quinta-feira, 17 de setembro de 2026
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Ministério da Saúde monitora efeitos do El Niño em 399 municípios do Centro-Oeste

Ministério da Saúde prepara rede para possíveis impactos do fenômeno, com previsão de seca, calor extremo, tempestades e incertezas hídricas em diferentes regiões

Anna Salgadopor em
El Niño
Foto: Fernando Frazão/ABr

O Ministério da Saúde apresentou, nesta quarta-feira (16), às estratégias de preparação do Sistema Único de Saúde (SUS) para os possíveis impactos do fenômeno El Niño, em um cenário de seca, calor extremo, tempestades e incertezas hídricas. A previsão indica mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade “muito forte” entre setembro e novembro, com 69% de chance de se consolidar como o evento mais intenso desde 1950. A janela de risco climático e sanitário deve se estender até, pelo menos, o primeiro trimestre de 2027. No Centro-Oeste, 399 municípios estão sob monitoramento especial devido à seca, ao calor intenso e ao risco de incêndios no Cerrado.

A apresentação ocorreu durante uma coletiva on-line com quase 130 jornalistas de todas as regiões do país. Segundo o Ministério da Saúde, o cenário pode ampliar riscos à saúde em diferentes regiões brasileiras, incluindo a proliferação de arboviroses, o agravamento de doenças cardiorrespiratórias, surtos de enfermidades transmitidas pela água e episódios de sofrimento psicossocial.

Durante o encontro, o Ministério defendeu a preparação antecipada do SUS para eventos climáticos extremos, com ações permanentes de prevenção e resposta. O planejamento considera as diferenças regionais, como estiagens severas no Norte e Nordeste, temporais e deslizamentos no Sudeste, chuvas extremas e cheias no Sul e seca acompanhada de calor intenso e incêndios florestais no Centro-Oeste.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que as mudanças climáticas estão diretamente relacionadas à saúde pública. “Para nós é muito importante essa mobilização junto à imprensa, porque nós queremos reafirmar cada vez mais que a crise climática é, acima de tudo, uma crise de saúde pública”, declarou.

Padilha citou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo os quais uma em cada quatro mortes no planeta já está relacionada a fatores ambientais. Também mencionou a estimativa de 35 mil mortes associadas a ondas de calor no último verão europeu, além da identificação do mosquito Aedes aegypti no Reino Unido e de casos autóctones de chikungunya na França.

O ministro também criticou o negacionismo científico e afirmou que a preparação brasileira para o El Niño é baseada em evidências científicas. “Nós não podemos permitir no Brasil e no mundo que aconteça o que aconteceu na pandemia da COVID-19, onde o negacionismo de negar ciência, negar vacina… A preparação para o El Niño é baseada na ciência”, pontuou.

Risco de paralisação em hospitais

O diretor de programa da Secretaria Executiva do Ministério da Saúde, Nilton Pereira, apresentou os estudos utilizados para orientar as ações federais. Entre os dados citados está a estimativa de que pelo menos um a cada 12 hospitais no mundo possui risco real de paralisação das atividades assistenciais em razão de eventos climáticos extremos. O dado também foi apresentado pelo Ministério da Saúde no lançamento do AdaptaSUS.

No Brasil, pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) estima que aproximadamente 120 mil mortes registradas entre 2000 e 2019 estiveram associadas às ondas de calor. O estudo também identificou aumento do risco de internações por doenças respiratórias, renais e gastrointestinais durante períodos de temperaturas extremas.

Também houve aumento de mais de 1.000% na exposição de pessoas com mais de 65 anos a ondas de calor na América Latina na comparação entre os períodos de 1981–2000 e 2015–2024. O dado integra o relatório regional do Lancet Countdown sobre saúde e mudanças climáticas.

Entre as medidas apresentadas está o AdaptaSUS, Plano Nacional de Adaptação do Setor Saúde às Mudanças Climáticas, lançado na COP30. O programa prevê investimento de R$ 9,8 bilhões para fortalecer a resiliência do SUS até 2035, com 27 metas e 93 ações estratégicas voltadas principalmente às populações mais vulneráveis.

Na área de resposta a emergências, o Ministério da Saúde está estruturando nove bases regionais da Força Nacional do SUS (FN-SUS), distribuídas pelas cinco regiões do país. Atualmente, três estão em funcionamento, em Porto Alegre (RS), Salvador (BA) e Rio de Janeiro (RJ), enquanto outras seis estão previstas até o fim de 2026. O plano nacional prevê deslocamento de equipes em até 48 horas. As estruturas contam com posto médico avançado, comunicação via satélite, drones e equipamentos de apoio.

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Foto: Reprodução/Eduardo Branquinho

Rede de saúde monitora efeitos da seca e do calor em Goiás 

A estrutura de monitoramento também inclui oito Centros de Informação em Saúde e Clima (CISC), localizados em cidades das cinco regiões do país, além das ferramentas de acompanhamento climático e sanitário utilizadas pelo Ministério da Saúde. Os sistemas cruzam dados meteorológicos e de satélite com registros de atendimento do SUS para antecipar possíveis aumentos nas internações e orientar gestores municipais sobre medidas preventivas.

Também são utilizados sistemas de vigilância em tempo real, como o VigiAR, voltado à poluição e à fumaça de queimadas; o Vigiagua, para monitoramento da qualidade da água; e o Vigidesastres. No aplicativo gratuito Meu SUS Digital, está disponível o Painel Nacional de Excesso de Calor, que permite consultar, por município, a previsão de ondas de calor para os cinco dias seguintes e relacionar os dados de temperatura aos índices de vulnerabilidade socioambiental.

Por meio do Novo PAC Saúde, o governo federal também prevê investimentos na infraestrutura física da rede pública. Entre as ações estão a construção de novas Unidades Básicas de Saúde (UBS), a ampliação da frota de ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e soluções de acesso à água potável destinadas a terras indígenas e comunidades isoladas.

No Centro-Oeste, o período é marcado por seca, temperaturas elevadas e risco de incêndios florestais no Cerrado. Ao todo, 399 municípios da região estão sob monitoramento especial devido ao risco de incêndios florestais. O número inclui cidades de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e do Distrito Federal, com 23 municípios em alerta vermelho, 154 em laranja e 222 em amarelo.

Em Goiás, a estiagem pode reduzir os níveis de umidade do solo e afetar bacias hidrográficas. A previsão para o trimestre setembro-outubro-novembro aponta temperaturas acima da média e maior probabilidade de chuvas abaixo do normal em áreas do Brasil Central, incluindo o norte de Goiás. O cenário também pode contribuir para o prolongamento da estação seca e aumentar o risco de incêndios florestais.

A exposição prolongada à fumaça das queimadas pode agravar doenças respiratórias, como asma, bronquite e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), além de aumentar a demanda por atendimento relacionada ao estresse térmico. A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) também alerta para irritação nos olhos, nariz e garganta, tosse, falta de ar e agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares.

Para Goiás, o Governo Federal destinou recursos do Novo PAC Saúde para ampliar e estruturar a rede pública. Os investimentos incluem novas unidades e obras voltadas à adaptação dos serviços de saúde aos eventos climáticos extremos.

A Atenção Primária no estado conta ainda com profissionais do Mais Médicos, que atuam principalmente em equipes de Saúde da Família. O programa também integra a estratégia de fortalecimento da atenção básica diante de situações de emergência e vulnerabilidade.

Cuidados com mais vulneráveis

Durante o período seco, autoridades de saúde em Goiás reforçam os cuidados com grupos considerados mais vulneráveis aos efeitos do calor e da baixa umidade, especialmente idosos, crianças, gestantes e pessoas com doenças preexistentes.

Entre as crianças e idosos, a atenção é direcionada também aos casos de cardiopatias que exigem tratamento contínuo.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), crianças e idosos com insuficiência cardíaca frequentemente utilizam medicamentos de uso contínuo, como diuréticos, vasodilatadores e betabloqueadores. A perda excessiva de líquidos provocada pela transpiração e alterações nos níveis de eletrólitos podem favorecer o surgimento de arritmias e comprometer a função cardíaca.

Entre as recomendações para o período de estiagem estão manter as crianças em locais bem ventilados, oferecer líquidos constantemente e evitar exposição direta ao sol entre 10h e 16h. A SES-GO também orienta a redução ou reprogramação de atividades físicas e trabalhos ao ar livre nos horários mais quentes.

Em situações de fumaça intensa, a orientação é evitar áreas afetadas e permanecer em ambientes fechados, desde que não haja risco direto de incêndio. Quando a exposição for inevitável, a SES-GO recomenda o uso de máscaras do tipo PFF2 ou N95.

O Ministério da Saúde mantém o monitoramento das condições climáticas e dos possíveis impactos sobre a população. Em Goiás, entre as recomendações para o período de estiagem estão: manter as crianças em locais bem ventilados, oferecer líquidos constantemente e evitar exposição direta ao sol entre 10h e 16h.

 

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