quarta-feira, 30 de setembro de 2026
CINEMA

Antes dos palcos, Bananada nas Escolas desperta interesse pela música independente em Goiânia

Após quatro ações em escolas públicas de Goiânia, projeto revela jovens curiosos pela cena alternativa e pelos bastidores da produção cultural; em 2027, iniciativa deve dobrar de tamanho

Luana Avelarpor em
Antes dos palcos, Bananada nas Escolas desperta interesse pela música independente em Goiânia

Sete anos separam o último Festival Bananada da edição que começa nesta terça-feira (18), em Goiânia. Para parte dos estudantes que participaram do Bananada nas Escolas nas últimas semanas, isso representa quase metade da vida. Muitos tinham 10 ou 11 anos quando o festival aconteceu pela última vez. Antes de retomar os palcos, portanto, o Bananada encontrou uma geração que pouco conhecia sua história, mas demonstrou curiosidade pela música independente e, principalmente, pelo universo profissional que existe ao redor dela.

As quatro ações passaram pelo Colégio Estadual Murilo Braga, pela Secretaria de Estado da Educação, pelo CEPI Lyceu de Goiânia e pelo CEPI Pré-Universitário. A programação terminou na sexta-feira (14), depois de encontros com apresentações, DJ sets e conversas sobre criação, produção cultural e os bastidores de um festival.

Para Daniel Atassio, produtor do Bananada, a resposta dos alunos contrariou uma inquietação que ele carregava antes de entrar nas escolas. Em uma geração atravessada por celulares, redes sociais e consumo digital, encontrou jovens ainda interessados em sair de casa, ouvir música ao vivo e conhecer a cena cultural da cidade. “Eu fiquei bem esperançoso, muito esperançoso mesmo”, resume.

Daniel encontrou tanto alunos que já acompanhavam artistas alternativos quanto jovens que pouco conheciam a cena independente de Goiânia. No ensino médio, quando Enem, vestibular e escolha profissional começam a ganhar espaço, as conversas também apresentaram caminhos menos óbvios, como produção musical, técnica, eventos e outras áreas ligadas à cultura.

No CEPI Lyceu, os encontros foram conduzidos pela DJ Gabi Mattos e pelo cantor, compositor e guitarrista Brunno Veiga, que acaba de lançar A Outra Face, seu primeiro trabalho solo. Para a estudante Sophia Guimarães, uma das primeiras descobertas veio pela própria música.

Sophia conta que “O Bananada nas Escolas me deu uma oportunidade de conhecer novos artistas. Além disso, o evento contribui para descentralizar a música sertaneja em Goiânia, mostrando novas possibilidades e diferentes formas de vivenciar a música. O que mais me surpreendeu foi a talentosa DJ Gabi, principalmente pela sua energia cativante”.

O contato deixou uma curiosidade que não existia antes. A estudante afirma que “se não fosse o projeto, provavelmente eu não teria despertado o desejo de conhecer mais sobre a música independente”.

Ela também saiu interessada em entender técnicas de violão e o equipamento utilizado na discotecagem. Mas a experiência provocou outra vontade: passar de espectadora à experimentação. Sophia diz que “gostaria muito que acontecessem oficinas, para que os alunos que já possuem talento pudessem desenvolvê-lo ainda mais e, até mesmo aqueles que ainda não têm uma profissão em mente, pudessem descobrir e desenvolver suas aptidões”.

Para ela, muitos interesses ainda ficam escondidos por falta de espaço ou incentivo. A presença dessas atividades na escola pode ampliar justamente o repertório de possibilidades em uma fase na qual os estudantes começam a decidir o que pretendem fazer depois do ensino médio.

Brunno Veiga levou a conversa para uma parte menos visível da carreira musical: o momento em que tocar deixa de ser apenas interesse e passa a exigir conhecimento sobre produção, mercado e organização. Ele começou tocando com amigos e, à medida que o trabalho ganhou alcance, apareceram novas exigências.

“Acredito que pra todo mundo que se envolve com cultura, em algum ponto, vai aparecer a necessidade de entender melhor do funcionamento das coisas”, explica o cantor. Para ele, compartilhar esse aprendizado ainda na escola pode antecipar conhecimentos que muitos profissionais só encontram quando já estão tentando construir uma carreira.

A conversa também mostrou que a música não emprega apenas quem segura o microfone ou um instrumento diante do público. “Áreas de produção e bastidores, por exemplo, podem gerar muitas oportunidades boas, mas que às vezes não chegam pras pessoas tão facilmente”, afirma Brunno. Segundo ele, é importante compreender que “a nossa cultura é movimentada por uma cadeia de pessoas interligadas e engloba diversas profissões”.

No Lyceu, essa idéia encontrou resposta quase imediata. Depois da atividade, um estudante de 18 anos procurou Daniel interessado em trabalhar na produção técnica do Bananada. Músico, queria conhecer especialmente o trabalho ligado ao palco. O produtor decidiu convidá-lo para integrar a equipe do festival.

As quatro passagens pelas escolas também mexeram nos planos para o próximo ano. A equipe decidiu dobrar o tamanho do projeto: em 2027, o Bananada nas Escolas deve passar de quatro para oito ações, com mais atrações e uma programação ampliada. O Festival Bananada 2026 é realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras.

Nesta segunda-feira (17), enquanto a montagem para o Bananada entra na reta final, a passagem pelas escolas deixa uma espécie de prólogo para o festival que começa amanhã. Mais do que conhecer de perto essa cena, os estudantes puderam perceber que ela também depende deles para continuar se renovando: há espaço para criar, produzir, trabalhar nos bastidores, subir ao palco e, sobretudo, ajudar a construir coletivamente os próximos caminhos da música independente de Goiânia.

 

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