quarta-feira, 24 de junho de 2026
desde a infância na Ilha

Série mergulha na vida de Lia de Itamaracá, a maior cirandeira do Brasil

Em seis episódios, produção audiovisual reconstitui a vida de Maria Madalena Correia do Nascimento desde a infância na Ilha até os palcos internacionais

Luana Avelarpor Luana Avelar em 2 de junho de 2026
Lia

A voz de Lia de Itamaracá já atravessou saraus, palcos internacionais, filmes de Kleber Mendonça Filho e rodas de ciranda à beira do mar. Agora, vai ganhar tela em seis episódios. Começa a ser gravada esta semana, na praia de Jaguaribe, em Itamaracá, no litoral norte de Pernambuco, a série “Maria Madalena: Lia de Itamaracá”, produção audiovisual que mistura documentário e ficção para reconstituir a vida de Maria Madalena Correia do Nascimento. A narrativa cobre desde a infância até o reconhecimento como uma das figuras centrais da cultura popular brasileira.

O piloto, com 23 minutos, foi viabilizado com recursos do Funcultura Audiovisual. Após as gravações desta semana, a equipe da Ciranda Produções usará o material para buscar patrocínio e financiar os demais cinco episódios. A série completa terá 138 minutos de duração.

“Eu sempre soube que seria artista. O povo ria de mim quando eu dizia isso ainda menina, porque naquele tempo uma mulher preta, pobre e da Ilha sonhar isso tudo parecia impossível. Mas eu nunca deixei de acreditar na minha voz, na minha ciranda e na minha história”, diz Lia, aos 82 anos.

A Lia antes da Lia

A proposta nasce do desejo da própria artista de registrar o que ela chama de “a Lia antes da Lia”: a mulher anterior à fama, ao título de Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana, aos palcos europeus e às homenagens de escolas de samba. Uma história atravessada por racismo, pobreza e exclusão, mas também pela força de quem transformou a adversidade em permanência.

Cada episódio será guiado por uma música, uma lembrança e um espaço simbólico da Ilha de Itamaracá. A estrutura narrativa combina relatos íntimos da artista, encenações ficcionais com atores e atrizes, imagens de arquivo e performances musicais conduzidas pela própria Lia. Os papéis da cirandeira na infância e no início da vida adulta serão interpretados pela sobrinha Maria Salete, conhecida como Preta, e pela sobrinha-neta Pietra Victória, de apenas 3 anos. As duas foram escolhidas pela própria Lia para dar corpo à sua história mais antiga.

Preta já havia interpretado Dona Matilde, avó e mãe de Lia, no curta “Dorme Pretinho” (2024), baseado em música da cirandeira. O filme circulou por mais de 30 festivais de cinema e conquistou o prêmio de melhor trilha no 15º Festival de Triunfo, em Pernambuco, e de melhor filme no 5º Festival de Cinema Negro em Ação, no Rio Grande do Sul. A escolha das duas para a série reforça a dimensão familiar e afetiva que a produção quer construir em torno da memória da cirandeira.

A ilha

Para o produtor e empresário de Lia há 30 anos, Beto Hees, o diferencial da série está em tratar a Ilha de Itamaracá não como pano de fundo, mas como extensão da própria artista. “O território, marcado pela força da pesca artesanal, pelas tradições populares e também pelo abandono histórico, aparece como extensão da própria artista. A produção constrói um mapa afetivo da vida de Lia, conectando lembranças, paisagens e sons da ilha às memórias narradas pela cantora”, afirma.

A diretora Lia Letícia, que ao longo de dez anos produziu mais de dez minidocs sobre a cirandeira, além de videoclipes e curtas como “Encantada” (2012), situa a série dentro de um registro mais amplo. “Contar a história de Lia é também contar a história de um Brasil profundo, popular e muitas vezes invisibilizado. Quando falamos de Lia, não estamos falando apenas de uma artista consagrada, mas de uma mulher negra, nordestina e periférica que atravessou décadas resistindo através da cultura. A trajetória dela reúne questões de território, ancestralidade, memória, racismo, pertencimento e sobrevivência”, diz.

Seis décadas de carreira

Ao longo de mais de seis décadas, Lia de Itamaracá lançou quatro álbuns, tornou-se Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana e recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. Sua presença no cinema brasileiro inclui participações em filmes de Tizuka Yamasaki, Lírio Ferreira e Kleber Mendonça Filho, entre eles “Bacurau” e “Recife Frio”. Nos últimos anos, participou da feira internacional de música Womex, em Lisboa, foi tema de ocupações culturais em São Paulo e no Recife, e inspirou enredos de escolas de samba como Império da Tijuca e Nenê de Vila Matilde.

Leia mais: “Euphoria” não terá quarta temporada; criador confirma fim da série após sete anos

Em 2024, a cirandeira lançou seu quinto disco, “Pelos Olhos do Mar”, em parceria com a cantora baiana Daúde, pelo SeloSesc. O álbum reúne faixas inéditas e releituras que cruzam a cultura popular pernambucana com bolero, dub e sonoridades urbanas, com composições assinadas por Emicida, Russo Passapusso, Céu, Otto e Chico César. O trabalho chegou às plataformas de streaming e ampliou o alcance da artista sem que ela abrisse mão de um repertório profundamente enraizado na cultura popular do Nordeste.

Aos 82 anos, Lia segue em movimento. E agora transforma a própria vida em narrativa audiovisual, onde memória, território, música e resistência caminham juntos, como numa grande roda de ciranda à beira do mar.

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