terça-feira, 27 de outubro de 2026
COMBUSTÍVEL

Mais etanol, gasolina mais barata? Setor em Goiás vê promessa com desconfiança

Nova regra entra em vigor nesta quarta-feira (24) e pode reduzir dependência de gasolina importada; Goiás está entre os estados que mais devem se beneficiar com avanço do biocombustível

Luma Silveirapor em
Nova composição da gasolina entra em vigor nesta quarta-feira (24), com aumento da mistura de etanol de 30% para 32%
Nova composição da gasolina entra em vigor nesta quarta-feira (24), com aumento da mistura de etanol de 30% para 32% | Foto: Canva

Gasolina mais barata ou apenas uma mudança técnica com pouco efeito no bolso? Essa é a dúvida que acompanha a decisão do governo federal de elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, medida que entra em vigor nesta quarta-feira (24) em todo o país.

Apresentada pelo Planalto como uma estratégia para reduzir a dependência de combustíveis importados, estimular o agronegócio e ampliar o uso de energia renovável, a mudança divide opiniões no setor de combustíveis. Enquanto o governo sustenta que a nova composição pode aliviar os preços nas bombas e reduzir emissões de poluentes, representantes da revenda em Goiás afirmam que o impacto positivo para o consumidor ainda é incerto.

O vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu a medida ao afirmar que o aumento da participação do biocombustível fortalece a economia nacional e melhora a eficiência energética. Segundo estimativas do governo federal, a mudança poderá reduzir em até 500 milhões de litros por mês a necessidade de importação de gasolina, aproximando o Brasil da autossuficiência no abastecimento.

Em Goiás, no entanto, o discurso oficial é recebido com cautela. Para o presidente do Sindiposto Goiás, Márcio Andrade, o histórico recente não sustenta a expectativa de queda nos preços.

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Segundo ele, quando a mistura obrigatória foi ampliada anteriormente, passando de 27,5% para 30%, a redução prometida ao consumidor não se concretizou. Isso ocorreu, de acordo com o setor, porque o preço do etanol anidro subiu com o aumento da demanda e as distribuidoras não repassaram eventual ganho de custo aos postos.

“Da última vez, essa redução simplesmente não aconteceu. Se não houver repasse da distribuidora para o posto, o consumidor não vai perceber diferença nenhuma na bomba”, afirma Márcio.

Além da discussão sobre preços, revendedores também demonstram preocupação com os efeitos técnicos da nova composição. O principal alerta envolve veículos que operam exclusivamente com gasolina, especialmente modelos antigos, carros importados e grande parte das motocicletas.

Segundo Márcio Andrade, o aumento da concentração de etanol pode gerar mais reclamações relacionadas ao funcionamento dos motores, colocando os postos na linha de frente da insatisfação dos consumidores.

“O receio é de mau funcionamento em veículos não preparados para percentuais maiores de etanol. Quando isso acontece, o primeiro lugar onde o cliente vai reclamar é no posto”, explica.

Outro ponto levantado pelo setor está ligado ao rendimento. Embora o etanol costume ter custo inferior ao da gasolina, ele também apresenta menor densidade energética, o que significa que o combustível tende a render menos por litro.

Na prática, isso pode criar um paradoxo: mesmo que o preço unitário da gasolina recue, o motorista pode precisar abastecer com maior frequência.

“Mesmo que o litro fique mais barato, o consumo tende a aumentar. No fim, o barato pode sair caro”, resume o presidente do Sindiposto.

Se do ponto de vista do consumidor persistem dúvidas, para a cadeia produtiva goiana o cenário é mais favorável. Goiás ocupa posição estratégica na produção nacional de etanol e deve estar entre os estados mais beneficiados pelo aumento da demanda.

O estado é o segundo maior produtor de etanol do Brasil e possui forte presença no setor sucroenergético, uma cadeia que movimenta bilhões de reais, gera empregos e sustenta parte relevante da economia regional. Além da produção tradicional de cana-de-açúcar, Goiás também acompanha o avanço do etanol de milho, segmento que cresce rapidamente no Centro-Oeste.

Márcio reconhece esse benefício econômico, mas faz distinção entre ganhos da cadeia produtiva e vantagens reais ao consumidor final.

“Para quem produz etanol, é excelente. Goiás ganha em geração de renda, emprego e movimentação econômica. A dúvida é se esse ganho vai chegar para quem abastece”, pondera.

A ampliação da mistura integra a política prevista na Lei do Combustível do Futuro, iniciativa do governo voltada à expansão de fontes renováveis e à redução de emissões no setor de transportes. Ainda assim, entre metas ambientais, interesses econômicos e dúvidas do mercado, a resposta definitiva para o motorista não deve vir de discursos oficiais.

Ela aparecerá, como de costume, nas bombas.

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