terça-feira, 21 de julho de 2026
desenvolvimento infantil

O desafio das férias é afastar as crianças das telas; veja o que fazer

Especialista orienta como reduzir o tempo de exposição aos dispositivos eletrônicos e defende uma rotina de férias com brincadeiras, criatividade e convivência familiar

Luana Avelarpor Luana Avelar em 20 de julho de 2026 às 21:00
telas

Nas férias escolares, o celular costuma ocupar o espaço deixado pela suspensão das aulas e pela rotina apertada dos adultos. A discussão sobre o excesso de telas, porém, não precisa começar pela culpa, afirma Silmara Casadei, mestre e doutora em Educação, psicanalista, escritora e autora de “O Pequeno Mundo Criativo”.

O desafio se torna mais visível no recesso, quando a criança permanece mais tempo em casa e a tela aparece como solução imediata para preencher as horas sem escola e sem presença contínua de um adulto.

“Mais importante do que pensarmos em culpa, é entendermos que a maioria das famílias não entregam o celular porque querem que a criança se vicie nele, mas por falta de tempo, por falta de alternativas, por ausência de rede de apoio e, às vezes, até por falta de conhecimento de alternativas”, diz.

A saída, segundo ela, está menos na proibição abrupta e mais na construção de uma rotina com outras formas de entretenimento e convivência. Um dia pode ser reservado para uma sessão de cinema em casa, com pipoca, pausas e comentários sobre o filme. Em outro, a família pode organizar uma brincadeira ou contar histórias em uma cabana improvisada.

A tecnologia não precisa ser tratada como inimiga. O problema aparece quando deixa de funcionar como ferramenta e se torna a única forma de distração. Silmara afirma que entidades ligadas à pediatria e à psicologia indicam uma hora diária de exposição para crianças, considerando celulares, tablets e televisão.

“Também é saudável entender que tecnologia é ferramenta e não forma de viver, porque muitas crianças estão tendo no celular a sua única possibilidade de se distrair”, afirma.

Os sinais de excesso podem surgir no comportamento. Irritabilidade, impaciência, dificuldade para ouvir orientações, queda na concentração e afastamento das brincadeiras coletivas estão entre as mudanças citadas. A lógica acelerada dos conteúdos digitais pode criar na criança a expectativa de que tudo aconteça imediatamente.

“Isso vai gerando problemas de ansiedade na criança, que começa a se desconectar do relacionamento com os adultos. Ela não consegue fixar o olhar ou ouvir um comando, porque está sem essa atenção”, explica.

Silmara chama atenção para as experiências sensoriais. Brincar com a terra, tocar árvores, sentir cheiros, experimentar alimentos e manusear objetos ampliam a relação da criança com o mundo. Para ela, essas vivências integram o desenvolvimento infantil e não podem ser substituídas pela tela.

Embora os efeitos alcancem diferentes idades, a adolescência exige atenção redobrada. Segundo a psicanalista, as plataformas registram pesquisas, curtidas e o tempo de permanência em cada publicação para recomendar conteúdos semelhantes. A repetição pode intensificar o contato de jovens com materiais nocivos. Entre crianças menores, os efeitos tendem a aparecer na memória, na atenção, na irritabilidade e nas interações.

Durante as férias, algum aumento do tempo diante de filmes, televisão ou cinema não representa, por si só, um dano permanente. O risco cresce quando a exposição ocupa quase todo o dia e elimina outras experiências. “O maior tempo de tela associado com outras atividades que vão divertir, trazer aprendizagens culturais, trazer boas leituras, não vai ter um prejuízo duradouro”, diz.

O cenário muda quando a criança passa seis ou oito horas por dia conectada e recebe pouca atenção dos adultos. Nesses casos, o problema não se resume ao aparelho. Também envolve a ausência de convivência familiar e de oportunidades para brincar e conversar.

Para famílias sem dinheiro para viajar ou pagar atividades, Silmara recomenda parques, praças, centros comunitários e espaços culturais. Dentro de casa, materiais reaproveitados podem servir de ponto de partida para brinquedos e histórias. Caixas de papelão podem virar móveis, carrinhos ou bonecos; garrafas plásticas podem ser transformadas em aviões; roupas usadas podem dar origem a peças para bonecas.

A proposta aparece em “O Pequeno Mundo Criativo”, publicado no ano passado, com ilustrações de Ricardo Girotto feitas a partir de materiais reutilizados. A autora defende que os responsáveis recuperem brincadeiras da própria infância e transformem objetos comuns em experiências compartilhadas. Caixas vazias podem compor uma loja, enquanto papéis, cadeiras e um balde de pipoca ajudam a montar um cinema doméstico.

Uma rotina equilibrada, ressalta Silmara, não exige uma agenda cara nem atividades diferentes a cada hora. Deve reunir brincadeiras, momentos ao ar livre, leitura, algum tempo de tela e presença familiar. As crianças também podem participar das escolhas. “Não é viver para a criança, é viver com a criança.”

Na última semana do recesso, a especialista sugere uma retomada leve dos estudos, com leitura ou uma tarefa curta para reativar conhecimentos antes das aulas. A intenção não é antecipar a rotina escolar, mas fazer a transição para o segundo semestre sem abandonar as experiências construídas durante as férias.

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