segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Meio Ambiente

Um ano após ação da Justiça, lixão de Piracanjuba volta a pegar fogo

Chamas atingiram propriedade rural vizinha, provocaram fumaça intensa e reacenderam cobranças por medidas efetivas para recuperação ambiental do local

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 3 de agosto de 2026 às 07:57
Um ano após ação da Justiça, lixão de Piracanjuba volta a pegar fogo
Reprodução

fogo entre o fim de julho e o início de agosto deste ano de 2026, reacendendo um problema antigo que ainda afeta produtores rurais e moradores da região. Há dias, as chamas consomem os resíduos acumulados no local e, na última sexta-feira (1º), o fogo ultrapassou os limites da área de descarte e atingiu uma propriedade rural vizinha. O novo episódio evidencia que, mesmo após determinações da Justiça e do anúncio de medidas para encerrar o lixão, o município ainda convive com as consequências de uma estrutura que segue em processo de desativação.

Quem vive nas proximidades relata que a fumaça intensa, o forte odor e o risco de propagação das chamas fazem parte da rotina, principalmente durante o período de estiagem. O fogo ameaça lavouras, pastagens, propriedades rurais e também compromete a segurança de motoristas que trafegam pela GO-147.

Segundo produtores, o incêndio permanece ativo há vários dias e já provocou prejuízos. As chamas atingiram uma propriedade rural, aumentando o temor de novas perdas na agricultura e na pecuária. Moradores também reclamam da fumaça constante e de dificuldades respiratórias, enquanto motoristas relatam redução da visibilidade na rodovia.

O problema, porém, não é recente. Em junho de 2025, o lixão permaneceu em chamas durante semanas, espalhando fumaça por diferentes regiões do município. Na ocasião, uma das ocorrências mais graves aconteceu quando o fogo saiu da área de descarte e atingiu uma lavoura de milho em uma fazenda vizinha. O Corpo de Bombeiros controlou parte das chamas, mas produtores precisaram utilizar tratores, caminhões-pipa e mangueiras para evitar que o incêndio destruísse completamente a plantação.

As sucessivas ocorrências motivaram a atuação do Ministério Público de Goiás (MPGO), que acionou a Justiça alegando riscos à saúde pública e ao meio ambiente. O órgão destacou que a queima de resíduos libera fumaça carregada de partículas e gases potencialmente nocivos, além de favorecer a propagação do fogo.

Diante da situação, a Justiça determinou que a Prefeitura de Piracanjuba apresentasse e executasse um plano emergencial para combater os incêndios, monitorar a área e reduzir os impactos ambientais. A decisão também previa medidas para evitar novos focos e proteger moradores e propriedades vizinhas.

Passado pouco mais de um ano, produtores afirmam que o cenário pouco mudou. O novo incêndio reacendeu o debate sobre a efetividade das medidas adotadas e sobre a demora na conclusão do encerramento definitivo do lixão.

Em maio deste ano de 2026, durante vistoria no ponto de transbordo criado para substituir gradualmente a antiga área de descarte, foram identificados problemas como lixo espalhado, resíduos acumulados fora dos contêineres e falta de estrutura adequada para o trabalhador responsável pela vigilância do local.

Plano de ação

Na ocasião, a prefeita Lenízia informou que o município já possuía um plano de ação para corrigir as falhas. Entre as medidas anunciadas estavam a construção de uma guarita com banheiro, copa e sala de apoio, além da cobertura da rampa de descarregamento dos resíduos. Segundo a administração municipal, as obras integram o cumprimento de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e o processo gradual de encerramento do lixão.

A prefeitura também informou que apenas resíduos da construção civil continuam sendo destinados à antiga área de descarte, enquanto os resíduos domiciliares passaram a ser encaminhados ao sistema de transbordo. Apesar das medidas anunciadas, o incêndio registrado entre o fim de julho e o início de agosto demonstra que o antigo lixão ainda representa riscos ambientais e prejuízos para quem vive e trabalha nas proximidades, reforçando a cobrança para que o processo de encerramento seja concluído e acompanhado da recuperação efetiva da área degradada.

Regularização avança, mas desafio permanece

Apesar de casos como o de Piracanjuba, Goiás tem avançado no encerramento dos lixões. Dados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) mostram que 73,98% dos municípios já encerraram seus lixões, são considerados isentos ou estão em processo de regularização no Programa Lixão Zero.

Atualmente, 118 municípios possuem licença de encerramento, 55 seguem em regularização e nove solicitaram reconhecimento como isentos. Outros 64 municípios permanecem irregulares, sendo 41 com processos arquivados e 23 que ainda não iniciaram a regularização.

A Semad destaca que encaminhar resíduos para aterros licenciados não significa, necessariamente, que o lixão foi encerrado. O processo também exige recuperação da área degradada, monitoramento ambiental e implantação da coleta seletiva.

Piracanjuba está entre os municípios que ainda possuem processo de regularização em andamento. Embora o município afirme estar encerrando gradualmente o antigo lixão, o novo incêndio demonstra que a área continua gerando impactos ambientais e transtornos para moradores e produtores rurais.

Impactos ambientais vão além da fumaça

Os problemas provocados pelos lixões vão além do mau cheiro e da fumaça. Segundo o gestor ambiental e biólogo Juliano Tadeu, o descarte irregular de resíduos compromete o solo, a água, o ar, a fauna e a flora, além de representar riscos permanentes à saúde da população.

De acordo com o especialista, a fumaça gerada pela queima do lixo pode conter partículas finas e gases tóxicos capazes de agravar doenças respiratórias e provocar irritações. Outro impacto é o chorume, líquido formado pela decomposição dos resíduos, que pode infiltrar-se no solo e contaminar lençóis freáticos, nascentes e córregos quando não há sistemas adequados de impermeabilização e drenagem.

Para Juliano, a solução passa pelo fortalecimento da coleta seletiva, reciclagem, compostagem dos resíduos orgânicos, educação ambiental e pela destinação do lixo a aterros sanitários licenciados. “Precisamos de fiscalização, planejamento e políticas públicas permanentes. O encerramento dos lixões não pode acontecer apenas no papel”, afirma.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Piraceanjuba e com a Semad para obter esclarecimentos sobre o novo incêndio, as medidas adotadas para conter as chamas e o andamento do processo de encerramento do lixão. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação dos órgãos. 

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