segunda-feira, 19 de outubro de 2026
manda vê

Psicóloga reflete sobre infância, vínculos e esgotamento

Fundadora do Instituto Afeto fala sobre telas, padrões afetivos e os limites do corpo diante da vida moderna

Luana Avelarpor em
Psicóloga

A psicóloga Georgia Ferreira Tavares Bueno tem mais de 25 anos de atuação clínica voltada ao cuidado emocional de gestantes, bebês e famílias. Mestre em Psicologia do Comportamento, com formação em psicanálise e neuropsicologia, ela é referência no campo do pré-natal psicológico e fundadora do Instituto Afeto. Na última segunda-feira (4), participou do podcast Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse e Isadora Carvalho, onde falou sobre maternidade, vínculos, infância e os limites do corpo diante da vida em alta performance.

Da odontologia à escuta clínica

O caminho até a psicologia não foi linear. Georgia concluiu o ensino médio com uma vaga garantida em odontologia, área em que o pai e o irmão já atuavam. Antes de iniciar a faculdade, optou por um ano sabático: vendeu o cavalo que criava e usou o dinheiro para fazer intercâmbio na Dinamarca. A experiência foi decisiva.

Viver sozinha em outro país, em contato com uma cultura completamente diferente, desenvolveu nela habilidades que, segundo a própria psicóloga, nenhuma sala de aula consegue replicar. “Não tem dinheiro que pague essas habilidades”, disse durante o programa. A capacidade de se adaptar, de se comunicar em outro idioma e de suspender o julgamento diante do diferente são ferramentas que ela carrega até hoje.

Ao voltar ao Brasil, não se via mais no consultório odontológico. A referência mais próxima para o novo rumo era a avó, que integrou a primeira turma de psicologia da PUC. “Eu pensava que precisava gostar daquilo que faço, porque quero fazer isso para o resto da vida. Então tenho que sentir prazer”, disse. A escolha veio também de uma convicção herdada do pai, de que a educação transforma vidas. O interesse pela área escolar foi o primeiro motor. A clínica chegou depois, quando pacientes começaram a procurá-la enquanto ainda finalizava a graduação.

Para pagar a faculdade, começou dando aulas de inglês, idioma que havia desenvolvido no intercâmbio. Gostou tanto que continuou. Atuou em sala de aula por 12 anos, experiência que, segundo ela, moldou sua forma de escutar e de construir vínculos com quem atende. Hoje, seu trabalho com pais e filhos ainda carrega essa raiz: formar seres humanos emocionalmente saudáveis.

Quando o passado se repete

Durante o podcast, Georgia descreveu o acompanhamento de um homem de 30 anos, residente fora do país, que passou por um divórcio difícil e iniciou um novo relacionamento. Com transtorno bipolar e histórico de sofrimento intenso, ele chegou ao consultório em estado crítico.

Ao longo do processo terapêutico, Georgia o ajudou a perceber que reproduzia, com a nova parceira, os mesmos comportamentos do relacionamento anterior. “Você disse que não quer viver um relacionamento como o anterior, mas está seguindo do mesmo jeito”, relatou ter dito a ele. O núcleo do padrão era o medo do abandono, que se manifestava de formas diferentes, mas com a mesma estrutura emocional. Para a psicóloga, esse mecanismo não é exclusivo de adultos. Ele se instala desde a infância e percorre a vida do sujeito se não houver elaboração.

Telas e a infância que mudou

Georgia dedicou parte da conversa às mudanças no desenvolvimento infantil. Para ela, o ambiente em que as crianças crescem hoje é radicalmente diferente do de gerações anteriores. Antes, a infância se passava nas ruas, em brincadeiras coletivas e no contato físico com outras crianças. Hoje, esse espaço foi ocupado pelas telas.

O impacto, segundo a psicóloga, é severo. Ela classifica as telas como um veneno para o desenvolvimento infantil, por substituírem experiências fundamentais para a construção do psiquismo: o movimento, a frustração, a espera, o jogo simbólico e a relação com o outro. A preocupação se conecta diretamente à sua prática, que parte da premissa de que vínculos saudáveis se formam nos primeiros momentos de vida e dependem de presença, afeto e interação real.

O corpo que não aguenta

No encerramento do episódio, Georgia falou sobre os efeitos do estresse crônico no organismo. Para ela, viver em estado permanente de alta performance tem um custo físico que o corpo não consegue sustentar indefinidamente. O sono, nesse contexto, deixa de ser opcional: quem não dorme bem, não vive bem. A afirmação resume uma visão que perpassa toda a sua clínica, a de que saúde emocional e saúde física são inseparáveis.

A conversa percorreu ainda outros temas ligados à saúde emocional e ao desenvolvimento humano. O episódio completo está disponível no canal do YouTube do podcast Manda Vê. 

 

 

Leia mais: Imagem, moda e sertanejo em pauta no Manda Vê

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