quarta-feira, 21 de outubro de 2026
REAPROXIMAÇÃO

O acordo que juntou o presidente Lula e Davi Alcolumbre

Reaproximação dos presidentes da República e do Congresso destrava pautas no Senado, mas participação de Moraes na articulação levanta dúvidas sobre interesses de cada lado

Bruno Goulartpor em
Lula e Davi Alcolumbre
Alexandre de Moraes recebeu Lula e Alcolumbre para uma conversa. Foto: Pedro Gontijo / Presidência Senado

Bruno Goulart

O que está por trás da paz entre Lula (PT) e Davi Alcolumbre (UB-AP)? A pergunta ganhou força em Brasília depois que o presidente da República e o presidente do Congresso Nacional retomaram o diálogo e, poucos dias depois, pautas de interesse direto do governo começaram a sair da gaveta. No meio dessa aproximação está o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que participou da articulação entre os dois políticos.

O resultado foi rápido. Na sexta-feira (14), Alcolumbre encaminhou para as comissões do Senado a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata do fim da escala 6×1, a PEC da Segurança Pública e o projeto que cria uma política nacional para minerais críticos e estratégicos. As propostas estavam paradas e eram tratadas pelo Planalto como prioridades antes das eleições de outubro.

A mudança chama atenção porque Lula e Alcolumbre estavam afastados desde abril, quando o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para o STF. A derrota foi uma das mais duras sofridas pelo governo no Congresso. Alcolumbre teve papel importante na condução do processo e, desde então, a relação entre os dois esfriou.

Agora, porém, o clima é outro. Em três encontros, os dois voltaram a conversar. Um dos momentos mais simbólicos ocorreu na casa de Alexandre de Moraes, que recebeu Lula e Alcolumbre para uma conversa. O ministro Cristiano Zanin também participou das articulações.

Interesses políticos

É justamente aí que surge a questão mais delicada: por que um ministro do Supremo teria intermediado uma aproximação política entre o presidente da República e o presidente do Congresso? O diálogo entre os Poderes é necessário. O problema é quando um integrante do Judiciário passa de interlocutor institucional a articulador de uma negociação que envolve interesses políticos e projetos que serão votados pelo Congresso.

E Moraes também tem interesses nessa relação. Não necessariamente eleitorais, mas institucionais e pessoais. O ministro é alvo de dezenas de pedidos de impeachment protocolados no Senado. Até julho, eram 52 pedidos contra Moraes. A decisão de dar andamento ou não a essas denúncias está nas mãos do presidente do Senado.

Ou seja: Alcolumbre ocupa uma posição que pode ser decisiva para Moraes. É o presidente do Senado quem controla a tramitação dessas denúncias e pode decidir se um pedido de impeachment avança ou permanece parado.

Esse dado torna a participação de Moraes na reaproximação ainda mais sensível. Não significa que exista um acordo para proteger o ministro, nem que Lula e Alcolumbre tenham negociado o arquivamento de pedidos contra integrantes do STF. Não há prova disso. Mas é legítimo questionar quais interesses estão em jogo quando um ministro que pode ser alvo de um processo político ajuda a reconstruir a relação justamente com quem preside a Casa responsável por esse processo.

O cenário fica ainda mais curioso porque Alcolumbre também tem muito a ganhar com a aproximação. Lula precisa do presidente do Senado para avançar sua agenda antes das eleições. A PEC do fim da escala 6×1 tem forte apelo popular e pode se transformar em uma das principais bandeiras sociais da campanha. A PEC da Segurança Pública, por sua vez, permite ao governo ocupar um tema em que enfrenta forte pressão da oposição.

Para Alcolumbre, a aproximação com Lula também pode ser útil para o projeto de continuar no comando do Senado em 2027. A reeleição para a Presidência da Casa depende de articulação política e de uma ampla composição entre partidos. A aproximação com o Planalto pode aumentar seu espaço de negociação.

Aliança

O especialista em Marketing Político e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Felipe Fulquim, vê a movimentação como sinal de uma aliança mais forte entre Lula e Alcolumbre. “É um sinal de que a aliança entre os dois está muito forte, muito sólida. E o presidente ganha ao marcar esse gol no sentido de trazer esse aliado, esse parceiro para o lado dele”, afirma.

Para Fulquim, a votação da 6×1 será o principal teste dessa nova relação. “Um teste de fogo vai ser justamente essa votação, para poder medir essa força, para poder dar essa dimensão de poder mesmo”, diz. A pauta tem peso eleitoral. Se Lula conseguir aprovar o fim da escala 6×1 antes das eleições, poderá apresentar a medida como uma vitória para os trabalhadores. “Dado o apelo popular, se o Lula conseguir emplacar a discussão e o fim da escala 6×1, ele tem muito ganho político para tirar da aprovação dessa pauta”, pontua Fulquim. (Especial para O HOJE)

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