Daniel Vilela erra para vice e Senado e pode ficar fora do 2º turno em Goiás
O combo estava perfeito, falava-se em vitória no 1º turno, mas o salto 15 pisou duro demais, tirou da chapa o PP, os agropecuaristas e os evangélicos, com uma única vantagem: ainda está em tempo de salvar os votos do centro eleger Gracinha senadora
As condições eram as melhores, com a popularidade de Ronaldo Caiado na faixa dos 90%, Daniel Vilela seria candidato a governador estando no cargo, todos os poderes de Goiás apoiando, inclusive os religiosos. Aí, o tempo começou a mudar. Caiado teve de deixar o União Brasil e se filiar ao PSD, um partido tão desfavorável que seu maior aliado era alguém contra o qual brigou por décadas (Vilmar Rocha), levando de brinde um senador firme na palavra igual a gelatina (Vanderlan Cardoso), com quem viveu grandes enroscos. A briga pelo vice, que em geral é boa, tornou-se um pega pra capar. O excesso de candidatos ao Senado, que também costuma ser ótimo sinal, pode resultar em defecções. Chegou-se a dizer, em cima do salto alto, que Daniel se reelegeria no 1º turno. O vento virou e pode ser que só vá ao 2º como eleitor.
Raios e trovoada se intensificaram quando o deputado federal Zacharias Calil (então no União Brasil) começou a se sobressair para senador e se disse interessado no cargo. Logo, os levantamentos mostravam que seria o preferido da classe média no Estado inteiro, com fãs nos extremos ideológicos e majoritário no centro. Porém, havia um impedimento: a chapa do governo já estava lotada, pois a primeira-dama Gracinha Caiado (UB) tentaria a mesma Casa. Além disso, existia a articulação para tirar do páreo pelo governo o senador Wilder Morais (PL), dando ao também deputado federal Gustavo Gayer (PL) a outra vaga junto com Gracinha. Depois de receber muita facada nas costas, o senador liberal foi dado como desistente, o PL ficaria com Daniel à reeleição, Gracinha e Gayer senadores. Faltou combinar com os russos, dançando a balalaica com salto 15.
Calil, imediatamente, procurou Wilder, que garantiu continuar na disputa
Calil, imediatamente, procurou Wilder, que garantiu continuar na disputa. Se o deputado do UB quisesse trocar de sigla, poderia se abrigar no PL quando chegasse a janela da infidelidade (o período em que deputados e vereadores podem deixar a legenda pela qual foram eleitos). Outro que se manteve firme para o Senado foi o ex-ministro Alexandre Baldy, presidente regional do PP e à época no comando da Agência de Habitação, um cargo de primeiro escalão do Governo Caiado. Em 2018, disseram para Baldy que não havia espaço na chapa de seu grupo, o de Marconi Perillo, para seu candidato ao Senado, Vanderlan Cardoso. Não houve choro nem ranger de dentes. Baldy catou Vanderlan, enfiou-o na chapa de Daniel, que à época enfrentou Caiado para o governo. Daniel perdeu, mas Vanderlan foi eleito – logo depois trairia Baldy, isso é outra conversa. Ah, traiu também Caiado, e isso é outra conversa também.
Havia o temor de essa história se repetir como tragédia dupla, com Calil e Baldy, o 1º com Wilder, o outro com Marconi Perillo (PSDB), o ex-governador que tenta o 5º mandato no Palácio das Esmeraldas. Calil chegou a frequentar a casa e as reuniões de Wilder, só não se filiou porque o senador não lhe deu a vaga ao Senado, que existia, ao lado de Gayer. Enquanto se desenrolavam as articulações no PL, Caiado chamou Calil, assegurou a candidatura ao Senado, filiou-o no MDB de Daniel, deixou-o ser o 5º com o mesmo objetivo. O mau tempo estava se intensificando, pois o mesmo Caiado havia sido obrigado a fazer algo de que não gosta, mudar de ideia. Ele defendia a posição de ter apenas dois candidatos ao Senado, sua mulher, Gracinha, e Gayer. Tomou-se uma decisão salomônica, só que, em vez de repartir em dois, dividiu-se o bebê em trocentas partes, repetindo o filme de sucesso nº 1 da filial brasileira da Netflix.
Jair Bolsonaro confirmou a candidatura de Wilder
Quando já se pensava o que fazer com tanta opção, o ex-presidente Jair Bolsonaro confirmou a candidatura de Wilder e começou a esvaziar a chapa do governo, pois Gayer, onde quer que se encontrasse, foi obrigado a voltar ao seio de sua amada sigla. Dias depois, Gracinha anunciou que Baldy seria seu 1º suplente (o 2º é o fazendeiro Fião de Castro, pai do prefeito de Goianésia, Renato de Castro). Quando se comemorava a saída de mais um, reaparece Gustavo Mendanha (PRD), que quando era vereador em Aparecida, na Grande Goiânia, foi sugerido por Daniel a seu pai, Maguito Vilela, e fecharam com ele para presidente da Câmara local. Depois, Daniel o avalizou para ser o candidato dos Vilela a prefeito. Na hora de retribuir, em 2022, apoiando Caiado para governador tendo de vice aquele a quem chamava de “meu irmão”, Mendanha rompeu com Daniel poucos dias depois de chorar abraçado nos funerais de Maguito, e abandonou o MDB, em que estava desde meninão, porto seguro do pai, Léo Mendanha, outra vítima da Covid-19.
Para zangar de vez a tempestade, Gustavo está colhendo apoio de prefeitos importantes, como a da própria Aparecida, Leandro Vilela, primo de Daniel. Pegou mal demais internamente, pois toda a base fez campanha para Leandro e, logo agora, ele deu uma de Mendanha e deixou na mão Baldy, Calil e até Gracinha, que não ficou surpresa porque não deve esperar dele grande coisa. Gracinha voltou a dizer o óbvio: melhor seria ter apenas duas candidaturas ao Senado. Sim, melhor para… as candidaturas ao Senado. Para Daniel, o ideal é ter diversos senatoriáveis pedindo votos nele para governador, junto com o vice. Que vice? Essa é outra chuva torrencial: mesmo erro do Senado, mas chegaram a oito.
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Ideal é ter diversos senatoriáveis pedindo votos, junto com o vice

Tentaram com frequência maior ou menor ser a companhia de Daniel os ex-prefeitos Paulo do Vale (Rio Verde, no Sudoeste) e Adib Elias (Catalão, no Sudeste), dois do Entorno do Distrito Federal (o deputado federal Célio Silveira, ex-prefeito de Luziânia, e Pábio Mossoró, ex-prefeito de Valparaíso), Adriano Rocha Lima (primo de Caiado), o que herdou do PSD (Vanderlan), José Mário Schreiner (ex-deputado federal, vice-presidente da CNA, presidente do sistema Faeg/Senar e do Sebrae), o ex-senador Luiz Carlos do Carmo, indicado pela Igreja Assembleia de Deus. De todos, o único sem voto era Adriano. Adivinhe quem Caiado escolheu? Sim, ele mesmo. Com uma só tacada, a chapa ficou sem representantes das regiões mais populosas (Grande Goiânia e Entorno do DF), sem o agro, sem os evangélicos, sem os votos.
É muito esforço para perder. Louva-se em campanha eleitoral aquele grupo que faz tudo para se encaixar no que o eleitor deseja, no que as regiões necessitam, no que o Estado aspira. O caiadismo fez o contrário, por isso a possibilidade de dar errado é próxima de 101%. Essa forçação de barra para beijar a lona costuma dar certo: “Você não queria era a derrota? Pois ei-la”. Seria a menor fase de um arcabouço político em Goiás após a retomada da votação direta para governador: PMDB/MDB ficou de 1983 a 1998, o marconismo de 1999 a 2018, Caiado apenas seus dois mandatos. Talvez seja um sinal dos tempos, a tecnologia abreviou tudo, até os reinados. Porém, não é nada disso, é apenas a birra de fazer a chapa de senador que todos sabem que está errada e o vice que todos sabem que vai dar em panelinha.
Gracinha nada tem a ver com essa bagunça, já que combateu o amadorismo da montagem de chapa. Ainda está em condição de salvar sua candidatura, porém, na última vez em que um governo fez tanta questão de perder, em 1998, conseguiu: Iris Rezende foi de 90%, faixa em que está Caiado, à metade e perdeu para um zé-besteira apadrinhado por Nerso da Capitinga: a mulher de Iris, a também Íris Araújo, saiu a suplente de Maguito; Otoniel Machado era irmão e suplente de Iris no Senado. Parecido com agora: uma das vagas de Senado é da esposa e a de vice é do primo. Ah, mas Dona Gracinha é independente, fez o trabalho dela aplaudido e reconhecido nacionalmente. Sim, todas as honras para ela, mas o que se discute aqui é percepção e o eleitor percebe, só quem demora a perceber é quem está ali misturado com tempero, caldo e só não é Panelão do Gugu porque ele está com Marconi. (Especial para O HOJE)
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