Crise na Suprema Corte ganha espaço na disputa presidencial
Julgamento de Moraes ocorre em meio à tentativa de Flávio de associar ministro a Lula; analistas veem potencial eleitoral, mas descartam relação direta com guinada nas pesquisas
O julgamento que o Supremo Tribunal Federal (STF) fará nesta terça-feira (15) sobre o relatório da Polícia Federal (PF) que reúne as trocas de mensagens entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes ocorre em um momento em que a crise que envolve a Corte integra a disputa eleitoral de 2026.
A ofensiva do candidato do PL à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro, busca transformar o desgaste no Supremo em um problema político do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) passou a fazer referências recorrentes a Moraes em seus discursos e procura estabelecer uma ligação direta entre o ministro do STF e o governo Lula.
Na última segunda-feira (14), durante evento em Belém (PA), Flávio defendeu o afastamento de Moraes e afirmou que “hoje, quem está votando no Lula está vendo que está votando no Alexandre de Moraes”. A estratégia também apareceu no ato de 7 de Setembro, na Avenida Paulista, quando Flávio colocou Moraes e Lula lado a lado em seu discurso e afirmou que não iria permitir “que Lula indique mais quatro Alexandre de Moraes ao Supremo Tribunal Federal”.
Para o cientista político e sócio da Metapolítica Consultoria, Jorge Mizael, a crise tem potencial para produzir efeitos eleitorais, mas é preciso separar o desgaste da instituição de uma eventual transferência para as urnas. “Eu diria que existe um efeito potencial e indireto, por meio do aumento da desconfiança nas instituições e da alimentação de discursos antissistema, mas ainda é precipitado afirmar que a crise esteja produzindo uma migração eleitoral relevante por si só”, avalia à reportagem do O HOJE.
Para Mizael, a associação que Flávio busca emplacar encontra limites para alcançar o eleitor que está fora da base bolsonarista, apesar de haver lógica na estratégia da campanha. “Ele procura transformar uma crise originalmente localizada no Judiciário em um problema do governo e, assim, ampliar o campo de responsabilização de Lula”, observa.
Evidências
O problema, para o cientista, é que não há evidência suficiente para afirmar que o “eleitor médio” já enxergue Moraes como uma extensão do governo petista. “O desafio da campanha de Flávio é justamente fazer essa interpretação sair da sua base e chegar ao eleitor mediano. É aí que se decide se a estratégia terá efeito eleitoral relevante ou ficará restrita à mobilização de quem já votaria nele”, pontua.
A tentativa de transformar a crise institucional em ativo eleitoral ocorre paralelamente ao crescimento de Flávio na corrida presidencial. Pesquisa Genial/Quaest divulgada na segunda-feira (14) mostrou o senador numericamente à frente de Lula pela primeira vez em um cenário de segundo turno. Flávio aparece com 42% das intenções de voto, contra 40% do presidente.
O instituto ouviu 2.004 eleitores de 10 a 13 de setembro em entrevistas presenciais. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi contratada pelo Grupo Globo e está registrada sob o protocolo BR-03607/2026 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Sem relação direta
Para os especialistas ouvidos pelo O HOJE, não é possível estabelecer uma relação direta entre a crise no STF e o resultado da pesquisa. “Pode ter contribuído na margem, mas eu evitaria atribuir à crise do Supremo a explicação para esse resultado”, afirma Mizael, ao ressaltar que a aproximação entre Lula e Flávio já era percebida antes do agravamento do caso Moraes.
Para o professor da PUC-GO e cientista político Pedro Pietrafesa, o resultado da Quaest é parte de um processo mais amplo de desgaste do governo. O professor avalia que episódios anteriores, como as repercussões do caso do INSS e as tentativas da oposição de associar o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, às investigações, já afetavam a avaliação do governo.
“A crise no Supremo ajudou, mas o resultado é fruto de um desgaste que vem desde ali de agosto, do começo da campanha”, afirma ao O HOJE. “Foi um mês intenso de exposição relacionada ao caso do INSS. Tem mais a ver com esse desgaste do que agora. E o Lula já vinha perdendo ponto pesquisa após pesquisa”, ressalta.
Efeito sobre os independentes
Para Pietrafesa, a capacidade de a crise alterar o cenário eleitoral dependerá de seu efeito sobre os eleitores independentes. “Para o eleitorado bolsonarista, tanto faz se o Flávio Bolsonaro é corrupto ou não, eles vão continuar votando nele. Essas mudanças dependem muito mais do eleitorado independente”, diz.
Na avaliação de Mizael, uma resposta direta de Lula em defesa de Moraes poderia acabar por reforçar a narrativa construída pelo PL. “Politicamente, Lula ganha mais defendendo regras, transparência e investigação do que defendendo pessoas. Eu não tentaria responder à narrativa de que ‘Moraes é Lula’ com uma narrativa inversa. Recomendo despolitizar institucionalmente o episódio e repolitizar a eleição em torno da avaliação do governo”, avalia.
Já Pietrafesa vê nos desdobramentos do caso elementos que podem ser utilizados pelo próprio governo contra o PL. “A associação do Flávio Bolsonaro com o Vorcaro é direta. O governo tem inclusive os elementos para essa associação direta. Se vai ter feito ou não, depende do eleitorado independente.”
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