terça-feira, 14 de julho de 2026
marcas da infância

O que explica a repetição de conflitos na vida adulta

Psicóloga analisa como marcas da infância e relações familiares podem influenciar a forma como adultos lidam com afetos e desafios

Luana Avelarpor Luana Avelar em 13 de julho de 2026 às 20:00
vida

Você muda de emprego, mas os conflitos continuam os mesmos. Encerra um relacionamento e, algum tempo depois, percebe que a nova relação terminou pelos mesmos motivos da anterior. Faz escolhas diferentes, conhece pessoas diferentes e muda de ambiente, mas a sensação de estar preso a um ciclo parece não desaparecer. Para quem vive esse tipo de repetição, a pergunta costuma ser inevitável: por que algumas dores insistem em voltar? 

Para a psicóloga Adriana Braz de Oliveira, doutora em Psicologia da Saúde e especialista em Psicologia Transpessoal, a persistência de determinados padrões pode estar ligada a experiências familiares que não foram elaboradas. Lutos silenciados, ausências afetivas, segredos e traumas podem atravessar gerações e reaparecer na vida adulta como ansiedade, insegurança, dificuldade de pertencimento ou relações marcadas pelos mesmos impasses.

“Uma coisa é a impressão de já ter vivido aquilo, mesmo com pessoas e cenários diferentes; outra é a desproporção entre o que acontece e o que sentimos. Reações intensas demais para o momento presente costumam carregar memórias que não são nossas”, afirma.

Segundo Adriana, a repetição também aparece quando a pessoa assume, sem perceber, papéis conhecidos no núcleo familiar: o de quem suporta todas as responsabilidades, permanece excluído ou tenta reparar conflitos que não provocou.

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A origem da dor nem sempre é fácil de identificar. Experiências diretamente vividas costumam estar ligadas a um episódio reconhecível. Já os sofrimentos associados a dinâmicas familiares anteriores podem surgir sem um acontecimento específico que os explique.

“A dor nascida da nossa vivência costuma ter endereço: a gente sabe de onde veio, consegue nomear o fato, o momento, a perda e dói no tamanho do que aconteceu. Já a dor que vem do sistema familiar costuma ser difusa, antiga, sem data de nascimento clara e pode aparecer como uma tristeza sem motivo aparente, uma ansiedade que não encontra objeto, um vazio que as conquistas não preenchem”, explica.

Nesses casos, a repetição funciona como pista. Casais podem reproduzir os conflitos vividos pelos pais, enquanto profissionais buscam reconhecimento de forma permanente. A sensação de não ser suficiente persiste porque a resposta procurada no presente está vinculada a uma falta anterior.

A ausência emocional de pai ou mãe está entre as experiências capazes de repercutir na autoestima e na confiança. Ela não depende da distância física. Um responsável pode conviver diariamente com a criança e, ainda assim, não oferecer escuta, acolhimento ou disponibilidade afetiva.

“Na construção da autoestima, essa ausência pode fazer a pessoa sentir que precisa provar o próprio valor o tempo todo. Na confiança, pode gerar a expectativa de que o outro também vá faltar, abandonar ou não estar disponível emocionalmente. E, na sensação de pertencimento, pode surgir uma espécie de desenraizamento interno, como se faltasse um lugar seguro no mundo”, afirma.

Na vida adulta, essa carência pode aparecer na necessidade de aprovação, no medo de rejeição ou na escolha de parceiros emocionalmente indisponíveis. No trabalho, o desempenho pode se transformar em tentativa de confirmar o próprio valor.

Reconhecer a influência do passado, porém, não significa justificar quem causou sofrimento. Para Adriana, o olhar sistêmico não exige reconciliação artificial, perdão obrigatório nem uma narrativa positiva para experiências dolorosas.

“Isso não significa justificar quem feriu, nem forçar perdão, nem fingir que tudo teve um propósito bonito. Significa apenas reconhecer: foi assim. Doeu. Deixou marcas. Mas agora eu posso dar um lugar a isso dentro de mim, sem permitir que isso governe toda a minha vida.”

A rejeição absoluta da própria história também pode manter a pessoa ligada ao que tenta superar. Ao fugir do passado com raiva ou repúdio, ela continua organizando a vida em torno dele, ainda que pela oposição. Integrar a experiência não é concordar com o que aconteceu, mas impedir que o episódio continue determinando escolhas, vínculos e limites.

“Integrar o passado não é concordar com ele; é parar de lutar contra o que já aconteceu. Quando a pessoa consegue ver seus pais, sua família e sua origem sem idealizações e sem condenações absolutas, ela começa a se diferenciar. Deixa com cada um o peso que lhe pertence e assume, com mais presença, o próprio caminho.”

O processo terapêutico pode ajudar a identificar de onde vêm esses padrões e quais posições a pessoa ocupa dentro da família. Adriana cita a psicoterapia com olhar sistêmico, trabalhos de consciência corporal e a terapia de constelação familiar, desde que conduzida com responsabilidade.

“Portanto, devolver pesos que não são seus não significa rejeitar a família, nem abandonar a própria origem. Significa reconhecer, com respeito, que cada um tem sua história e seu destino”, diz.

Nem sempre esse caminho produz respostas rápidas. Algumas perguntas permanecem abertas e certas dores continuam fazendo parte da história de quem as viveu. Ainda assim, compreender como essas experiências influenciam o presente pode representar uma mudança importante. Afinal, quando a repetição deixa de ser invisível, ela também deixa de ser inevitável.

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