Análise

Entre festas, cargos e articulação, Alego chegará desgastada a nova legislatura

Especialistas avaliam que Assembleia perdeu qualidade enquanto Poder nos últimos anos e que precisa de mudança de postura a partir de 2027

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 15 de maio de 2026
Alego
Nos últimos anos, a Assembleia ampliou o número de assessorias, diretorias e cargos comissionados. Foto: Sérgio Rocha/Alego

Bruno Goulart

Milhares de pessoas, prefeitos, vereadores, deputados e lideranças políticas de várias regiões do Estado se reuniram, nesta quarta-feira (13), para celebrar o aniversário de 52 anos do presidente da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), Bruno Peixoto (UB). A festa promovida pelo próprio presidente foi marcada por forte demonstração de poder político e a percepção de que a Alego deixou de priorizar sua função de Casa de Leis e passou a atuar mais como espaço de articulação eleitoral e distribuição de cargos.

Quase 6 mil comissionados

Nos últimos anos, a Assembleia ampliou o número de assessorias, diretorias e cargos comissionados. São quase 6 mil. Ao mesmo tempo, a presença política da Casa cresceu no interior de Goiás, com aproximação de prefeitos e Câmaras Municipais. Para críticos desse modelo, porém, o fortalecimento político aconteceu junto com um empobrecimento da qualidade do Legislativo estadual.

A avaliação é de que a Alego passou a aparecer mais politicamente, mas a discutir menos os problemas estruturais de Goiás. O mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé afirma que a Assembleia vive hoje uma crise de identidade. “O desafio do próximo presidente da Alego é tentar desfazer essa imagem que a Assembleia tem de uma grande Câmara Municipal”, declara ao O HOJE.

Segundo o especialista em Políticas Públicas, a Casa se distanciou de temas importantes para o Estado e passou a concentrar energia em ações que dão visibilidade política, como é o caso do programa “Deputados Aqui”, que funciona como grande palanque político para os deputados. “Qual foi o grande debate que a Assembleia sediou nos últimos anos? Qual grande discussão sobre Goiás a Assembleia levantou? Me parece que hoje ela vive uma crise de identidade”, diz.

Na visão do historiador, a atual legislatura criou uma estrutura excessivamente inchada. Para Zancopé, o aumento de cargos e diretorias reduziu a qualidade do ambiente legislativo. “É uma Assembleia que tem excesso de diretorias, excesso de cargos comissionados e que muitas vezes parece mais preocupada em aparecer do que em formular políticas públicas”, critica.

Além disso, Zancopé afirma ainda que a gestão de Bruno Peixoto deu à Assembleia uma característica de campanha permanente. “A sensação é que a Assembleia nunca deixou de estar em campanha durante toda a gestão de Bruno Peixoto”, afirma.

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Segundo o especialista, a busca por espaço político e presença na imprensa acabou por ficar acima da função institucional do Parlamento. “Parece que a Assembleia confundiu estar presente com estar na mídia”, avalia.

Outro ponto levantado pelo especialista é a aproximação do Legislativo goiano com a política municipal, o que não é de todo ruim. A Casa legisla para todo o Estado. No entanto, para Zancopé, em alguns momentos, a Alego passou a atuar em áreas que deveriam ser responsabilidade das Câmaras Municipais. “Ela tentou assumir para si um papel que é das próprias Câmaras Municipais. E esse não é o papel da Assembleia”, afirma.

Credibilidade

O especialista em Marketing Político e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Felipe Fulquim, também avalia que a próxima legislatura precisará recuperar a credibilidade da Casa. Segundo Fulquim, o problema do excesso de cargos não começou agora, mas ficou mais evidente nos últimos anos. “Essa questão dos cargos comissionados e assessorias faz parte do jogo político em Goiás há muito tempo”, afirma.

Mesmo assim, Fulquim diz que a sociedade espera mudanças na próxima gestão da Assembleia. “O que o eleitor e o contribuinte esperam é uma gestão austera, comprometida com a economia dos recursos públicos. Uma gestão que não enxergue o Legislativo como cabide de empregos”, defende.

Para o mestre em Comunicação, a Alego precisa voltar a priorizar sua função constitucional. “O Legislativo precisa exercer sua função essencial, que é ser uma casa de leis”, afirma.

Postura dos deputados

Fulquim também defende uma mudança de postura dos próprios deputados estaduais. “Espero avanços não apenas na presidência da Assembleia, mas também na postura dos parlamentares, com mais decoro nas palavras e nas atitudes”, diz. 

Na última semana, por exemplo, os deputados do PL Major Araújo e Amauri Ribeiro perderam a linha e trocaram ofensas publicamente, o que gerou repercussão negativa sobre o comportamento parlamentar na Casa. (Especial para O HOJE)

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