segunda-feira, 22 de junho de 2026
Relacionamentos

Sexo agendado: por que cada vez mais casais marcam horário para a intimidade

Terapeuta explica que o problema não está em colocar a vida íntima na agenda, mas em esperar que o desejo se mantenha sozinho em relações longas

Luana Avelarpor Luana Avelar em 1 de junho de 2026
Sexo

Quando a atriz Marianna Armellini comentou que ela e o marido passaram a marcar horário para namorar, muita gente reagiu com estranhamento. Para alguns, a fala parecia burocratizar o afeto. Para outros, revelava maturidade emocional. Meses antes, Mônica Martelli já havia provocado discussão parecida ao defender a ideia de reservar espaço na rotina para a vida íntima.

Para especialistas em relacionamento, porém, o debate pode estar sendo feito da maneira errada. Segundo a terapeuta familiar Aline Cantarelli, especializada em relacionamentos conjugais e reconstrução de vínculos familiares, o problema não está em colocar a intimidade na agenda. O problema está em acreditar que relações longas conseguem manter conexão e desejo sem intenção e manutenção.

“As pessoas ainda carregam uma fantasia de que o desejo em relações longas vai continuar funcionando sozinho, espontaneamente, como no início. Só que a vida adulta real não funciona assim”, afirma.

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O afastamento 

Trabalho, filhos, cansaço, excesso de telas e sobrecarga mental empurram a intimidade para o fim da lista de prioridades. O processo raramente é abrupto. “O casal vai se acostumando a não ter um tempo de intimidade real. E eu não estou falando só de companhia ou parceria. Estou falando de sexo mesmo. Quando isso desaparece por muito tempo, os dois deixam de funcionar como casal e passam a funcionar quase como amigos que dividem rotina, boletos e responsabilidades”, diz.

A terapeuta relata atender casais que chegam há um ano sem fazer sexo. “As pessoas vão esperando o momento ideal. O descanso ideal. A semana ideal. E aí passam meses. Às vezes anos.”

Sexo também é hábito

Para Aline, parte da dificuldade vem do fato de que muita gente ainda evita falar abertamente sobre sexo dentro do próprio relacionamento. “É como um elefante na sala. Todo mundo sabe que existe um problema, mas ninguém toca no assunto.”

Ela usa uma comparação direta para explicar o fenômeno. “Sexo também é hábito. Qualquer hábito que você não alimenta desaparece. É parecido com atividade física. A pessoa vai deixando para depois, quebra a constância e, quando percebe, aquilo saiu completamente da rotina.”

A atriz Heloísa Périssé foi além: após ler sobre uma técnica para melhorar a vida a dois, ela e o marido fizeram um acordo e transaram por 100 dias seguidos. Segundo ela, com o tempo a criatividade fluiu naturalmente.

O mito da paixão eterna

A repercussão das falas das atrizes também reacendeu outro debate: a diferença entre paixão inicial e vínculo de longo prazo. “A gente romantizou a ideia da paixão constante, daquela montanha-russa emocional o tempo inteiro. Só que ninguém consegue viver assim para sempre. Relações duradouras dependem muito mais de constância do que de intensidade”, afirma Aline.

Para ela, relacionamentos maduros exigem outro tipo de entrega. “Romance maduro tem mais a ver com escolha consciente, parceria, presença e construção diária. Tem a ver com continuar escolhendo aquela pessoa mesmo depois que a fase impulsiva do começo passou.”

Manutenção é mais fácil que reconexão

Segundo a terapeuta, muitos casais só buscam ajuda quando o afastamento já está avançado. “Reconectar um casal é muito mais difícil do que manter a conexão viva ao longo do tempo”, afirma. Por isso, pequenas ações contínuas costumam ser mais eficazes do que esperar grandes reconexões futuras.

“Minha relação precisa caber na agenda. Precisa ocupar espaço dentro da rotina. Porque, se eu não protejo isso, a vida engole”, conclui Aline. “Relacionamentos precisam ser alimentados continuamente. Faça chuva ou faça sol.”

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