sexta-feira, 11 de setembro de 2026
SAÚDE DO HOMEM

46% dos homens só vão ao médico quando sentem dor; entenda por que isso é um problema

Pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia mostra que medo do diagnóstico e resistência cultural afastam homens da prevenção; silêncio do corpo não significa saúde

Luana Avelarpor em
homens

A consulta vai ficando para depois. Primeiro, porque não há dor. Depois, porque falta tempo. Em seguida, porque surge o receio de descobrir alguma coisa. Quando o atendimento finalmente entra na agenda, muitas vezes já existe um sintoma, uma limitação na rotina ou a insistência de alguém da família. Esse roteiro, repetido por gerações, ajuda a explicar por que a prevenção ainda ocupa pouco espaço na saúde masculina.

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), feito em setembro de 2023 com 1.500 homens acima de 40 anos de todas as regiões do país, dimensiona esse comportamento. Entre os entrevistados, 46% disseram procurar o médico apenas quando sentem algo. Entre os que dependem exclusivamente do SUS, o índice chega a 58%. No grupo de 40 a 44 anos, quase metade afirmou seguir essa lógica.

O dado chama atenção porque a preocupação existe. Metade dos participantes relatou medo ou ansiedade ao pensar na própria saúde, mas somente 32% se declarou muito preocupada com ela. O câncer de próstata aparece no topo dos receios, seguido pela impotência sexual. O medo está presente, mas nem sempre se transforma em acompanhamento.

O problema não começa no consultório

A resistência ao cuidado é construída antes da primeira consulta. Durante muito tempo, meninos foram ensinados a suportar desconfortos, não demonstrar fragilidade e “aguentar firme”. Quando essa ideia chega à vida adulta, pode aparecer de forma menos explícita: sintomas são minimizados, consultas são adiadas e a prevenção vira algo a ser lembrado apenas depois de um susto.

A falta de tempo também entra nessa conta, mas nem sempre explica tudo. Trabalho, compromissos e responsabilidades familiares ocupam a rotina, enquanto o cuidado pessoal vai para o fim da fila. O medo do diagnóstico completa o ciclo: evitar a consulta passa a funcionar como uma tentativa de evitar a própria possibilidade de uma doença.

O problema é que várias condições comuns em homens não precisam causar dor para avançar. Hipertensão, colesterol alto, diabetes e alterações da próstata podem permanecer silenciosos durante anos. Esperar o corpo “avisar” pode significar descobrir o problema apenas quando ele já exige tratamento mais complexo.

A próstata ocupa espaço desproporcional no imaginário masculino. Na pesquisa, 58% apontaram o câncer como a doença urológica que mais provoca medo. O exame de toque retal ainda assusta um em cada sete entrevistados, com maior receio entre homens acima de 60 anos e moradores do Centro-Oeste.

Ao mesmo tempo, uma condição frequente é pouco conhecida. Apenas 43% disseram saber o que é a hiperplasia prostática benigna, caracterizada pelo aumento da próstata que é mais comum a partir dos 50 anos. O crescimento pode comprimir a uretra e provocar aumento da frequência urinária, jato mais fraco, dificuldade para iniciar a micção e urgência para urinar.

A contradição é clara: teme-se uma doença específica, mas o cuidado regular com a saúde como um todo continua sendo adiado. É justamente esse olhar mais amplo que precisa entrar na rotina.

Dados do IBGE indicam que os homens vivem, em média, sete anos a menos que as mulheres. A SBU chama atenção para outro equívoco: a saúde masculina não se resume ao câncer de próstata. Doenças cardiovasculares, pulmonares e gastrointestinais também são frequentes e podem se relacionar a fatores como sedentarismo, tabagismo e consumo de álcool.

Check-up não é uma lista pronta

Prevenção não significa fazer uma bateria de exames sem orientação. O primeiro passo é criar vínculo com um profissional e manter acompanhamento periódico. Clínico geral ou urologista podem avaliar idade, histórico familiar, hábitos e fatores de risco antes de definir quais exames fazem sentido para cada pessoa.

Entre os testes que podem fazer parte dessa avaliação estão hemograma, glicemia, hemoglobina glicada, colesterol e triglicérides, creatinina, exame de urina e enzimas do fígado. A aferição da pressão também é básica, justamente porque a hipertensão pode passar despercebida.

Na saúde da próstata, o PSA é um dos exames usados no acompanhamento, mas não deve ser interpretado isoladamente. A indicação, a frequência e a leitura do resultado dependem da avaliação médica e podem variar conforme idade, histórico familiar e outros fatores de risco.

Mais do que decorar uma relação de exames, o que faz diferença é não transformar a consulta em último recurso. Atividade física, alimentação equilibrada, não fumar, evitar excesso de álcool e prestar atenção à saúde mental também fazem parte da prevenção.

Cuidar da saúde antes da dor exige mudar uma ideia antiga: a de que procurar ajuda é sinal de fraqueza. Na prática, o maior risco está no contrário — tratar o silêncio do corpo como garantia de que está tudo bem. A prevenção começa justamente quando ainda não há nada doendo.

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