segunda-feira, 13 de julho de 2026
SAÚDE E TECNOLOGIA

Seu smartwatch pode estar fazendo mal à sua saúde mental; entenda por quê

Meta de 10 mil passos não tem base científica e design dos dispositivos ignora a diversidade dos corpos; veja quando o monitoramento deixa de ajudar e começa a prejudicar

Luana Avelarpor Luana Avelar em 13 de julho de 2026 às 19:00
saúde

O smartwatch no pulso virou companheiro de treino de milhões de pessoas. Mas por trás das notificações de passos e medalhas virtuais, há um problema crescente: os mesmos dispositivos que prometem melhorar a saúde estão gerando ansiedade, vergonha e, em alguns casos, transtornos alimentares.

Uma pesquisadora britânica que estuda o tema há uma década identificou cinco razões pelas quais o monitoramento de atividade física pode se tornar prejudicial.

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A meta de 10 mil passos não tem base científica

O número mais famoso do mundo fitness nasceu de um slogan de marketing japonês dos anos 1960, não de pesquisa científica. Estudos mais recentes sugerem que cerca de 7 mil passos diários já trazem benefícios reais para a maioria dos adultos. Mesmo assim, os dispositivos continuam usando 10 mil como referência de saúde.

O problema vai além do número. Rastreadores contam bem o que é fácil de contar: passos. Musculação, pilates, natação e reabilitação aparecem como atividades menores, mesmo que sejam exatamente o que o usuário precisa para a própria saúde.

Quando a meta vira obrigação

Perseguir números pode transformar algo prazeroso em tarefa. Quem falha repetidamente em atingir as metas tende a abandonar o dispositivo e, junto com ele, os próprios hábitos de movimento. O prazer sustenta hábitos a longo prazo. A pressão por métricas externas corrói a motivação interna.

A lógica do “quanto mais, melhor”

Notificações persistentes e passos como moeda principal reforçam a ideia de que mais é sempre melhor. O que essa lógica ignora é contexto. O dispositivo não sabe se o usuário está doente, lesionado, grávido, com falta de sono ou em processo de reabilitação. Quando as pessoas entregam o julgamento ao aparelho, ficam mais vulneráveis a se machucar.

O corpo imaginário do design

Os dispositivos foram projetados para um usuário que não existe. As configurações padrão seguem normas construídas em torno de corpos masculinos, sem deficiência e com tempo livre para priorizar atividade física. O índice de massa corporal pode penalizar pessoas musculosas e tratar corpos saudáveis de mulheres como problemas. Alguns aparelhos direcionam automaticamente para perda de peso, empurrando usuários para exercício excessivo ou alimentação insuficiente.

A culpa sempre recai sobre o usuário

Quando a meta não é atingida, os rastreadores tratam o problema como falta de força de vontade individual. O que ficam de fora dessa conta são as condições reais que moldam o movimento: ruas seguras ou não, tempo disponível, dinheiro, responsabilidades de cuidado, deficiência e acesso a espaços para se exercitar. O resultado é vergonha, sensação de fracasso e desistência.

O que fazer com isso

Isso não significa jogar o smartwatch fora. Significa usá-lo como fonte de informação, não de instrução. Um relógio mede o que aconteceu. Ele não sabe o que seu corpo precisa hoje. Tratar os dados como referência, e não como veredicto, é o primeiro passo para uma relação mais saudável com a tecnologia.

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