segunda-feira, 22 de junho de 2026
OPINIÃO

Investir em ciência pode evitar perda de mais uma geração

Candidatos não têm a mínima dó de um povo cujo futuro vem sendo estragado pela mesmice fruto de populismo com síndrome de vira-lata

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 22 de junho de 2026
Investir em ciência pode evitar perda de mais uma geração
As gerações são contadas a cada 25 anos. De 2001 a 2025, portanto, foi mais que 1/4 de século perdido, foi o prenúncio de que começamos mal o milênio. No Brasil de modo geral, e Goiás em particular, não há qualquer projeto público ou privado de aproveitamento de cérebros - Foto: Divulgação/Secom-GO

As gerações são contadas a cada 25 anos. De 2001 a 2025, portanto, foi mais que 1/4 de século perdido, foi o prenúncio de que começamos mal o milênio. No Brasil de modo geral, e Goiás em particular, não há qualquer projeto público ou privado de aproveitamento de cérebros. Com 2026 também voando para o nada, seria o caso de ao menos se eleger uma turma que vá investir na ciência para salvar a geração que vem aí. É a hora de cobrar um direito fundamental, o de viver num país que presta.

Nos Estados Unidos, os jovens se socorrem internamente, assim como os de parte do restante do mundo sonham ir para lá. No Brasil, não há para onde correr, pois a solidão das mentes é generalizada. Calma que piora. O desempenho das universidades brasileiras está em declínio, mesmo considerando os cursos de humanas, a maioria. Em território, o Brasil é o 5° do mundo; em população, o 7°; no ensino de saúde, 81°, com a Universidade de São Paulo, a estadual USP, no The New World University Rankings by Subject 2026.

Outro índice internacional coloca a USP em 119° lugar

Calma que piora mais ainda. Outro índice internacional divulgado neste ano, CWUR, Center for World University Ranking, coloca a USP em 119° lugar. E descendo. Das trocentas instituições de ensino superior do Brasil, apenas 52 entraram na lista e 45 estão em queda livre.

Calma que o pior é mais próximo. Se a USP precisa dos cursos de humanas para se apresentar com alguma dignidade, corta para outra universidade estadual, a de Goiás. O governo chegou a abrir 50 unidades da UEG, mas se concentrou em ensinar história, pedagogia e assemelhados. Quem daria aula nessa imensidão de faculdades? Foi um festival de professores universitários de baixíssimo nível formando profissionais que não têm culpa do analfabetismo diplomado.

No finalzinho do século XX e estas duas décadas e meia do XXI, o quadro foi dantesco. Agora, o espanto: nunca o Estado foi tão bom em educação superior, mesmo inferior até parar. Sabe por que os pré-candidatos a governador estão pouco se lixando para isso? Porque o eleitorado também está nem aí. O nível da formação profissional não aparece espontaneamente sequer entre as 30 maiores preocupações dos goianos. Trata-se da síndrome de vira-lata, formulada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues.

Um misto de populismo que desperta nas pessoas o que pode haver de pior

O goiano simplesmente acha que governo é isso aí que tem havido, um misto de populismo que desperta nas pessoas o que pode haver de pior, esperar o Estado-mãe resolver suas necessidades básicas. Há quem considere que universidade é a UEG. Que programa bom é o Bolsa Família ou o Goiás Social. E não se trata da fatia da população que está no Cadastro Único, o rol dos vulneráveis de verdade levados na barriga pela mentira.

Semanas atrás, o então governador Ronaldo Caiado (PSD) concluiu a ligação por asfalto entre Pilar e Guarinos e de Novo Planalto a Bonópolis. Pode ficar estarrecido: até há poucos dias, o Estado das maravilhas ainda tinha sedes de municípios cujas fronteiras eram acessadas na poeira e na lama. Como pode progredir com um escoamento em estrada de chão? Não há orçamento, público ou privado, que se sustente num anacronismo viário como o goiano.

Em vez de progredir, faleceu

O sistema de ferrovias, que bombou no século XIX no restante do mundo, chegou por aqui no início do XX e morreu. Em vez de progredir, faleceu. Voltou com a Norte-Sul, que demorou de José Sarney a Jair Bolsonaro para ficar pronta e agora ninguém quer, pois é só uma linha de trilhos e de bitola diferente de sua congênere, a Centro-Atlântica. Elas se cruzam em Anápolis e, ainda assim, seus clientes ali são raros.

Diante de tantos exemplos de burrice, algum desavisado de fora pode imaginar que estamos numa terra de burros. Nada contra os muares, mas somos um povo inteligente, porém, apenas a natural, já que as verbas públicas são iguais a Ozempic, aplicadas na barriga, não na mente. Ao contrário do que se supõe, o goiano é um povo inteligente, que gerou um Bernardo Élis, duas capitais planejadas, Goiânia e Brasília, mas tem se contentado com políticos que existem para o próximo mandato, não para o próspero desenvolvimento.

A área rural de Goiás é, ao lado da farmacêutica, um primor de tecnologia

O deserto de criatividade não se deve a inanição cerebral, mas a alheamento puro e simples. O futuro vem sendo arruinado pela pasmaceira, como nas ilustrações de Jeca Tatu dos livros de Monteiro Lobato. O caipira com um palheiro na boca, morrendo de preguiça. A realidade é outra: a área rural de Goiás é, ao lado da farmacêutica, um primor de tecnologia. E os dois ramos estão livres do poder público. Se dependesse dele, Goiás ainda estaria sendo tratado por curandeiros e sobrevivendo na monocultura.

Goiás trata mal seus cérebros, daí o deserto de realizações científicas. Se gastasse em laboratórios o que torra em shows de semicelebridades ou em organizações sociais de picaretas, já teríamos um Prêmio Nobel de pé rachado. (Especial para O HOJE)

 

 

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