sexta-feira, 7 de agosto de 2026
EDUCAÇÃO

IA avança nas escolas, mas desafios ainda limitam uso da tecnologia

Goiás amplia a incorporação desses recursos na rede estadual em meio a desafios de infraestrutura, conectividade, formação docente, proteção de dados e uso responsável por estudantes

Anna Salgadopor Anna Salgado em
IA
Cenário é marcado pela entrada em vigor da Lei nº 15.100/2025, que regulamenta o uso de aparelhos eletrônicos portáteis por estudantes em instituições de ensino Foto: Divulgação/Seduc

A integração de tecnologias digitais e da inteligência artificial (IA) generativa tem acelerado a transformação do ensino no Brasil, ampliando o acesso a recursos digitais e modificando práticas pedagógicas em diferentes redes de ensino. O avanço da conectividade ocorre ao mesmo tempo em que escolas, professores e gestores enfrentam desafios relacionados à infraestrutura, à formação docente, à inclusão digital, à proteção de dados e ao uso responsável dessas tecnologias por estudantes. Dados da pesquisa TIC Educação 2025 mostram que a maior parte dos alunos do Ensino Fundamental e Médio utiliza a internet regularmente e que o ambiente escolar se consolidou como um dos principais espaços de acesso e uso de tecnologias digitais.

O cenário também é marcado pela entrada em vigor da Lei nº 15.100/2025, que regulamenta o uso de aparelhos eletrônicos portáteis por estudantes em instituições de ensino. A legislação integra um conjunto de medidas voltadas à proteção da saúde física e psíquica de crianças e adolescentes, em paralelo às discussões sobre o chamado ECA Digital e à ampliação das políticas de proteção de dados de menores no ambiente escolar.

A infraestrutura de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) nas escolas brasileiras apresenta evolução, embora ainda registre desigualdades regionais. O uso de computadores e tablets fornecidos pelas próprias instituições cresceu nas escolas estaduais nos últimos anos, enquanto parte das redes particulares reduziu o acesso à internet em sala de aula em razão de políticas voltadas à diminuição de distrações durante as atividades escolares.

A utilização efetiva desses recursos também depende das condições de infraestrutura e da mediação pedagógica. A maioria dos professores utiliza tecnologias digitais em atividades educacionais, mas uma parcela expressiva dos docentes da rede pública ainda relata dificuldades relacionadas à velocidade da conexão e à ausência de recursos educacionais digitais, como softwares especializados, plataformas pedagógicas e equipamentos de robótica.

As tecnologias digitais têm sido incorporadas ao cotidiano escolar para personalizar o ensino e adaptar conteúdos e ritmos de aprendizagem às necessidades dos estudantes. Sistemas de tutoria inteligente e plataformas educacionais vêm sendo utilizados para recomendar conteúdos personalizados, apoiar revisões e auxiliar na preparação para exames, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Na área da inclusão, recursos como leitores de tela, tradutores automáticos e outras tecnologias assistivas ampliam o acesso à educação para alunos com deficiência.

Ao mesmo tempo, especialistas discutem os impactos do uso excessivo ou inadequado dessas ferramentas no processo educativo. Plataformas digitais estruturadas para maximizar o tempo de permanência e o engajamento dos usuários podem dificultar a concentração e a autorregulação emocional de crianças e adolescentes. Também há preocupação com os efeitos da automação sobre a interação humana no ambiente escolar e sobre o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, além do aumento do risco de plágio e fraude em atividades acadêmicas a partir da utilização de ferramentas de IA generativa.

Os dados da TIC Educação 2025 mostram que a incorporação da inteligência artificial nas escolas ainda ocorre de forma limitada. Apenas 37% das instituições brasileiras permitem que estudantes utilizem IA em atividades educacionais, índice que chega a 47% nas escolas estaduais. A pesquisa também aponta que 51% das escolas proíbem que os alunos levem celulares para o ambiente escolar, enquanto outras redes determinam que os aparelhos permaneçam guardados durante o período de aula.

Outro destaque da edição de 2025 é a ampliação do debate sobre saúde mental. O impacto das tecnologias digitais no bem-estar psicológico dos estudantes passou a ser discutido em 80% das escolas brasileiras, avanço em relação aos 62% registrados anteriormente. O tema ganhou espaço nas políticas escolares em meio ao aumento das preocupações com uso excessivo de telas, ansiedade, concentração e relações sociais mediadas por plataformas digitais.

Cenário estadual em relação ao uso da IA na educação

Em Goiás, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc-GO) lançou o “Guia Pedagógico para o Uso da Inteligência Artificial na Educação Básica”, voltado à capacitação de professores para a utilização ética, criativa e responsável da IA no ambiente escolar. O documento parte do princípio de que o papel do professor permanece central no processo de ensino, mas pode ser fortalecido pelo uso de novas ferramentas capazes de ampliar possibilidades pedagógicas e aproximar a escola da realidade digital dos estudantes.

O guia orienta a utilização de diferentes plataformas para apoiar a prática docente. Entre elas está a Teachy, voltada ao planejamento de aulas e elaboração de atividades; a Magic School, destinada à geração de conteúdos pedagógicos e atendimento individualizado; o Google Gemini e o ChatGPT, recomendados para apoio à resolução de dúvidas, programação e produção de textos; e a Gamma.app, utilizada para criação de apresentações e slides interativos. O material também orienta professores a estruturar comandos específicos para a IA, criando perfis de atuação da ferramenta e utilizando referências como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e o Documento Curricular de Goiás.

A estratégia da Seduc-GO prioriza o desenvolvimento de competências digitais que vão além do domínio técnico das ferramentas. O documento destaca habilidades relacionadas ao pensamento crítico, à adaptabilidade, à resolução de problemas e ao protagonismo dos estudantes no uso da tecnologia, incentivando a utilização de recursos digitais para criação de projetos, produção de conteúdo e participação em iniciativas de impacto social.

O avanço da inteligência artificial também ampliou o debate sobre o papel dessas ferramentas no processo pedagógico. Pesquisadores apontam que sistemas capazes de identificar padrões de aprendizagem podem influenciar a forma como professores interpretam o desempenho dos estudantes e organizam intervenções pedagógicas. Nesse contexto, a IA deixa de ser apenas um recurso técnico e passa a integrar decisões que anteriormente dependiam exclusivamente da avaliação humana.

Especialistas também discutem o risco de enfraquecimento do pensamento crítico quando estudantes passam a delegar à inteligência artificial tarefas de organização, planejamento e produção textual. A preocupação está relacionada à possibilidade de elaboração de trabalhos formalmente corretos, mas sem compreensão aprofundada do conteúdo. Outro ponto recorrente envolve a chamada “caixa-preta algorítmica”, expressão utilizada para descrever sistemas cujos critérios de funcionamento e tomada de decisão nem sempre são transparentes para professores, alunos e instituições.

Além da transparência, há preocupação com a reprodução de preconceitos e desigualdades estruturais quando algoritmos são treinados com bases de dados enviesadas. Esse cenário reforça a necessidade de letramento em inteligência artificial e educação midiática, de modo que estudantes compreendam como essas tecnologias operam, identifiquem limitações e avaliem criticamente as informações produzidas por sistemas automatizados.

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