terça-feira, 4 de agosto de 2026
Prejuízo Ambiental

Caminhão derrama 56 mil litros de biodiesel no Rio Meia Ponte e impacto ambiental preocupa especialistas em Goiás

Acidente na GO-403 contaminou pista, bueiros e parte do Rio Meia Ponte; análises vão medir os danos enquanto especialistas alertam para riscos à fauna e ao equilíbrio do ecossistema

João Césarpor João César em 4 de agosto de 2026 às 08:38
Meia ponte
Empresa responsável pelo caminhão foi multada em R$ 2 milhões pela Sefic de Goiânia - Foto: Divulgação/CBMGO

No último sábado (01), um caminhão carregado de biodiesel sofreu um acidente e tombou na GO-403, que liga Goiânia a Senador Canedo, na altura do Rio Meia Ponte, próximo a Vila Galvão. Devido ao impacto, aproximadamente 56 mil litros de combustível foram derramados na pista, no curso d’água e em bueiros da região.

Segundo as autoridades, o caminhão da transportadora Primavera Diesel Ltda. atingiu o guard-rail e tombou no acostamento. O acidente mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO), da Defesa Civil e da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), que atuaram na contenção do produto químico.

Para conter o vazamento de combustível, os bombeiros montaram barreiras de terra com o apoio de uma pá mecânica. O motorista do caminhão, de 38 anos, foi resgatado consciente, mas relatava dores intensas na coluna, na cabeça e nos membros inferiores, além de apresentar dificuldade para se movimentar. Após receber os primeiros atendimentos, ele foi encaminhado ao Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) para a realização de exames.

Em nota enviada à imprensa, a Primavera Diesel Ltda. esclareceu que todas as medidas emergenciais cabíveis foram prontamente adotadas, incluindo as ações de contenção, recolhimento do produto e acompanhamento técnico da área, com o objetivo de evitar e minimizar quaisquer impactos ambientais.

A empresa também disse que continuará executando todas as medidas tecnicamente necessárias e aquelas que vierem a ser determinadas pelos órgãos ambientais competentes.

Após o acidente, a Primeira Diesel Ltda. foi multada pela Secretaria Municipal de Eficiência (Sefic), no valor de R$2 milhões. “No aspecto jurídico e administrativo, a empresa permanecerá colaborando integralmente com os órgãos competentes, prestando todas as informações e documentos necessários, bem como adotando todas as providências cabíveis em estrita observância à legislação vigente”, destacou a empresa em nota.

Consequências ambientais


No domingo (02), a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) esteve no local e coletou amostras de água do Rio Meia Ponte para análises laboratoriais. Os resultados serão utilizados para avaliar a extensão dos impactos ambientais e subsidiar as medidas de acompanhamento.

A empresa responsável também foi notificada pela pasta para apresentar documentos técnicos relacionados ao acidente, incluindo a caracterização do produto derramado e os procedimentos adotados na resposta à emergência.

Em relação ao abastecimento de água, a Saneago informou que o acidente ocorreu bem abaixo da captação no Meia Ponte. Com isso, o sistema de abastecimento não foi impactado. Além disso, a Companhia ressaltou que toda a água distribuída à população passa pelo processo de tratamento.

A bióloga e fundadora da Pachamama Socioambiental, Raquel Pires, explica ao O HOJE que o dano real depende do volume que realmente chegou ao rio, da vazão no momento do acidente, da rapidez da contenção e das características do trecho atingido.

“Como o biodiesel é menos denso que a água, ele tende inicialmente a permanecer na superfície, formando uma película, mas também pode se dispersar em pequenas gotas na coluna d’água e atingir margens, vegetação, sedimentos e organismos aquáticos”, esclarece.

Para a especialista, o principal risco está na redução do oxigênio dissolvido na água, por conta da decomposição do combustível. Como o biodiesel é biodegradável, sua decomposição é feita por microrganismos que consomem oxigênio e podem provocar a falta de oxigênio na água.

Outros pontos de pressão para o Meia Ponte, de acordo com a bióloga, são os lançamentos de esgoto, efluentes,  resíduos sólidos, ocupação irregular das margens, assoreamento e redução de vazão durante a estiagem. Nessas condições, o rio não consegue absorver de maneira efetiva uma nova carga contaminante.

“Biodegradável não significa inofensivo. A degradação mais rápida pode consumir grandes quantidades de oxigênio da água e provocar mortandade de organismos, principalmente em trechos rasos, com baixa vazão ou que já apresentam poluição orgânica”, pontua Pires.

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