Avanços no combate ao HIV evidenciam desafios persistentes em Goiás
Enquanto a Conferência Internacional de Aids (Aids 2026) apresenta novas terapias e métodos de prevenção, Estado registra 29.503 pessoas que vivem com HIV/Aids
Enquanto a comunidade científica internacional anuncia novos avanços no tratamento e na prevenção do HIV durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro, Goiás registra 29.503 pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA) e enfrenta desafios relacionados ao acesso ao tratamento, ao acompanhamento dos pacientes e à manutenção da rede especializada de atendimento. Dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) apontam transmissão ainda ativa, especialmente entre jovens, e interrupções no cuidado de parte da população diagnosticada.
De acordo com o Boletim Epidemiológico da SES-GO, que analisou o período de 2015 a 2025, o Estado acumulou 25.100 casos de infecção pelo HIV e Aids em adultos, sendo 18.654 novos diagnósticos de HIV e 6.446 casos que evoluíram para Aids. A Região de Saúde Central, onde está Goiânia, concentra o maior volume de registros, com mais de 10 mil casos identificados nos mapas epidemiológicos.
O perfil dos diagnósticos acompanha a tendência nacional. Cerca de 80% dos casos anuais ocorrem entre pessoas do sexo masculino, com maior incidência entre pessoas pardas e na faixa etária de 20 a 39 anos, especialmente entre 20 e 29 anos.
O coeficiente de mortalidade por Aids em Goiás caiu de 5,0 óbitos por 100 mil habitantes em 2015 para 3,7 em 2024. Apesar da redução, a transmissão sexual permanece elevada, associada principalmente a relações sem preservativo.
Mesmo com a oferta gratuita de tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Estado enfrenta dificuldades para manter pacientes em acompanhamento. Segundo o boletim epidemiológico, 95% das pessoas diagnosticadas estão vinculadas a algum serviço de saúde, mas cerca de 15% desse grupo não está em terapia antirretroviral (TARV), seja por não ter iniciado o tratamento ou por abandono do seguimento. Outros 5% não possuem vínculo com nenhum serviço de saúde.
Dados de 2025
Em 2025, Goiás registrou 1.058 pessoas com Aids avançada, caracterizada por contagem de células CD4 abaixo de 200/mm³, condição que aumenta a vulnerabilidade a infecções oportunistas. A ausência de tratamento também mantém a cadeia de transmissão ativa, uma vez que apenas pessoas com carga viral indetectável alcançam o status de Indetectável = Intransmissível (I=I), deixando de transmitir o vírus por via sexual.
Na Capital, a rede de atendimento passou por mudanças após o fechamento do Centro de Referência em Diagnóstico e Terapêutica (CRDT), unidade especializada em infecções sexualmente transmissíveis. O serviço foi desmobilizado devido a uma dívida acumulada de R$ 1,7 milhão.
As atividades foram transferidas para o Centro de Saúde Cidade Jardim, que passou a sediar o Serviço de Atendimento Especializado (SAE) e o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA). A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) afirma que a capacidade de atendimento foi mantida, enquanto usuários e parlamentares relatam problemas no funcionamento da rede.
Durante a AIDS 2026, especialistas também destacaram obstáculos estruturais que afetam o enfrentamento da epidemia no Brasil. Beatriz Grinsztejn, presidente da Sociedade Internacional de Aids, afirmou que barreiras como racismo, homofobia, transfobia e pobreza dificultam o acesso equitativo às inovações em prevenção e tratamento. Dados nacionais indicam que cerca de 30% das pessoas recebem o diagnóstico de HIV tardiamente, muitas vezes já com sintomas graves.
Relatos de pacientes também apontam episódios de discriminação em ambientes profissionais e familiares, além do receio do julgamento social, fatores associados ao adiamento da busca por atendimento médico.
Dificuldades adicionais no interior
Nos municípios do interior de Goiás, especialistas apontam dificuldades adicionais, como escassez de médicos familiarizados com estratégias recentes de prevenção, entre elas a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), e menor oferta de pontos de testagem.
No cenário internacional, a conferência no Rio de Janeiro apresentou dois novos casos de remissão do HIV após transplantes de células-tronco, elevando para 13 o número de pessoas consideradas funcionalmente curadas no mundo. Os transplantes, realizados em pacientes com câncer, continuam sendo procedimentos de alto risco, mas fornecem informações relevantes para pesquisas sobre terapias genéticas.
Na área de prevenção, o Ministério da Saúde anunciou a compra do cabotegravir injetável, método de longa duração aplicado a cada dois meses e com previsão de incorporação ao SUS ainda em 2026. A Fiocruz também firmou acordo para produção nacional do Alimatravir (MK-8527), comprimido de uso mensal para prevenção do HIV.
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