domingo, 23 de agosto de 2026
Operação Pacto Oculto

Esquema de propinas e fraudes trabalhistas na Comurg pode ter desviado R$ 13 milhões

Polícia Civil investiga servidores e ex-servidores suspeitos de acelerar acordos extrajudiciais irregulares em troca de até 60% dos valores pagos

Anna Salgadopor Anna Salgado em
Comurg
Megaoperação da Polícia Civil apreendeu documentos, computadores e celulares para aprofundar as investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes administrativas dentro da Comurg Foto: Divulgação/PC-GO

Uma megaoperação deflagrada pela Polícia Civil de Goiás na manhã desta quinta-feira (21) revelou um sofisticado esquema de corrupção e fraudes trabalhistas dentro da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg). Batizada de Operação Pacto Oculto, a ação tem como alvo servidores e ex-servidores suspeitos de facilitar acordos extrajudiciais irregulares em troca de propinas que chegavam a 60% do valor recebido pelos beneficiários. Segundo as investigações conduzidas pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Dercap), o prejuízo aos cofres públicos municipais é estimado em R$ 13 milhões.

De acordo com a Polícia Civil, o esquema teria funcionado entre 2022 e 2024 de maneira articulada entre funcionários que pleiteavam revisões salariais e operadores internos da companhia. As fraudes começavam quando empregados da Comurg protocolavam pedidos administrativos alegando, na maioria dos casos, desvio de função.

Para garantir tramitação prioritária aos processos, servidores ligados a setores estratégicos, como o protocolo e o departamento jurídico, atuavam para acelerar os pagamentos em “velocidade recorde”. Conforme a investigação, os acordos eram aprovados sem as autorizações oficiais necessárias e, frequentemente, sem documentos que comprovassem o direito dos trabalhadores aos valores solicitados.

O ponto central da investigação é o chamado “pacto oculto”. Em troca da facilitação e da rápida liberação dos recursos, os servidores beneficiados precisavam devolver cerca de 60% do montante recebido aos articuladores do esquema. Até o momento, a Polícia Civil identificou pelo menos 35 acordos extrajudiciais sob suspeita.

A operação mobilizou 105 policiais civis e contou com o acompanhamento de três representantes da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Goiás (OAB-GO). Ao todo, foram cumpridos 55 mandados judiciais em Goiânia, Aparecida de Goiânia e Trindade. O balanço da ação inclui três prisões temporárias de ex-servidores, 19 mandados de busca e apreensão em residências e escritórios, 16 afastamentos de funções públicas de servidores ainda na ativa, 17 quebras de sigilo bancário e fiscal para rastrear o caminho do dinheiro, além do bloqueio e sequestro de R$ 3,5 milhões em bens e valores dos investigados.

Durante as buscas, os policiais apreenderam celulares, computadores e documentos físicos, que passarão por perícia para identificar a extensão total do prejuízo e possíveis novos integrantes da associação criminosa.

Leia mais:Empresário é preso suspeito de incendiar garagem de veículos em Goiânia

Um dos pontos destacados pelo delegado Ivaldo Gomes, responsável pelo caso, é a suspeita de tentativa de interferência nas investigações. Após o início das apurações internas, beneficiários do esquema teriam sido procurados por operadores da fraude para apresentar uma versão unificada dos fatos à polícia, numa tentativa de manter uma “unicidade da defesa”. A possível manipulação de depoimentos também passou a ser investigada pela Dercap.

Em nota oficial, a atual gestão da Comurg afirmou que as irregularidades são referentes a administrações anteriores. Segundo a companhia, as investigações internas foram determinadas pelo prefeito Sandro Mabel e iniciadas em janeiro de 2025. A própria Comurg informou ter encaminhado à Polícia Civil, ao Ministério Público de Goiás (MP-GO) e à OAB-GO indícios de pagamentos considerados desproporcionais e realizados fora dos fluxos regulares.

As equipes técnicas da companhia também identificaram evidências de supressão de registros processuais físicos e digitais, numa tentativa de apagar vestígios da fraude. Parte dessas informações, segundo a empresa, foi recuperada por meio de rastreamentos tecnológicos internos.

Como resultado das 39 apurações administrativas instauradas pela atual gestão, 11 empregados já foram demitidos após a comprovação de irregularidades de conduta em Processos Administrativos Disciplinares (PADs). A Comurg reiterou o compromisso com a transparência e afirmou que segue colaborando integralmente com os órgãos de controle.

Os investigados na Operação Pacto Oculto poderão responder por crimes como peculato, falsidade ideológica, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

A Polícia Civil destacou ainda que a situação dos 35 servidores beneficiados financeiramente pelo esquema e que aceitaram repassar os 60% é considerada “delicada”. Segundo a corporação, cada caso será analisado individualmente para verificar o grau de participação e a responsabilidade criminal de cada envolvido. As investigações seguem em andamento para apurar se o valor desviado pode ultrapassar os R$ 13 milhões inicialmente estimados.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Pirenópolis

“roleta-russa”

Jovem de 18 anos morre após tiro na cabeça em Pirenópolis (GO)

Vítima estava reunida com amigos em uma casa na Vila Matutina quando foi atingida pelo disparo. Pol...
Goiás

Fórum

Goiás reúne municípios para definir regras para uso de IA no setor público

Fórum realizado em Goiânia reuniu gestores e especialistas para discutir segurança de dados, qual...
Justiça de Goiás decreta prisão preventiva de suspeito de manter ex em cativeiro

Justiça

Justiça de Goiás decreta prisão preventiva de suspeito de manter ex em cativeiro

Ailton Rodrigues de Souza é acusado de manter a ex-esposa presa e acorrentada por cinco dias em uma...
Jovem

MOMENTOS DE TERROR

“Ele enfiava panos com ácido na minha boca”, relata jovem mantida em cativeiro em Goiás

Após passar cinco dias acorrentada e amordaçada, Emiliane Tamara apareceu nas redes sociais, mostr...
Incêndio destrói ônibus na BR-364, no interior de Goiás

Acidente

Incêndio destrói ônibus na BR-364, no interior de Goiás

Veículo pegou fogo na zona rural de Mineiros, no sudoeste do Estado; passageiros conseguiram deixar...
suspeita anel

furto

Diarista é presa suspeita de furtar joias de R$ 6 mil durante teste em Goiânia

Câmeras registraram furto no Setor Marista; suspeita disse à polícia que considerou baixo o valor...
Operação apreende 58 kg de drogas na divisa entre GO e MT

Ação Conjunta

Operação apreende 58 kg de drogas na divisa entre GO e MT

Ação conjunta entre forças policiais localizou 29 kg de cocaína e 29 kg de skunk escondidos em u...
Justiça derruba norma que permitia harmonização orofacial por dentistas

Decisão

Justiça derruba norma que permitia harmonização orofacial por dentistas

Decisão do TRF1 anulou resolução do Conselho Federal de Odontologia, mas ainda cabe recurso e a m...