segunda-feira, 28 de setembro de 2026
SAÚDE PÚBLICA

Idosos brasileiros envelhecem sem rede de cuidado

Pesquisa da Fiocruz Minas revela que a maioria dos idosos com limitações físicas não conta com nenhuma forma de assistência regular

Luana Avelarpor em
Idosos
Foto: Magnific

Há um momento em que o cotidiano deixa de ser simples. O banho exige esforço, a roupa pesa no corpo, levantar da cama já não é apenas o começo do dia, mas a primeira prova de resistência. Para milhões de brasileiros idosos, a velhice não chega apenas com marcas do tempo. Chega também com obstáculos silenciosos, muitas vezes dentro da própria casa, onde tarefas básicas de autocuidado passam a depender de força, equilíbrio, memória, presença e, sobretudo, de ajuda. O problema é que, para a maioria, essa ajuda não vem.

Uma pesquisa nacional da Fiocruz Minas mostra que 20,4% dos brasileiros com 60 anos ou mais, o equivalente a cerca de 6,5 milhões de pessoas, enfrentam dificuldade para realizar ao menos uma atividade básica de autocuidado. O dado integra o Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros, o ELSI-Brasil, conduzido em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais. Em sua terceira onda, o levantamento revela uma realidade pouco visível nas estatísticas do cotidiano: entre os idosos com limitações funcionais, apenas 37,9% recebem assistência regular.

Na prática, isso significa que a maior parte dessa população segue tentando dar conta sozinha de atividades que, quando faltam força ou mobilidade, deixam de ser automáticas. O envelhecimento, nesses casos, não se resume à passagem dos anos. Ele passa a ser medido pela distância entre a cama e o banheiro, pelo risco de uma queda, pela ausência de alguém por perto.

Idosos: quanto mais idade, maior a vulnerabilidade

A pesquisa mostra que o problema se aprofunda com o avanço da idade. Entre pessoas de 60 a 69 anos, 13,9% relatam alguma limitação funcional. A partir dos 80 anos, esse percentual chega a 44,2%. As mulheres aparecem de forma mais acentuada no levantamento: 23,1% delas afirmaram enfrentar dificuldades, contra 17% dos homens.

Mesmo quando há cuidador, o cuidado nem sempre vem acompanhado de preparo. Apenas 5,8% dos cuidadores disseram ter recebido algum tipo de treinamento. São, em geral, filhos, cônjuges e parentes que assumem a responsabilidade sem orientação técnica, sem apoio contínuo e, muitas vezes, sem reconhecimento. O que deveria ser uma rede estruturada de cuidado acaba se tornando uma solução improvisada dentro das famílias.

A cidade também limita

As barreiras não estão apenas dentro de casa. Quase metade dos idosos que vivem em áreas urbanas, 42,7%, afirma ter medo de cair por causa de buracos, calçadas deterioradas ou vias em mau estado perto de onde mora. Entre os octogenários, o índice sobe para 63,1%. Outros 12,1% descrevem a vizinhança como muito insegura em relação à violência.

leia mais: O que o ambiente da sua casa revela sobre sinais silenciosos de estresse e ansiedade

O medo de sair de casa muda a rotina, reduz deslocamentos, dificulta consultas médicas e empobrece a convivência. Quando a rua se torna ameaça, a velhice perde autonomia e ganha isolamento. A calçada quebrada, nesse contexto, deixa de ser apenas um problema urbano. Torna-se uma questão de saúde pública.

O levantamento também chama atenção para doenças crônicas. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, 34,4% apresentam níveis compatíveis com hipertensão arterial, o equivalente a cerca de 11 milhões de pessoas expostas a riscos como infarto, derrame e insuficiência renal. Sem acompanhamento regular, o que poderia ser controlado passa a ameaçar a vida.

O SUS como principal apoio

Diante desse quadro, o Sistema Único de Saúde permanece como a principal rede de proteção. Cerca de dois terços dos brasileiros idosos dependem exclusivamente da rede pública para atendimento médico. Desse grupo, 69,2% estão vinculados à Estratégia Saúde da Família.

O Brasil já tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e esse número deve crescer nas próximas décadas. O que o ELSI-Brasil evidencia não é apenas uma crise de saúde, mas de planejamento. Viver mais, por si só, não garante envelhecer bem. Para milhões de brasileiros, a velhice ainda chega antes da rede de apoio, da cidade acessível e do cuidado necessário para atravessar os dias com dignidade.

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