacião, Praça Maria Angélica da C. Brandão, Setor Sul, Goiânia
Entrada: Gratuita