segunda-feira, 13 de julho de 2026
COMPORTAMENTO E PETS

Abandono de animais também acontece dentro de casa

Veterinário alerta para sinais de negligência, isolamento e falta de cuidados básicos com cães e gatos

Luana Avelarpor Luana Avelar em 13 de julho de 2026 às 18:00
Abandono

O abandono de cães e gatos não acontece só nas ruas. Para o médico veterinário Victor Soares, com mais de dez anos de atuação clínica e autor do livro “Não era passeio, era consulta”, parte da negligência ocorre dentro de casa, sob a forma de isolamento, falta de estímulo e ausência de cuidados médicos básicos.

Lançado pela Editora Rua do Sabão, o livro parte do caso de Loba, husky siberiano que chega a um hospital em estado crítico após convulsões, enquanto a família demonstra pressa para encerrar o atendimento. A partir dessa cena, Soares reúne outros casos da carreira para discutir vínculo e negligência, os mesmos assuntos tratados na entrevista a seguir.

Esses sinais costumam aparecer primeiro no consultório. “Percebemos normalmente pela condição corporal do animal. Se tem pelagens secas, opacas e grossas, magreza extrema, unhas extremamente grandes, desidratação, presença de pulgas ou carrapatos, ou sinais clínicos de doenças crônicas não tratadas”, explica.

O comportamento também denuncia o tipo de criação que o animal recebeu. Cães submetidos a vínculos frágeis costumam manifestar “medo, insegurança ou agressividade exageradas”, enquanto outros reagem ao extremo oposto, “suplicando por qualquer afago, com choros e vocalizações dramáticas por atenção”, sinal de que as necessidades básicas não são atendidas em casa.

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Muitos desses quadros têm origem em decisões de adoção tomadas sem planejamento. No consultório, o arrependimento aparece de forma indireta. “Quando há um arrependimento e não querem mais ficar com um animal, as pessoas geralmente dão sinais de que não quer se dedicar, negando os procedimentos necessários, reclamando o tempo todo dos custos ou do animal estar dando muito trabalho”, descreve.

Para evitar essa frustração, o veterinário defende o mesmo planejamento de uma decisão de longo prazo. “Assim como os filhos humanos devem ser planejados, os filhos de quatro patas também devem”, diz, ao citar espaço em casa, tempo e custos como fatores que evitam surpresas depois da adoção.

Esse despreparo ajuda a explicar por que o Brasil ainda soma milhões de animais em situação de rua, embora Soares evite generalizações: o problema muda conforme a realidade social de cada família. Entre famílias com boas condições socioeconômicas, porém, “a negligência vem da falta de informação e planejamento, em colocar na balança todos os possíveis problemas antes de adquiri-lo”.

Se a adoção mal planejada alimenta o abandono, a ausência de castração amplia o problema nas ruas. Para o veterinário, a questão ultrapassa a escolha individual e se torna política pública diante de animais semidomiciliados, que circulam sem controle reprodutivo. “Quando falamos de gatos, o problema é ainda maior por serem uma espécie de fertilidade altíssima, com capacidade reprodutiva de uma fêmea gerar dezenas de filhotes por ano”, afirma. Os cães, segundo ele, têm capacidade reprodutiva menor, mas tendem a ser hospedeiros de parasitas e transmissores de zoonoses.

Soares também alerta para os excessos da humanização dos pets. Para ele, o vínculo familiar é positivo, desde que respeite a natureza do animal. “O problema está quando esquecemos que são animais”, afirma. Em viagens e mudanças de rotina, esse desequilíbrio aparece quando cães e gatos passam a ser tratados como obstáculos, e não como seres vivos que exigem cuidado. 

Ao acompanhar a história de Loba, “Não era passeio, era consulta” desloca o foco do afeto declarado para o cuidado cotidiano. A obra mostra que gostar de um animal não basta. Alimentar, proteger, oferecer atendimento, respeitar limites e assumir responsabilidades ao longo de toda a vida também fazem parte do vínculo.

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