sexta-feira, 26 de junho de 2026
SAÚDE INFANTIL

Festas juninas aumentam risco de queimaduras em crianças; veja o que fazer e o que nunca fazer

Junho e julho concentram o maior pico de internações por queimaduras no país; pediatra alerta sobre erros comuns no primeiro socorro e ensina o protocolo correto

Luana Avelarpor Luana Avelar em 26 de junho de 2026
queimaduras

As mesmas festas que fazem de junho um mês de fogueiras, caldos, bandeirinhas e férias escolares também colocam as crianças diante de um risco que costuma crescer nessa época do ano. Segundo a Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), junho e julho concentram o maior pico de internações por queimaduras no país. O período levou a entidade a intensificar campanhas de prevenção, entre elas o Junho Laranja, voltado à conscientização sobre acidentes que, em muitos casos, poderiam ser evitados dentro de casa.

O alerta é especialmente importante para famílias com crianças pequenas. De acordo com a SBQ, elas representam a maior parte das vítimas de acidentes domésticos por escaldadura, nome dado às lesões provocadas pelo contato com líquidos superaquecidos, como caldos, água fervente e óleo quente. Durante as festas juninas, esse perigo ganha novos contornos. A cozinha fica mais movimentada, panelas pesadas circulam com mais frequência e pratos típicos costumam ser servidos em altas temperaturas. Fora de casa, fogueiras e fogos também aumentam a exposição ao risco.

A preocupação de especialistas é evitar que situações corriqueiras, como o preparo de uma comida típica ou a aproximação de uma criança de uma fogueira, terminem em lesões graves. Para o pediatra e plantonista de pronto-atendimento infantil Lucas Sanches, a desatenção no ambiente doméstico e a falta de barreiras de proteção perto do fogo estão entre os principais fatores associados a acidentes familiares.

O médico afirma que a prevenção depende de medidas simples, mas que precisam ser adotadas antes do acidente. “Na cozinha, mantenha cabos de panelas virados para dentro do fogão, use as bocas traseiras para líquidos quentes e jamais segure a criança no colo ao cozinhar. Em festas juninas, evite que as crianças se aproximem de fogueiras e fogos; prefira fogueiras cercadas e mantenha baldes de água por perto. Líquidos ferventes (como caldos e óleo) devem ficar fora do alcance das crianças”, orienta Lucas Sanches.

A atenção deve se estender também aos ambientes de festa. Fogueiras, fogos e recipientes com bebidas ou alimentos quentes precisam ficar afastados das áreas de circulação infantil. A orientação é que crianças não se aproximem do fogo e que os adultos mantenham algum tipo de contenção ou barreira quando houver fogueira. A presença de baldes de água por perto é uma medida de segurança adicional, especialmente em locais abertos ou com grande circulação de pessoas.

Quando o acidente acontece, o primeiro impulso da família costuma ser tentar aliviar a dor imediatamente. É nesse momento que receitas caseiras, transmitidas de geração em geração, podem agravar a lesão. Pasta de dente, manteiga, pó de café, pomadas sem orientação médica e gelo direto sobre a pele não devem ser utilizados. Essas substâncias podem destruir tecidos saudáveis, ampliar o risco de infecções bacterianas e dificultar a avaliação médica.

No atendimento profissional, a presença desses produtos sobre a ferida também pode aumentar o sofrimento da criança. Muitas vezes, a equipe precisa remover resíduos aderidos à pele lesionada, o que exige manipulação de uma área já sensível. Por isso, a recomendação é não passar nenhum produto sobre a queimadura e seguir medidas físicas de primeiros socorros.

O protocolo correto, conforme orientações preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e detalhadas pelo pediatra, começa com o afastamento imediato da criança da fonte de calor. Em seguida, os responsáveis devem retirar apenas as roupas que não estiverem grudadas à queimadura. Peças aderidas à pele não devem ser puxadas, porque a retirada forçada pode aprofundar a lesão.

Depois, a área afetada deve ser colocada sob água corrente limpa, em temperatura ambiente, por 15 a 20 minutos. O gelo não deve ser usado. Embora pareça uma solução rápida, ele pode piorar o dano tecidual. Após o resfriamento, a lesão deve ser coberta com pano limpo e seco, como gaze ou lençol. O algodão solto deve ser evitado, já que pode grudar na ferida.

Outra orientação é não aplicar pomadas, óleos, cremes ou qualquer substância caseira sobre a pele queimada. Se a criança estiver consciente, os responsáveis podem oferecer água, sem forçar a ingestão. A prioridade é manter a calma, proteger a área atingida e buscar atendimento quando houver sinais de gravidade.

A ida ao hospital não deve ser adiada em alguns casos. A família deve procurar o pronto-atendimento com urgência quando a queimadura atingir áreas sensíveis, como face, mãos, pés, genitália ou grandes articulações, a exemplo de cotovelos e joelhos. Também exigem avaliação médica imediata as lesões com bolhas grandes, pele com aspecto carbonizado ou espesso, ou quando a área queimada for maior que a palma da mão da própria criança.

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Há ainda situações em que a queimadura pode vir acompanhada de inalação de fumaça. Tosse, rouquidão ou dificuldade respiratória são sinais de alerta e devem levar a criança ao atendimento de urgência. O mesmo vale para vítimas com menos de 2 anos ou crianças que tenham alguma doença prévia associada.

A hesitação dos responsáveis pode comprometer a recuperação do tecido e aumentar o risco de sequelas estéticas ou funcionais. Em queimaduras infantis, o tempo entre o acidente, os primeiros cuidados e a avaliação médica faz diferença no resultado do tratamento.

No mês em que a tradição popular ocupa escolas, clubes, ruas e casas, a prevenção precisa fazer parte da festa. A alegria dos arraiás não elimina o risco que existe nas panelas, nos líquidos ferventes e nas fogueiras. Para as famílias, o cuidado começa nos detalhes: afastar, cercar, resfriar corretamente e nunca improvisar tratamento sobre a pele queimada.

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