terça-feira, 23 de junho de 2026
COMBUSTÍVEL

Mais etanol, gasolina mais barata? Setor em Goiás vê promessa com desconfiança

Nova regra entra em vigor nesta quarta-feira (24) e pode reduzir dependência de gasolina importada; Goiás está entre os estados que mais devem se beneficiar com avanço do biocombustível

Luma Silveirapor Luma Silveira em 23 de junho de 2026
Nova composição da gasolina entra em vigor nesta quarta-feira (24), com aumento da mistura de etanol de 30% para 32%
Nova composição da gasolina entra em vigor nesta quarta-feira (24), com aumento da mistura de etanol de 30% para 32% | Foto: Canva

Gasolina mais barata ou apenas uma mudança técnica com pouco efeito no bolso? Essa é a dúvida que acompanha a decisão do governo federal de elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, medida que entra em vigor nesta quarta-feira (24) em todo o país.

Apresentada pelo Planalto como uma estratégia para reduzir a dependência de combustíveis importados, estimular o agronegócio e ampliar o uso de energia renovável, a mudança divide opiniões no setor de combustíveis. Enquanto o governo sustenta que a nova composição pode aliviar os preços nas bombas e reduzir emissões de poluentes, representantes da revenda em Goiás afirmam que o impacto positivo para o consumidor ainda é incerto.

O vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu a medida ao afirmar que o aumento da participação do biocombustível fortalece a economia nacional e melhora a eficiência energética. Segundo estimativas do governo federal, a mudança poderá reduzir em até 500 milhões de litros por mês a necessidade de importação de gasolina, aproximando o Brasil da autossuficiência no abastecimento.

Em Goiás, no entanto, o discurso oficial é recebido com cautela. Para o presidente do Sindiposto Goiás, Márcio Andrade, o histórico recente não sustenta a expectativa de queda nos preços.

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Segundo ele, quando a mistura obrigatória foi ampliada anteriormente, passando de 27,5% para 30%, a redução prometida ao consumidor não se concretizou. Isso ocorreu, de acordo com o setor, porque o preço do etanol anidro subiu com o aumento da demanda e as distribuidoras não repassaram eventual ganho de custo aos postos.

“Da última vez, essa redução simplesmente não aconteceu. Se não houver repasse da distribuidora para o posto, o consumidor não vai perceber diferença nenhuma na bomba”, afirma Márcio.

Além da discussão sobre preços, revendedores também demonstram preocupação com os efeitos técnicos da nova composição. O principal alerta envolve veículos que operam exclusivamente com gasolina, especialmente modelos antigos, carros importados e grande parte das motocicletas.

Segundo Márcio Andrade, o aumento da concentração de etanol pode gerar mais reclamações relacionadas ao funcionamento dos motores, colocando os postos na linha de frente da insatisfação dos consumidores.

“O receio é de mau funcionamento em veículos não preparados para percentuais maiores de etanol. Quando isso acontece, o primeiro lugar onde o cliente vai reclamar é no posto”, explica.

Outro ponto levantado pelo setor está ligado ao rendimento. Embora o etanol costume ter custo inferior ao da gasolina, ele também apresenta menor densidade energética, o que significa que o combustível tende a render menos por litro.

Na prática, isso pode criar um paradoxo: mesmo que o preço unitário da gasolina recue, o motorista pode precisar abastecer com maior frequência.

“Mesmo que o litro fique mais barato, o consumo tende a aumentar. No fim, o barato pode sair caro”, resume o presidente do Sindiposto.

Se do ponto de vista do consumidor persistem dúvidas, para a cadeia produtiva goiana o cenário é mais favorável. Goiás ocupa posição estratégica na produção nacional de etanol e deve estar entre os estados mais beneficiados pelo aumento da demanda.

O estado é o segundo maior produtor de etanol do Brasil e possui forte presença no setor sucroenergético, uma cadeia que movimenta bilhões de reais, gera empregos e sustenta parte relevante da economia regional. Além da produção tradicional de cana-de-açúcar, Goiás também acompanha o avanço do etanol de milho, segmento que cresce rapidamente no Centro-Oeste.

Márcio reconhece esse benefício econômico, mas faz distinção entre ganhos da cadeia produtiva e vantagens reais ao consumidor final.

“Para quem produz etanol, é excelente. Goiás ganha em geração de renda, emprego e movimentação econômica. A dúvida é se esse ganho vai chegar para quem abastece”, pondera.

A ampliação da mistura integra a política prevista na Lei do Combustível do Futuro, iniciativa do governo voltada à expansão de fontes renováveis e à redução de emissões no setor de transportes. Ainda assim, entre metas ambientais, interesses econômicos e dúvidas do mercado, a resposta definitiva para o motorista não deve vir de discursos oficiais.

Ela aparecerá, como de costume, nas bombas.

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