sexta-feira, 19 de junho de 2026
FALSO DOUTOR

Falso médico com 209 mil seguidores é preso após investigação por lesão grave em paciente de Goiânia

Investigado se apresentava como especialista em harmonização de glúteos e seios, vendia cursos de até R$ 13 mil e construiu autoridade nas redes sociais mesmo sem formação médica

Thais Munizpor Thais Muniz em 19 de junho de 2026
médico
Sebastião Rodrigues da Silva Júnior, conhecido nas redes como Dr. Junior Rodrigues foi preso em Goiás - Foto: Reprodução / PCGO

Um homem que acumulava mais de 200 mil seguidores nas redes sociais e se apresentava como médico especialista em procedimentos estéticos foi preso pela Polícia Civil de Goiás (PCGO) sob suspeita de exercício ilegal da medicina e lesão corporal grave. A prisão de Sebastião Rodrigues da Silva Júnior, conhecido nas redes como Dr. Junior Rodrigues, lança luz sobre o crescimento de profissionais que utilizam plataformas digitais para vender autoridade, cursos e procedimentos de alto valor sem, segundo as investigações, possuir habilitação legal para atuar como médico.

A prisão foi realizada pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Consumidor (Decon), com apoio da Polícia Federal em Guarulhos (SP), no momento em que o investigado tentava embarcar para Foz do Iguaçu (PR), cidade onde mantém clínica e onde ministraria mais um curso na área da estética.

Segundo a investigação, Sebastião utilizava as redes sociais para promover procedimentos invasivos, especialmente harmonização de glúteos e de seios, além de comercializar cursos chamados de “residências” em estética. Nas plataformas digitais, construía uma imagem de autoridade técnica ao afirmar possuir formação médica no exterior e ampla experiência no setor.

Autoridade digital e promessa de enriquecimento

Com 209 mil seguidores no Instagram, mais de mil publicações e forte presença digital, o investigado vendia não apenas procedimentos estéticos, mas também um modelo de ascensão profissional voltado a médicos, biomédicos e outros profissionais da saúde.

Em vídeos promocionais, o discurso era centrado em promessas de crescimento financeiro acelerado e mudança de padrão de vida. Em uma das gravações divulgadas nas redes, o investigado afirmava: “Existe uma área que está explodindo no Brasil e profissionais como você estão saindo do ciclo de plantão eterno para construir uma carreira de alto padrão.”

Em outro trecho, Sebastião reforça a promessa de valorização profissional e ganhos financeiros ao dizer que “os profissionais que dominam essa técnica param de disputar preços e são vistos como referência.”

A estratégia de comunicação apostava em gatilhos comuns no marketing de cursos premium: insatisfação com a formação tradicional, promessa de alta rentabilidade e a ideia de exclusividade em um mercado em expansão. O discurso também explorava o cansaço de profissionais submetidos a longos plantões, sugerindo que a estética representaria um caminho mais lucrativo e previsível.

As investigações apontam que os cursos oferecidos chegavam a custar cerca de R$ 13 mil por aluno, com nova turma prevista para Goiânia nos dias 27 e 28 de junho.

Leia também:


O que a polícia descobriu

Apesar da imagem construída nas redes, a Polícia Civil afirma que Sebastião não possui formação médica. Segundo a investigação, o preso é enfermeiro de profissão e teve o registro profissional cassado em fevereiro de 2025.

Documentos obtidos pela reportagem mostram que os questionamentos sobre a atuação do investigado são anteriores à prisão. Uma portaria do Conselho Regional de Enfermagem do Paraná (Coren-PR), publicada em maio de 2024, determinou fiscalização contra Sebastião após demanda encaminhada pelo Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), em Foz do Iguaçu.

O documento indica que órgãos de fiscalização já acompanhavam a atuação do investigado meses antes da operação conduzida pela Polícia Civil de Goiás.

De acordo com a corporação, informações sobre a ausência de formação médica e sobre a situação profissional do investigado não apareciam nos materiais promocionais nem em seus perfis digitais.

Durante a apuração, a Decon também identificou suspeita de lesão corporal grave contra uma paciente em Goiânia, caso que se tornou um dos principais elementos da investigação criminal.

Outro ponto que chamou atenção dos investigadores foi a continuidade da divulgação comercial mesmo após a prisão. Segundo a polícia, perfis e anúncios seguiram promovendo cursos como se nada tivesse ocorrido.

A divulgação da identidade do investigado foi autorizada pela autoridade policial com o objetivo de possibilitar o surgimento de novas vítimas ou testemunhas que possam colaborar com o inquérito.

O caso levanta o debate sobre a fiscalização de procedimentos estéticos de alto risco e sobre o papel das redes sociais na construção de credibilidade profissional. A investigação busca agora identificar se há outras vítimas e qual a dimensão da atuação do suspeito em Goiás e em outros estados.

Procurado pela reportagem do O Hoje para comentar a fiscalização citada na portaria e eventuais denúncias relacionadas ao caso, o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) não respondeu até o fechamento desta reportagem.

Siga o Canal do Jornal O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do Jornal O Hoje.
Tags:
Veja também