sexta-feira, 6 de novembro de 2026
cinema brasileiro

“Honestino” chega aos cinemas com estreia especial em Goiânia

Filme com Bruno Gagliasso e direção de Aurélio Michiles resgata a história do líder estudantil goiano desaparecido pela ditadura em 1973

Luana Avelarpor em
Honestino

Mais de meio século separa o desaparecimento de Honestino Guimarães das gerações que hoje conhecem a ditadura apenas por relatos, documentos e livros de história. É sobre essa distância, e sobre o risco do esquecimento, que se constrói “Honestino”, filme dirigido por Aurélio Michiles e protagonizado por Bruno Gagliasso. O longa ganha sessão especial nesta quinta-feira (13), no cinema Aurum, no Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia, e leva às telas a história do goiano, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), perseguido e desaparecido em 1973 durante a ditadura militar.

 

 

Mais do que contar a vida de Honestino, o filme tenta impedir que a ditadura se torne um passado distante demais para quem nasceu depois dela. Ao misturar documentos, depoimentos e ficção, Michiles aproxima épocas diferentes sem transformar o cinema em aula. Gagliasso leva esse movimento para a interpretação, ao olhar menos para a figura histórica e mais para tudo o que a repressão interrompeu.

Em entrevista ao O HOJE, o ator conta que esse foi o ponto de partida da interpretação. “Como ator, eu não queria interpretar um símbolo. Eu precisava encontrar o homem antes do símbolo: o filho, o pai, o amigo, o jovem cheio de desejo, humor, contradições, sonhos”, afirma Gagliasso.

A preparação e as filmagens mudaram a forma como Gagliasso passou a enxergar aquele período. “Quando você se aproxima do Honestino dessa maneira, palavras enormes como liberdade, violência ou democracia deixam de ser conceitos e passam a ter rosto. Passam a ter uma mãe esperando um filho voltar para casa. Passam a ser uma cadeira vazia, uma conversa interrompida, uma vida que não pôde continuar”, conta o ator.

Depois das filmagens, uma impressão permaneceu. “Alguns personagens a gente termina de filmar e consegue devolver, entregar e ok. Honestino não foi assim. Ficou comigo a vitalidade dele”, diz. “Talvez o que tenha ficado comigo seja justamente essa sensação de futuro interrompido. Às vezes penso menos no que aconteceu com Honestino e mais em tudo aquilo que ele ainda poderia ter vivido”, afirma.

Para Gagliasso, manter histórias da ditadura em circulação continua necessário porque, apesar da quantidade de livros, pesquisas e produções audiovisuais dedicadas ao tema, ainda existe uma parcela da sociedade disposta a relativizar a gravidade daquele período. A lembrança, nesse sentido, deixa de cumprir apenas uma função histórica. Serve também para reconhecer os mecanismos que permitiram rupturas no passado e impedir que eles sejam normalizados quando reaparecem sob novas formas.

Essa reflexão chega também às novas gerações. “O que mais me preocupa é a indiferença. Pois desconhecer uma história ainda permite descobri-la. O que me assusta é quando a gente conhece uma tragédia humana e ela não nos comove”, observa Gagliasso.

Aurélio Michiles encontrou no cruzamento entre documentário e dramaturgia a forma de levar essa memória à tela. A opção permite trabalhar com os registros que sobreviveram sem fingir que os arquivos são capazes de responder a tudo.

Ao explicar a escolha, o diretor diz que o objetivo era “iluminar um lugar obscuro da nossa história”. Só os documentos, porém, não bastavam para o filme que pretendia fazer. Era preciso, segundo ele, “criar uma dramaturgia que fizesse a conexão entre o passado com o presente”.

Essa liberdade encontra um limite claro. Michiles não pretende usar a ficção para remodelar Honestino segundo questões de hoje. “O limite é o compromisso em fazer do passado algo que dialogue”, afirma o diretor. Para ele, o personagem precisa permanecer ligado aos desafios enfrentados por sua própria geração.

Michiles aposta no cinema como uma ponte entre gerações. “O bom do cinema é exatamente essa capacidade de criar oportunidades de reconstruir o tempo e o espaço para as gerações que não vivenciaram o ambiente hostil e sinistro como foram aqueles 21 anos de ditadura”, afirma o diretor.

Gagliasso tampouco espera que o espectador saia da sala apenas com informações novas. “Mas eu não gostaria que o filme fosse uma aula de História. Acho que o cinema pode fazer diferente: pode produzir encontro. Antes de compreender datas, acontecimentos e contextos, você encontra uma pessoa”, explica.

Essa aproximação pode começar na tela e continuar em outro lugar. O ator imagina que jovens que nunca ouviram falar de Honestino saiam do cinema dispostos a perguntar aos pais ou avós onde estavam naquele período, do que se lembram e o que era discutido ou silenciado dentro de casa.

“Porque a memória de um país também é feita dessas pequenas memórias familiares. Do que foi contado e também do que ficou em silêncio”, afirma Gagliasso. A sessão em Goiânia acrescenta ainda uma proximidade particular: Honestino nasceu em Itaberaí. Para Michiles, apresentar o filme no estado permite que mais pessoas conheçam a trajetória daquele jovem goiano que se tornou uma das principais lideranças estudantis de sua geração.

A partir desta quinta-feira (13), “Honestino” chega aos cinemas brasileiros como um convite que ultrapassa aqueles que viveram o período ou já conhecem sua história. Vale para quem ouviu falar da ditadura dentro de casa, para quem a estudou apenas nos livros e também para quem ainda sabe pouco sobre ela. O filme não pede ao público que contemple o passado à distância. Pede que o coloque novamente em discussão.

Porque preservar uma memória não significa mantê-la imóvel. Significa fazê-la circular, provocar perguntas e atravessar gerações. É essa a aposta de “Honestino”: transformar memória em conversa e fazer com que a história continue incomodando o suficiente para não ser repetida.

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