Operação Pacto Oculto

Esquema de propinas e fraudes trabalhistas na Comurg pode ter desviado R$ 13 milhões

Polícia Civil investiga servidores e ex-servidores suspeitos de acelerar acordos extrajudiciais irregulares em troca de até 60% dos valores pagos

Anna Salgadopor em
Comurg
Megaoperação da Polícia Civil apreendeu documentos, computadores e celulares para aprofundar as investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes administrativas dentro da Comurg Foto: Divulgação/PC-GO

Uma megaoperação deflagrada pela Polícia Civil de Goiás na manhã desta quinta-feira (21) revelou um sofisticado esquema de corrupção e fraudes trabalhistas dentro da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg). Batizada de Operação Pacto Oculto, a ação tem como alvo servidores e ex-servidores suspeitos de facilitar acordos extrajudiciais irregulares em troca de propinas que chegavam a 60% do valor recebido pelos beneficiários. Segundo as investigações conduzidas pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Dercap), o prejuízo aos cofres públicos municipais é estimado em R$ 13 milhões.

De acordo com a Polícia Civil, o esquema teria funcionado entre 2022 e 2024 de maneira articulada entre funcionários que pleiteavam revisões salariais e operadores internos da companhia. As fraudes começavam quando empregados da Comurg protocolavam pedidos administrativos alegando, na maioria dos casos, desvio de função.

Para garantir tramitação prioritária aos processos, servidores ligados a setores estratégicos, como o protocolo e o departamento jurídico, atuavam para acelerar os pagamentos em “velocidade recorde”. Conforme a investigação, os acordos eram aprovados sem as autorizações oficiais necessárias e, frequentemente, sem documentos que comprovassem o direito dos trabalhadores aos valores solicitados.

O ponto central da investigação é o chamado “pacto oculto”. Em troca da facilitação e da rápida liberação dos recursos, os servidores beneficiados precisavam devolver cerca de 60% do montante recebido aos articuladores do esquema. Até o momento, a Polícia Civil identificou pelo menos 35 acordos extrajudiciais sob suspeita.

A operação mobilizou 105 policiais civis e contou com o acompanhamento de três representantes da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Goiás (OAB-GO). Ao todo, foram cumpridos 55 mandados judiciais em Goiânia, Aparecida de Goiânia e Trindade. O balanço da ação inclui três prisões temporárias de ex-servidores, 19 mandados de busca e apreensão em residências e escritórios, 16 afastamentos de funções públicas de servidores ainda na ativa, 17 quebras de sigilo bancário e fiscal para rastrear o caminho do dinheiro, além do bloqueio e sequestro de R$ 3,5 milhões em bens e valores dos investigados.

Durante as buscas, os policiais apreenderam celulares, computadores e documentos físicos, que passarão por perícia para identificar a extensão total do prejuízo e possíveis novos integrantes da associação criminosa.

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Um dos pontos destacados pelo delegado Ivaldo Gomes, responsável pelo caso, é a suspeita de tentativa de interferência nas investigações. Após o início das apurações internas, beneficiários do esquema teriam sido procurados por operadores da fraude para apresentar uma versão unificada dos fatos à polícia, numa tentativa de manter uma “unicidade da defesa”. A possível manipulação de depoimentos também passou a ser investigada pela Dercap.

Em nota oficial, a atual gestão da Comurg afirmou que as irregularidades são referentes a administrações anteriores. Segundo a companhia, as investigações internas foram determinadas pelo prefeito Sandro Mabel e iniciadas em janeiro de 2025. A própria Comurg informou ter encaminhado à Polícia Civil, ao Ministério Público de Goiás (MP-GO) e à OAB-GO indícios de pagamentos considerados desproporcionais e realizados fora dos fluxos regulares.

As equipes técnicas da companhia também identificaram evidências de supressão de registros processuais físicos e digitais, numa tentativa de apagar vestígios da fraude. Parte dessas informações, segundo a empresa, foi recuperada por meio de rastreamentos tecnológicos internos.

Como resultado das 39 apurações administrativas instauradas pela atual gestão, 11 empregados já foram demitidos após a comprovação de irregularidades de conduta em Processos Administrativos Disciplinares (PADs). A Comurg reiterou o compromisso com a transparência e afirmou que segue colaborando integralmente com os órgãos de controle.

Os investigados na Operação Pacto Oculto poderão responder por crimes como peculato, falsidade ideológica, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

A Polícia Civil destacou ainda que a situação dos 35 servidores beneficiados financeiramente pelo esquema e que aceitaram repassar os 60% é considerada “delicada”. Segundo a corporação, cada caso será analisado individualmente para verificar o grau de participação e a responsabilidade criminal de cada envolvido. As investigações seguem em andamento para apurar se o valor desviado pode ultrapassar os R$ 13 milhões inicialmente estimados.

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