CORRIDA CONTRA O TEMPO

Família luta para salvar bebê após Justiça de Goiás negar medicamento

Bebê de cinco meses com doença genética rara depende do medicamento Kanuma, que custa cerca de R$ 35 mil por aplicação semanal

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 10 de julho de 2026 às 23:36
Família luta para salvar bebê após Justiça de Goiás negar medicamento
Arquivo pessoal

Os primeiros meses de vida da pequena Sofia deveriam ser marcados pelas descobertas típicas da infância. Em vez disso, a bebê de apenas cinco meses vive entre internações, exames e procedimentos médicos, enquanto os pais enfrentam uma corrida contra o tempo para tentar salvá-la.

Diagnosticada com uma doença genética ultrarrara, ela depende do medicamento Kanuma (alfassebelipase), única terapia capaz de agir diretamente na causa da enfermidade. O tratamento custa cerca de R$ 35 mil por aplicação semanal e, segundo os médicos, precisa ser iniciado com urgência. Enquanto a família aguarda uma decisão da Justiça, o estado de saúde da criança continua se agravando.

Diagnóstico veio após meses de investigação

A luta começou antes mesmo do nascimento. Durante a gestação, a mãe, Maria Eduarda, desenvolveu hipertireoidismo gestacional e, nos últimos meses da gravidez, percebeu que a filha havia parado de ganhar peso. Diante do quadro, o parto foi antecipado para 37 semanas, após tentativas frustradas de indução.

Sofia nasceu pesando cerca de dois quilos e, ainda nas primeiras horas de vida, apresentou icterícia intensa e alterações nos exames do fígado. Naquele momento, a suspeita médica era de que os problemas estivessem relacionados à placenta.

Com o passar das semanas, porém, o quadro se tornou cada vez mais preocupante. A bebê não conseguia ganhar peso, passou a apresentar vômitos frequentes após as mamadas, episódios de hipoglicemia e precisou ser internada diversas vezes. Após uma longa investigação, que incluiu exames genéticos, veio o diagnóstico, no fim de junho deste ano: Sofia é portadora da Deficiência de Lipase Ácida Lisossômica (LAL-D), doença genética conhecida, na forma infantil, como Doença de Wolman.

Desde então, a rotina da família passou a ser uma batalha diária para garantir o tratamento. Sem condições de arcar com o custo do medicamento, os pais recorreram à Justiça na tentativa de obter o fornecimento pelo poder público.

“Estamos desesperados, sem saber mais o que fazer. Essa é a única forma de a nossa bebê viver, mas estão negando o tratamento e ainda dizendo que não é um caso de urgência. Tenho todos os relatórios médicos mostrando que a maioria dos bebês com essa doença morre por volta dos seis meses, e a Sofia já está com cinco. Ela está desenvolvendo cirrose, e os médicos dizem que precisa iniciar o tratamento imediatamente”, desabafa a mãe, Maria Eduarda Araújo.

Doença pode ser fatal

A Deficiência de Lipase Ácida Lisossômica é uma doença genética hereditária causada pela ausência ou deficiência da enzima responsável por degradar gorduras dentro das células. Sem essa enzima, colesterol e triglicerídeos passam a se acumular em diversos órgãos, principalmente no fígado, baço, intestino e sistema cardiovascular.

A doença é considerada ultrarrara, com incidência estimada em aproximadamente um caso a cada 500 mil nascimentos. Nos bebês, a evolução costuma ser extremamente agressiva. A forma infantil, chamada Doença de Wolman, provoca rápida deterioração clínica e pode levar à morte por volta dos seis meses de idade, quando não há tratamento específico.

Segundo estudos médicos, a doença causa hepatomegalia, insuficiência hepática, má absorção de nutrientes, desnutrição grave, vômitos persistentes, diarreia, inflamação sistêmica e falência progressiva de múltiplos órgãos. Sofia já apresenta parte dessas complicações.

Atualmente, a bebê se alimenta por sonda, faz uso contínuo de medicamentos para tentar preservar o funcionamento do fígado, necessita de uma fórmula nutricional específica e realiza acompanhamento semanal no hospital. Recentemente, voltou a ser internada após desenvolver cirrose e um grande acúmulo de líquido no abdômen. O quadro comprometeu sua respiração e exigiu um procedimento de drenagem.

Especialistas explicam que o Kanuma é o único medicamento capaz de substituir a enzima ausente e atuar diretamente na origem da doença. Os demais medicamentos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) tratam apenas as consequências secundárias.

Busca pelo tratamento passou por Defensoria, hospital e Justiça

Arquivo pessoal

Assim que recebeu o diagnóstico definitivo, a família iniciou uma verdadeira maratona em busca do medicamento. Segundo Maria Eduarda, o primeiro contato foi com a Defensoria Pública de Goiás, mas o atendimento acabou sendo adiado. Posteriormente, o caso foi encaminhado à Defensoria Pública da União.

Enquanto aguardava uma solução, um advogado decidiu assumir gratuitamente a causa e ingressou com ação judicial pedindo que a União fosse obrigada a fornecer imediatamente o Kanuma.

O pedido de tutela de urgência, porém, foi negado pela 3ª Vara Federal da Seção Judiciária de Goiás. O magistrado entendeu que ainda seria necessária a manifestação da União, a conclusão da nota técnica do Núcleo de Apoio Técnico do Judiciário (NatJus) e a comprovação de alguns requisitos estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) para o fornecimento judicial de medicamentos de alto custo.

Outro ponto considerado pelo juiz foi a informação preliminar do NatJus de que o caso não se enquadraria como situação de urgência ou emergência. Além disso, a decisão destacou a inexistência de um requerimento administrativo formal para obtenção do medicamento.

Apesar do indeferimento da liminar, a Justiça determinou que o Centro Estadual de Medicação de Alto Custo Juarez Barbosa (Cemac-JB) informe, em até 72 horas, se possui condições de fornecer o medicamento, além de abrir prazo para eventual inclusão do Estado de Goiás no processo.

Defesa recorre e aponta risco de morte

Inconformada com a decisão, a defesa apresentou agravo de instrumento ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), pedindo a reforma da decisão e a concessão imediata do medicamento.

No recurso, os advogados sustentam que toda a documentação médica necessária já havia sido anexada ao processo, incluindo laudos assinados por cinco especialistas, artigos científicos, ensaios clínicos, revisões sistemáticas e notas técnicas de outros NatJus que classificam a Doença de Wolman como uma emergência médica em lactentes.

A defesa também afirma que não existe tratamento substitutivo disponível no SUS, que o Kanuma possui registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2015 e que tanto o Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad) quanto o próprio Cemac-JB não disponibilizam o medicamento, inviabilizando até mesmo a formalização de um pedido administrativo convencional.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) informou que está verificando as informações relacionadas ao processo e deverá se manifestar posteriormente.

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