Dor persistente revela relação entre mente, corpo e rotina
Mariana Schamas propõe olhar ampliado sobre a dor e destaca o papel da atividade física, do sono e da rede de apoio no tratamento
A dor crônica não depende apenas de uma lesão visível no corpo. Segundo a cinesiologista Mariana Schamas, autora do livro “A Dor é um Convite para a Mudança”, o sintoma nasce de um processo elaborado pelo cérebro, que cruza o estímulo físico com emoções, memórias e hábitos do dia a dia. “A dor só vira dor quando o cérebro decide que ela é dor”, resume.
O estímulo percorre a medula espinhal e sobe até o cérebro, onde se mistura a experiências vividas ao longo da vida. É o mesmo mecanismo que rege tanto as dores agudas, com duração de até três meses e origem em um trauma pontual, quanto as crônicas, que persistem por mais de três a seis meses. Na aguda, o sintoma protege o corpo, na crônica, o alarme dispara mesmo sem risco real, e a dor se comporta como uma doença independente, como no caso da dor do membro fantasma, sentida em uma parte do corpo que não existe mais.
Essa produção cerebral depende de um sistema que modula a intensidade da dor, com uma via que a amplifica e outra que a reduz. Em quadros crônicos, esse equilíbrio se desfaz: a via de excitação ganha força e a de alívio enfraquece. Pensamentos negativos alimentam o desequilíbrio, enquanto estados mais positivos ajudam a conter o sintoma.
Hábitos cotidianos entram nessa equação. Ficar parado, dormir mal e recorrer a ultraprocessados pioram o quadro. Movimentos leves, sono regulado e alimentação equilibrada favorecem a resposta natural do organismo. “Muitas vezes agimos no automático e não nos damos conta que estamos alimentando um ciclo neural da dor, já viciado e mal adaptado”, escreve Schamas no livro.
A atividade física ocupa lugar central. Ela reorganiza o sistema que modula a dor, melhora o humor e facilita a absorção de medicamentos. Não é necessário treino intenso: dança, caminhada e tai chi são alternativas válidas. “Academia não é sinônimo de exercício”, afirma Schamas.
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O mesmo raciocínio orienta o tratamento da fibromialgia, que desregula o sistema nervoso central. Mudanças bruscas de rotina costumam não funcionar, e a cinesiologista defende metas pequenas e exposição gradual ao movimento. “Às vezes a dor só permanece porque seguimos fazendo o que a impede de ir embora”, escreve.
O estado emocional também interfere nesse sistema. Noites maldormidas e estresse elevado deixam o paciente hipervigilante, dificultando decisões sobre o próprio cuidado. Para identificar padrões, Schamas recomenda o registro diário dos episódios de dor. “O que não monitoramos e entendemos, não conseguimos mudar”, diz.
Técnicas de respiração também têm papel regulador. É a partir desse conjunto de cuidados que pacientes com dor há muitos anos reconstroem a confiança no corpo, por meio de tratamento multidisciplinar. “O caminho do alívio é oscilante”, afirma a cinesiologista. “Para estar em equilíbrio é preciso estar em constante movimento.”
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