“Cobre do meu pai” circula por dez cidades do interior goiano com entrada gratuita
Monólogo de Hélio Fróes, que voltou ao teatro após doze anos afastado, estreia em Alto Paraíso no dia 16 de julho e percorre o estado até outubro com oficinas gratuitas nas primeiras cidades
Depois de doze anos afastado dos palcos, o ator e diretor Hélio Fróes volta ao teatro com uma história que nasceu de perdas pessoais. O pai dele morreu de câncer, e um ano depois o próprio Fróes enfrentou a mesma doença. Desse período difícil surgiu “Cobre do meu pai”, monólogo que estreou em 2024 e que agora percorre dez cidades do interior de Goiás entre julho e outubro.
No palco, apenas um tapete circular de couro e um tacho de cobre de cem litros. O objeto dá nome ao espetáculo e funciona como símbolo de herança e de segredos de família. Na trama, o protagonista decide vender o tacho, herdado do pai, e essa decisão se transforma em rito de passagem: ele precisa encarar o passado para se libertar dele. A história parte de fatos reais que se misturam à ficção. “São questões pessoais, mas que também têm uma dimensão universal, na medida em que o trabalho aborda temas com os quais o público também poderá se identificar”, diz Fróes.
O enredo acompanha a relação entre um filho e a figura paterna vista, na infância, como heroica. Ao longo da narrativa, memórias mais sombrias vêm à tona e reconfiguram essa imagem, revelando um passado que o protagonista precisa confrontar para romper o ciclo.
Levar teatro ao interior
A circulação por dez cidades é o centro do projeto. Fróes explica que a escolha recai sobre municípios historicamente distantes dos polos culturais consolidados do estado. “A nossa proposta é justamente romper com a concentração da produção artística em polos já consolidados, como Anápolis, Cidade de Goiás e Pirenópolis — municípios reconhecidos pela efervescência cultural e pela presença constante de eventos, festivais e produções teatrais”, afirma o ator e diretor.
As apresentações começam em Alto Paraíso, nos dias 16 e 17 de julho, às 19h, na Casa de Artes Agami, e seguem para Cavalcante, nos dias 18 e 19, no Instituto Casa Candeia, no mesmo horário. Olhos d’Água recebe o espetáculo nos dias 22 e 23 de julho, no Naco Núcleo de Arte do Centro Oeste, e Formosa encerra essa primeira etapa nos dias 25 e 26, no CEU das Artes, na Praça CEU. Em agosto, a turnê passa por Aparecida de Goiânia, Senador Canedo e Hidrolândia; em setembro, chega a Catalão e Campo Alegre; e em outubro fecha o roteiro em Luziânia, somando vinte apresentações, todas com entrada franca. O projeto tem apoio da Lei Goyazes.
Nas quatro primeiras cidades, Fróes também comanda a oficina “Introdução ao Teatro”, com quatro horas de duração, quinze vagas por turma e abertura para maiores de 14 anos. Os encontros tratam de noções básicas de expressão vocal e corporal e acontecem em Alto Paraíso no dia 15 de julho, às 14h; em Cavalcante no dia 20, também às 14h; em Olhos d’Água no dia 22, às 14h; e em Formosa no dia 26, às 9h.
Para Fróes, a experiência acumulada em Goiás pode abrir caminho para outros estados. “Esta etapa estadual representa apenas o primeiro passo de um projeto maior. A expectativa é que, a partir da experiência acumulada na circulação por Goiás, o espetáculo siga para outras regiões do país, ampliando seu alcance e consolidando um movimento de descentralização da produção teatral em âmbito nacional”, diz.
Um cenário quase vazio
Sem trilha sonora, “Cobre do meu pai” segue o formato de teatro documentário, com produção de Geovani Santos e direção de arte, figurino e cenário de Rô Cerqueira. “Esta é uma escolha que oferece uma narrativa sólida e baseada na realidade”, diz Fróes.
A opção por um cenário mínimo, formado apenas pelo tapete e pelo tacho, tem função narrativa direta. “Esta peça tem um grande peso no texto. A intenção em adotar essa perspectiva minimalista é amplificar a narrativa da peça e envolver o público. São dois elementos circulares que ecoam o tema central da narrativa. A simplicidade e a simetria desses elementos reforçam a ideia de que o passado está sempre presente”, explica o ator, que lembra ainda o duplo sentido do título: cobre como substantivo e como verbo.
Na direção, Fernanda Pimenta recorreu ao método Viewpoints, técnica que trabalha tempo, movimento, espaço e relações em cena a partir de memórias reais. “Ao usar as memórias como ponto de partida, os exercícios baseados no sistema VPs foram adaptados para criar cenas que transmitem as histórias e as emoções contidas nos relatos. Isso permite uma exploração física e emocional mais profunda dos eventos e das relações que moldaram a vida do protagonista”, afirma a diretora.
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Apesar da densidade dos temas, Fróes afirma que a montagem também trabalha com humor e poesia. “Isso permite que a peça equilibre o peso do drama com momentos leves e reflexivos. O humor pode ser usado para aliviar a tensão e criar conexões emocionais com o público, enquanto a poesia adiciona profundidade e beleza à narrativa”, antecipa Fróes.
Entre memória íntima e partilha coletiva, “Cobre do meu pai” transforma um objeto familiar em ponto de partida para discutir o que permanece depois da ausência. Ao circular pelo interior goiano, a peça encontra novos públicos e recoloca em cena uma pergunta delicada: o que cada pessoa faz com aquilo que herda?
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